Pedro Parente não declara voto, mas vê em Flávio risco de concentração de poder com vitória da direita no Congresso

- Author, João Caminoto
- Role, De Paris para a BBC News Brasil
Published
Tempo de leitura: 8 min
Ex-ministro da Casa Civil e do Planejamento no governo Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da Petrobras e da BRF, Pedro Parente afirma que o resultado do primeiro turno mudou a equação do segundo.
"Agora tem um que realmente tem uma representação de risco para o país, dessa concentração de poder", diz. "É bem mais do que parecia ser antes do primeiro turno." Parente compara o cenário ao dos Estados Unidos, onde Trump governa com maioria republicana nas duas casas do Congresso.
Ainda assim, ele não declara voto. Diz que sua decisão é "individual e solitária" — expressão que ecoa o fecho de sua coluna "Convicção ou Responsabilidade?", publicada no sábado no jornal O Globo, em que discorre sobre o dilema de quem não se identifica com nenhum dos dois finalistas. Já havia afirmado, porém, que não vota em Flávio Bolsonaro (PL).
A declaração veio em uma carta publicada no LinkedIn, em resposta a um artigo de João Moreira Salles na revista piauí.
Moreira Salles criticou parte da elite econômica por relativizar os riscos à democracia para se aproximar da candidatura de Flávio e citou nominalmente executivos que participaram de um jantar com o candidato em São Paulo, organizado pelo ex-presidente do Credit Suisse Brasil Marcelo Kayath. Parente foi um deles.
Na carta, disse ter ido ao encontro para ouvir diretamente quem pode vir a ser presidente — e que saiu de lá com uma opinião pior do que a que tinha ao chegar.
Na entrevista à BBC News Brasil, Parente detalha o que viu no jantar: mesmo perguntado, Flávio não demonstrou ter um projeto de país. As propostas econômicas apresentadas foram genéricas e vieram não do candidato, mas de dois assessores — a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto. A possibilidade de moderação de Flávio, para ele, é "um enigma".
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Veja a seguir, a entrevista com Pedro Parente.

Crédito, Tânia Rêgo/Agência Brasil
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BBC News Brasil – Sua coluna de sábado no Globo, "Convicção ou Responsabilidade?", trata de um dilema que muita gente está vivendo. O que levou o senhor escrevê-la?
Parente – O fato de que eu mesmo estava vivendo o dilema. O voto, para mim, não é apenas escolher um dos postulantes, mas é também depositar a sua confiança, delegar a sua parcela — que é pequena, mas existente — a um eleito para governar o país. Não é pouca coisa. Não se trata tão somente de escolher o menos pior. É mais do que isso.
E esse "mais do que isso" estava me incomodando bastante. Porque, de fato, não tenho nenhuma simpatia por qualquer um dos candidatos. Não acho um nem um pouco preparado — nunca teve uma posição executiva, se elegeu na esteira dos votos destinados ao pai, me refiro ao Senado. E o outro, governos absolutamente desastrosos, especialmente do ponto de vista fiscal, do ponto de vista das alianças que escolheu, do ponto de vista da relação com o Supremo. Muito, muito ruim.
BBC News Brasil – O primeiro turno deixou quase 49 milhões de brasileiros sem votar em nenhum dos dois finalistas, três em cada dez. Como o senhor lê esse retrato?
Parente – Esse retrato é o retrato do desencanto. Desencanto com a política, desencanto com os candidatos. Uma percepção de que, qualquer que seja a escolha, o país não estará bem.
A gente está vendo agora, nessas últimas manifestações, um pouco mais de engajamento da turma da esquerda, aconteceu na Paulista e depois no Rio também. Foi importante. Mas no domingo vai ter também os bolsonaristas, e é óbvio que eles vão fazer uma tremenda mobilização para não ficarem atrás. Se ficarem atrás, vai ficar muito ruim para eles. É esse desencanto.
BBC News Brasil – Ainda sobre o artigo: o senhor citou Hannah Arendt e Max Weber. Na sua avaliação, neste momento, onde termina a responsabilidade de escolher o menos ruim e começa a transigência com as próprias convicções?
Parente – Tem um dado relevante aí, que é o resultado das eleições para a Câmara e para o Senado, onde a direita vai ter uma maioria importante nas duas casas. Isso é uma coisa que inclusive sacode — eu não sei se desmonta, mas sacode — a organização política que havia até agora em cima do Centrão, todo aquele fisiologismo descarado em cima de emendas, de fundos partidários.
E tem uma informação muito interessante: a maior parte dos recursos do fundo partidário foi destinada a reeleger quem já estava lá. Ou seja, o fundo está virando mecanismo de perpetuação do poder, quando deveria dar oportunidade de renovação.
E o que você tem aí é algo parecido com a situação americana. O Trump tinha maioria republicana na Câmara e no Senado, e nós vimos o que aconteceu nos Estados Unidos.
O que pode acontecer agora com um presidente que tenha também uma maioria importante nas duas casas? Isso para mim é um dado novo. E eu acho que aumentou a distância entre as dimensões do mal que cada candidato representa. Agora tem um que realmente tem uma representação de risco para o país, dessa concentração de poder. É bem mais relevante do que parecia ser antes do primeiro turno.
BBC News Brasil – E isso convence o senhor a dizer em quem vai votar?
Parente – Não. Isso eu deixo para a minha decisão. Individual e solitária.
BBC News Brasil – Em 2022, o senhor votou em Lula porque via no adversário um risco para a democracia. As instituições funcionaram?
Parente – Comprovou-se o risco. Mas as instituições funcionaram.
BBC News Brasil – No seu artigo, porém, o senhor diz que o governo que ajudou a eleger o decepcionou profundamente. O que o decepcionou?
Parente – A prática da velha política fisiológica, em que os interesses dos grupos, dos partidos, são colocados muito à frente do interesse público. O interesse público é um artigo em falta no Brasil. As alianças espúrias entre Executivo e Legislativo. O Judiciário também traz sinais extremamente preocupantes. O Supremo nem se fala. O Supremo, que deveria ser a casa do exemplo, a casa da virtude — sem nenhuma ironia —, foi objeto de artigo meu também.
Lula poderia ter tido um papel importante na definição de uma agenda bem mais positiva, bem mais propositiva para o país: reforço das instituições, alianças baseadas no interesse público e não nos interesses menores dos diversos grupos políticos. Isso, de resto, não é uma particularidade brasileira, mas a gente tem o dever de querer o melhor.
A gente quer ver o nosso país melhorar. E o país não melhorou nesses quatro anos. Piorou. Especialmente por esse quadro de relações baseadas nos acordões, no Centrão, nas emendas parlamentares.
Qual é o projeto político de país que a gente tem? Um projeto em que a gente olhe e fale "puxa vida, que legal esse país, eu quero morrer nele"? A gente vê pessoas falando o contrário: "eu quero ir embora do Brasil." Já ouvi várias pessoas dizendo isso. Eu acho que Lula teve uma oportunidade histórica de fazer um governo extremamente relevante para o país. E ele sucumbiu à política pequena.

