Ajudas para compra de eléctricos multiplicaram. É bom ou mau

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Está no ar o programa da Rádio Observador, em que falamos de automóveis, Operação Stop. Um programa sempre com a assinatura do Alfredo Lavrador, o nosso editor da seção auto. Alfredo, bem-vindo.
Obrigado, Miguel.
Hoje vamos falar de veículos elétricos e de apoios do Estado. Por quê? Porque o Estado apresentou esta semana, o governo apresentou esta semana, novos apoios. Há um reforço do apoio habitual para a compra de elétricos, há apoios para empresas, principalmente micro e pequenas empresas, e um apoio específico para as famílias mais carenciadas. Nós vamos falar disso no episódio de hoje. Há muito mais dinheiro no próximo ano para fomentar a aquisição de veículos elétricos. Mas Alfredo, num país em que, nas últimas semanas, se tem protestado pela habitação, e um país em que há problemas e há falta de casas para viver, faz sentido este investimento em automóveis elétricos novos?
São duas situações difíceis de conciliar, isso admito perfeitamente. Mas há um problema: é que não propor aos cidadãos casas acessíveis é uma vergonha, mas é uma vergonha que se arrasta há bastantes anos, e não resulta em multas. Porém, não vender carros elétricos em quantidade suficiente para que a média de emissões do parque circulante seja abaixo do limite imposto por Bruxelas, a que o Estado português está obrigado a cumprir, isso sai caro, são dezenas de milhões de multa. Logo, ou podes optar por não cumprir. Aliás, há vários países por aí fora, por essa Europa fora, que estão a lidar com esse problema e não sai barato. De maneira que, efetivamente, parece estranho estar a colocar dinheiro numa área que não é essencial, ou seja, não morre ninguém se não tiver um carro elétrico, pode ter um carro esvazado à gasolina, que faz o mesmo serviço. Polui mais, ok, mas ninguém morre. Pelo menos enquanto os chineses e os indianos continuarem a queimar carvão para produzir eletricidade, que é a forma mais poluente e que mais CO₂ e CO emite para a atmosfera, não faz muito sentido que a Europa e os países civilizados estejam a investir e a certificarse para reduzir as emissões de CO₂.
Vamos lá, o que é que muda? O que é que muda de 2026 para 2027 neste aspecto, em termos de ajudas à aquisição de veículos elétricos?
Olha, para começar, há três medidas, essencialmente. Há uma que é bem-vinda, é indiscutível. Até agora existiam 10 milhões de euros para que os particulares possam adquirir em condições vantajosas um veículo elétrico, o que prevê uma ajuda de até 4.000 € caso entregue-se um carro para abate. E isso é benéfico, uma vez que, em vez de 10 milhões de euros, o governo decidiu reforçar essa verba multiplicando-a por cinco, passa a haver 50 milhões disponíveis para esse fundo. Dirás tu: "Mas isso é muito bom". É mais ou menos. Porque até agora, em 2026, e aproveitando o nosso conhecimento daquilo que aconteceu no ano passado, os 10 milhões de euros duraram para duas horas. Abriram as inscrições, ao fim de duas horas fecharam porque acabou-se a massa. Com 50 milhões, em vez de 10 milhões, vamos prever que, nas mesmas condições, em vez de duas horas, irá durar cinco vezes mais, logo 10. Continua a não chegar meio-dia. É uma coisa que se abrir ali às 08h, antes das 18h está aviado, as pessoas que estão a trabalhar neste sistema podem ir para casa tranquilas, porque acabou-se a conversa. Isto é uma situação. É bom, a verba subiu, vão-se vender mais carros nessas condições. E simultaneamente vão-se tirar carros velhos, que são menos seguros. Esquece lá agora o mais poluentes durante um minuto, mas são carros que são menos seguros, já tiveram acidentes, já foram reparados, nem sempre bem.
Certo.
