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Friday, October 9, 2026

Excesso de oferta e incerteza regulatória freiam expansão de renováveis no Brasil, e novas instalações caem 27%

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São Paulo A capacidade instalada em novas usinas de energia renovável no Brasil recuou 27% de 2024 para 2025, e a retração contribuiu para a primeira queda na expansão de fontes limpas em toda a América Latina em mais de uma década. Os dados são de relatório da BloombergNEF ao qual a Folha teve acesso com exclusividade.

A organização calcula que 26 GW em projetos eólicos e solares, além de sistemas de baterias, foram implantados na região no ano passado, 23% a menos que os 34 GW adicionados no ciclo anterior.

O Brasil ainda segue como líder na instalação de renováveis em termos absolutos, com 17 GW acrescentados em 2025, apesar do tombo em relação aos 24 GW de 2024. A tendência é de mais reduções no país nos próximos anos, com 13 GW projetados para 2030.

Grande quantidade de placas solares sobre terra batida.
Placas de energia solar em Janaúba, no norte de Minas Gerais - Eduardo Anizelli - 4.dez.24/Folhapress

O corte forçado da geração de fontes renováveis é um dos principais responsáveis pela situação atual. Nos horários em que há muito sol ou vento, a oferta de energia limpa supera a demanda, o que provoca instabilidade no sistema elétrico e pode levar ao colapso da rede. Para evitar isso, é necessário interromper o funcionamento das usinas, prática conhecida como curtailment.

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Por outro lado, países como Chile e México estão acelerando a implementação de renováveis, inclusive aliadas a sistemas de baterias, que armazenam o excedente de energia e ajudam a reduzir as interrupções forçadas.

"O Brasil precisa se mover mais rápido do ponto de vista de regulação e também de sinais de preço, para fazer com que o mercado reaja e tenha velocidade na adaptação do sistema", diz Rafael Rabioglio, líder da BloombergNEF para América Latina.

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Apesar da queda brasileira, o relatório revisou para cima a previsão de crescimento de energia limpa em toda a América Latina até 2030, graças ao aumento do interesse por baterias.

Rabioglio afirma que as empresas do setor se frustraram com o fato de o último leilão de reserva de capacidade do governo federal, realizado em março, ter antecedido o certame de baterias, previsto para acontecer em dezembro.

"Vemos algumas empresas redirecionando seus esforços para o leilão de baterias, que é a grande demanda da vez. As discussões de projetos puramente de geração eólica ou solar, sem nenhum tipo de armazenamento, têm ficado cada vez mais reduzidas", diz.

O relatório projeta que os sistemas de armazenamento vão superar 1 GW no Brasil em 2028. O crescimento deve ser impulsionado inicialmente por projetos comerciais, industriais e residenciais instalados no lado do consumidor. O primeiro leilão deve inaugurar a implementação em larga escala.

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Novos projetos eólicos no território nacional somaram 2 GW em 2025, metade dos 4 GW de 2024. Para 2027, apenas 0,4 GW são previstos.

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"O aumento dos cortes de geração, a incerteza regulatória quanto à compensação dos desenvolvedores e a baixa viabilidade econômica dos projetos estão adiando decisões de investimento, e uma recuperação gradual é esperada apenas para o fim da década", afirma o relatório.

Também houve queda na instalação de grandes usinas solares, que adicionaram 3 GW no ano passado, contra 7 GW em 2024.

A implantação de pequenos sistemas fotovoltaicos, como aqueles colocados sobre telhados, caiu de 13 GW para 12 GW. A BloombergNEF projeta reduções nos próximos anos devido ao corte de incentivos.

"Os dados confirmam o que o setor vem alertando: o Brasil não perdeu sol, demanda nem competitividade tecnológica. Perdeu previsibilidade", diz Bárbara Rubim, presidente do conselho de administração da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica).

O relatório projeta uma forte expansão nas renováveis no México, após o país registrar estagnação nos últimos anos. Novas usinas eólicas e solares devem somar 8,5 GW em 2030, um salto em relação ao 1,1 GW que o país acrescentou em 2025.

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"Vemos novos investimentos em renováveis sendo confirmados por conta da reforma que a presidente [Claudia] Sheinbaum está fazendo para aumentar o investimento em renováveis e uma série de compromissos, com regimes de contratação mistos", diz Rabioglio.

No Chile, a instalação de baterias avança e atrai novos empreendimentos. A alta da energia solar deve persistir na Colômbia, e o Peru bateu recorde de renováveis em 2025, com novas leis que prometem acelerar a implantação.

Rubim diz que o contraste entre o Brasil e as nações vizinhas é preocupante: "Enquanto México e Chile aceleram, a BloombergNEF projeta que o Brasil não voltará, nesta década, ao ritmo de instalação de 2024. O Chile enfrentou o mesmo problema de cortes de geração e respondeu com uma expansão acelerada de baterias".

"É um problema de eficiência econômica e de segurança energética: não basta instalar nova geração se o país não consegue transportar, armazenar e utilizar essa energia quando ela é necessária", afirma. "O desafio cresce com a chegada de data centers, hidrogênio verde, novas indústrias eletrointensivas e a eletrificação dos transportes."

Em junho, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) acionou um plano emergencial inédito de corte de energia. Além de interromper a geração em grandes usinas, também foi necessário suspender 1 GW em geradores de menor porte. O corte alcançou 15 GW em plantas no Nordeste, que concentra grandes usinas eólicas.

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"O governo tem tomado algumas decisões sobre o curtailment, e isso ajuda a trazer algum conforto para o setor, mas até agora não foi suficiente para fazer com que os níveis de investimento do Brasil voltem", afirma Rabioglio.

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