Crédito, REUTERS/Adriano Machado
BBC News Brasil – Sobre o jantar com Flávio Bolsonaro: por que o senhor decidiu ir? E por que saiu de lá com uma opinião pior do que quando chegou?
Parente – Pela razão que eu expliquei naquela minha carta. Eu não tenho nenhuma razão para me desculpar. Fui convidado pelo anfitrião [Marcelo Kayath]. Entendi que ali eu tinha uma oportunidade única de escutar alguém que pode, sim, vir a ser presidente do Brasil. Ouvir o que essa pessoa pensa e diz diretamente, sem intermediários. Uma oportunidade extraordinária. E saí de lá com uma opinião pior do que a que tinha, porque, mesmo perguntado, ele não demonstrou ter um projeto de país. Isso, para mim, é fundamental. Absolutamente fundamental.
BBC News Brasil – Em relação às propostas econômicas — ajuste fiscal, reformas, equipe —, o senhor viu alguma coisa concreta?
Parente – Não vi nada concreto. Propostas genéricas, muitas delas apresentadas não pelo candidato, mas por dois assessores que estavam lá: a Daniella [Marques] e Roberto Campos Neto. Nada. E houve também um jantar com o Lula, para o qual não fui convidado — fiquei feliz por isso. Estava ali o mundo empresarial brasileiro, todo mundo. Podiam ter aproveitado a oportunidade para fazer uma conversa bastante elevada. Não quiseram. Não aconteceu.
BBC News Brasil – O mercado acredita que Flávio pode ser moderado. Isso foi possível com o pai dele? Ele já fala em mudar a Constituição a partir de 2027. O senhor acredita numa moderação do Flávio?
Parente – Eu acho que ele é um enigma. No jantar, se tem alguma coisa que eu posso dizer a respeito dele, não é negativa: ele não mostrou radicalismo. Também não mostrou coisas propositivas. Não vi na minha frente um radical. Mas a questão é o que acontece depois que for eleito — ainda mais com essa força toda da direita, essa composição dele no Congresso.
BBC News Brasil – O João Moreira Salles disse que a elite econômica relativiza o risco democrático para se aproximar de Flávio. O senhor acha que o empresariado, no geral, está dando mais peso ao ajuste de contas do que ao risco à democracia?
Parente – Não sei responder. Eu acho que é uma hipótese de trabalho, no sentido de que tem uma boa probabilidade de ser verdadeira. Mas eu não tenho informações para fazer uma afirmação desse tipo.

Crédito, REUTERS/Jean Carniel
BBC News Brasil – Havia uma expectativa de que o Lula, com o resultado negativo no primeiro turno, assumisse um posicionamento mais contundente, fosse para o centro. O senhor está vendo esse movimento?
Parente – Eu acho que ele se organizou para isso e teve sucesso, uma boa demonstração nas ruas nessa semana que passou. Ele está apostando muito nos debates, na entrevista da Globo. Eu acho que as próximas pesquisas, as que saem nesta semana, vão ser fundamentais.
Na semana passada saíram pesquisas contraditórias — algumas mostrando de fato Flávio na frente, uma delas mostrando Lula, mas o instituto não era muito conhecido, com uma margem de erro muito grande. As pesquisas da semana serão fundamentais para saber se Lula vai ter de fato chances de virar esse jogo.
BBC News Brasil – Uma última pergunta. O senhor já disse que não vota em Flávio. Para quem pensa em votar branco ou nulo: é uma decisão de consciência legítima ou uma omissão?
Parente – Eu acho que vai existir um grande número de brasileiros que vão votar de acordo com a sua consciência. Sem que isso queira dizer que quem vota de acordo com a sua consciência vota nulo ou branco. O peso do voto consciente vai ser realmente importante.
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