São um verdadeiro perigo sobre rodas. Ok, isso é bom. Segunda parte: criou-se um fundo para até 9.000 veículos destinados às pequenas, médias e microempresas. Portanto, micro e pequenas empresas. Isso também é bom, são empresas que têm mais dificuldade de tesouraria, nem sempre é possível. Muitas delas têm deslocações diárias e de grande monta, logo acaba por ser bom. Porém, o grosso da verba foi colocado no terceiro ponto, no terceiro aspecto, que é um fundo que o Estado decidiu atribuir até 20 mil veículos, que é o número mais sonante, digamos assim, para famílias carenciadas. Tudo de acordo, que as famílias carenciadas merecem o nosso apoio. E enquanto aguardávamos pelo início do programa, estivemos os dois a falar sobre o que são famílias carenciadas. Grosso modo, são pessoas que recebem o pai e a mãe 517 € por mês. Há outras condicionantes, se tiverem RSIS, e por aí fora, mas em condições normais, um indicativo para as pessoas perceberem do que é que estamos a falar, são 517 € por mês. E não há nenhuma família que, em conjunto, receba 1034 € por mês, os dois progenitores, que consiga pagar uma casa, pagar os alimentos, educar os filhos e por aí fora. Faz-me imensa confusão, porque ainda por cima, deixando-te um contato um aparte, eu tenho uma natural simpatia, não conheço a senhora, por esta ministra, porque basicamente ela é filha da minha professora de liceu de Ciências Naturais, que era uma professora que eu gostava bastante, mas nem assim eu consigo perceber este raciocínio. As pessoas, se não estão a morrer à fome, passam grandes dificuldades. A última coisa que eles querem é gastar dinheiro no elétrico. É tão idiota como tu propores para as famílias carenciadas, um subsídio para eles comprarem uma bomba de água para aquecer a água da piscina, que eles obviamente não têm. É a senhora nomeada, não interessa. Mas pronto, OK. Se calhar eu estou a ver mal o problema.
Eu percebo que já dá para perceber que não estás muito de acordo com estas ajudas à compra de veículos elétricos pelos mais carenciados. De facto, os valores que foram apresentados do que é uma família carenciada para este apoio, são de facto essas condições. Tem que ser uma família que esteja abrangida pela tarifa social de energia elétrica ao dia de hoje ou famílias com rendimentos anuais na ordem dos 11.500 €. E de facto, pensar num apoio para a compra de veículos elétricos por parte destas famílias não faz muito sentido, não é, Alfredo?
Eu acho que não faz, a sério. Mesmo tendo em conta que hoje em dia, e em 2027, a que este plano faz referência, vão existir muito mais opções. Há uma série de carros no mercado que custam menos de 20 mil €. São propostas relativamente baratas. Aliás, eu nem percebo como é que os veículos acessíveis para estas ajudas do Estado continuam fixados nos 38.500 €. Hoje em dia há propostas muito mais em conta. Ok, não vão até ao fim do mundo e voltam. Está bem, ok, não vão. Mas continuam a ser elétricos, continuam a fazer uma autonomia decente e são rápidos de recarregar, mais rápidos do que eram há 10 anos atrás. Deixa-me só recordar a quem nos ouve o seguinte: os primeiros carros elétricos que chegaram a Portugal, oferecidos assim em massa, ainda antes dos Tesla, foi um veículo chamado Mitsubishi e-MF. A Mitsubishi, já que estava com a mão na massa, fez simultaneamente um Peugeot, que foi o iOn, e um Citroën, que era o C-Zero. Mas estamos a falar do mesmo veículo com três marcas. Esses carros custavam 42 mil €. Eu lembro-me de ter ido a uma feira em Lisboa, na Expo, no Salão do Automóvel. Estavam lá os carros, toda a gente sempre fisga com aquilo. Aquilo fazia nem 100 quilómetros, de maneira que face às autonomias de hoje, era um espetáculo. Eram um verdadeiro globe trotters, mas andavam pouquíssimo, faziam poucos quilómetros, era o que era. Estamos a falar de um carro elétrico há 20 anos. Hoje em dia estão francamente melhores. Se calhar, se baixassem um bocadinho o valor de aquisição do carro, podiam ajudar mais pessoas. É só uma ideia.
Falta falar aqui da atenção que é dada pelo governo às pequenas e médias empresas. O que é que muda neste aspeto?
Muda que finalmente, em vez de entrarem no conjunto geral, digamos assim, em que as empresas podem aceder ao desconto de IVA, o que é um valor muito mais sumarento do que os 4.000 € dados aos particulares, porque um veículo elétrico adquirido por um particular, recebes 4.000 € e está o assunto resolvido. O IVA, para além de outras ajudas em termos fiscais, acaba por te dar, um veículo de 40.000 €, oferece-te 8.000 € no bolso, grosso modo. E isso acaba por ser o dobro daquilo que dão aos particulares. E daí que a maioria dos carros elétricos sejam comprados por empresas e não por particulares. Sobretudo porque os particulares, pelo menos no ano passado, serviram só durante duas horas. Este ano vai haver uns quantos mais.
Está feita esta edição da "Operação Stop" a falar destes novos apoios, estas novas ajudas para a compra de elétricos que vão entrar em vigor no próximo ano. Alfredo, está feita esta semana. Um abraço, para já com estes apoios para os elétricos.
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