‘A Última Noite’: longa independente leva música, amizade e caos da Lapa ao Festival do Rio

O longa de Pedro Belchior e Jhenifer Emerick está entre os 15 filmes brasileiros selecionados para a Première Brasil
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
A madrugada da Lapa, no Rio de Janeiro, é mais do que o cenário de A Última Noite. No longa independente dirigido por Pedro Belchior e Jhenifer Emerick, ruas, bares, becos, músicas e encontros atravessam a história de duas melhores amigas e compositoras que tentam terminar uma última canção juntas antes de uma possível despedida.
O filme terá estreia mundial no Festival do Rio 2026, dentro da Panorama Carioca, mostra da Première Brasil. O longa está entre os 15 filmes brasileiros selecionados para a Première Brasil que fazem sua première mundial no festival, que acontece entre 1º e 11 de outubro.
Na história, Mima e Elle atravessam uma noite pela Lapa enquanto lidam com aquilo que existe por trás de uma amizade intensa: amor, cumplicidade, descontrole, dependência, ressentimento e o medo de seguir em frente sem a outra.
A música não aparece apenas como elemento da trilha sonora. Ela está no centro da narrativa. As protagonistas são compositoras e têm como missão terminar uma última música juntas, enquanto a noite transforma a despedida em um mergulho na relação construída entre elas.
A própria estrutura do filme foi pensada a partir da lógica de um disco de vinil. Segundo Pedro Belchior, existe um “Lado A”, mais solar, impulsivo e marcado pela intimidade, pelas piadas e pela sensação de liberdade de atravessar a cidade ao lado da pessoa que conhece todas as suas versões. Depois, chega o “Lado B”, quando o peso da relação começa a aparecer.
“É quando essa mesma relação começa a mostrar todo seu peso, os machucados, e tudo aquilo que talvez precise acabar para que a gente consiga continuar”, explica o diretor.
Essa relação entre cinema e música também aparece na própria construção sonora do longa. A Última Noite reúne composições originais e performances criadas especialmente para o projeto, com trabalhos de Camila Paredes, Cesar Soares, semifinalista do The Voice Brasil, Otávio Carvalho, Clara Castro, Allen Alencar e Frito Sampler. A supervisão musical e boa parte da trilha original são assinadas pelo Submarino Fantástico, produtora de áudio que acumula três indicações ao Grammy Latino.
Uma Lapa sem filtro
Filmado nas madrugadas da Lapa, o longa incorpora à narrativa o movimento real das ruas. A proposta dos diretores foi evitar reconstruir ou controlar completamente o ambiente para a câmera e deixar que a cidade interferisse na história.
“A Lapa não é só cenário, ela virou parte do filme”, afirma Jhenifer Emerick, que também protagoniza e codirige a produção. “A gente rodou quase todas as cenas em externas, na madrugada, aceitando o movimento, os ruídos, os encontros e principalmente os imprevistos daquele universo.”
A diretora descreve a Lapa retratada no filme como um espaço em que “bagunça, arte, música, excesso, beleza e toda aquela contradição” convivem simultaneamente.
Visualmente, o longa aposta em uma câmera próxima das personagens e aberta ao que acontece ao redor. A proposta dialoga com uma tradição contemporânea de cinema de rua, na qual a cidade não é apenas pano de fundo, mas parte ativa da experiência das personagens.
Por isso, a Lapa de A Última Noite pode ser sedutora, engraçada, desordenada, agressiva e afetiva ao mesmo tempo. A madrugada funciona como um espaço de liberdade, mas também como um lugar onde as duas protagonistas são obrigadas a encarar o que a amizade delas se tornou.
Uma história inspirada na vida real
A trama é livremente inspirada em memórias e acontecimentos recentes das vidas de Pedro Belchior e Jhenifer Emerick. Amigos e parceiros criativos, os dois escreveram, dirigiram, produziram e participaram da criação das músicas originais do projeto.
A experiência pessoal serviu como ponto de partida para investigar um momento específico de uma amizade: quando uma relação que ajudou a construir quem você é já não necessariamente acompanha a pessoa que você está se tornando.
Na sinopse oficial, uma das personagens precisa decidir se embarca em um voo que pode representar sua libertação ou se permanece presa à noite que sempre pertenceu às duas. O que começa como uma despedida se transforma em uma espécie de acerto de contas afetivo.
Com Jhenifer Emerick e Polliana Aleixo nos papéis principais, A Última Noite marca a estreia de Belchior e Emerick na direção de um longa autoral.
Belchior chega ao projeto depois de deixar a Amazon MGM Studios, onde atuou como executivo criativo na construção da operação brasileira de produções originais. Já Emerick consolida uma nova etapa da carreira depois de conquistar duas premiações de melhor atriz e ser nomeada Cineasta Expoente pelo Filmmaker Connect.
O longa foi produzido pela Capitolina Filmes em associação com o Submarino Fantástico. A montagem é de Carolina Maduro, com consultoria da premiada montadora Karen Akerman, enquanto a direção de fotografia é de Allan Riggs, cineasta brasileiro radicado em Los Angeles e premiado no Festival de Gramado em 2026.
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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.
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