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Thursday, October 1, 2026

'Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro geram pouco entusiasmo', diz brasilianista

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Esta é uma disputa com "os dois lados apagados", afirma a cientista política norte-americana Wendy Hunter, professora da Universidade do Texas.

Para a brasilianista, estudiosa da trajetória do PT, estas eleições revelam um cansaço da população em relação a Luiz Inácio Lula da Silva e ao partido dele. Por outro lado, o principal candidato da oposição, Flávio Bolsonaro (PL), está longe de provocar entusiasmo.

Segundo a autora de "The Transformation of the Workers' Party in Brazil, 1989-2009", o antipetismo –formado por um "conjunto muito heterogêneo" de perfis-- é reforçado a partir de um "discurso sobre trabalho e mérito".

Ela não acredita que uma eventual vitória de Flávio represente risco para a democracia no Brasil. Segundo a pesquisadora, o federalismo e o comportamento dos congressistas ("perderiam espaço com uma solução autocrática") são obstáculos para um avanço autoritário. Alerta, entretanto, que as políticas sociais e os projetos para a Amazônia correriam risco sob um novo governo bolsonarista.

As pesquisas indicam que estas eleições presidenciais podem ser mais difíceis para o PT do que a disputa de quatro anos atrás. Por quê?
Não é uma boa notícia para o partido, considerando que Lula venceu Jair Bolsonaro em 2022 por apenas 1,8 ponto percentual. São várias razões. O desempenho econômico do país não tem sido ruim nestes últimos anos, mas existe uma preocupação das pessoas com o custo de vida. Além disso, antes havia uma parcela sólida de pessoas interessadas no regime CLT e mesmo em participar dos sindicatos. Agora muitos querem ser empreendedores.

Outro ponto é que a disputa tende a ser mais difícil para quem está no poder. E existe um cansaço em relação a Lula e ao PT. As pessoas acham que eles não têm grandes ideias novas e querem renovação no partido. Embora nesse aspecto, os apoiadores de Flávio Bolsonaro tampouco pareçam entusiasmados. Vejo os dois lados apagados. Tanto Lula quanto Flávio geram pouco entusiasmo.

E a crise no STF?
Acredito que tenha mais efeito sobre Lula do que sobre Flávio. Não acho que o petista tenha ligação direta com tudo isso, mas na cabeça das pessoas ele está muito associado ao ministro Alexandre de Moraes.

Segundo o Datafolha, 45% dos eleitores dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum. Por que o antipetismo se mantém tão forte?
É preciso dizer inicialmente que não se pode associar, de forma estereotipada, o antipetismo a uma parcela branca, rica e moradora das regiões Sul e Sudeste. É um conjunto muito heterogêneo. Muitos que não gostam do partido pertencem a minorias.

Um discurso sobre trabalho e mérito tem alimentado o antipetismo. Ouve-se com frequência entre os brasileiros afirmações como "Fulano não merece tal benefício". É como se fosse uma nova ideologia. Também é assim na Argentina. Algumas pessoas que fazem comentários desse tipo muitas vezes não se dão conta de que elas próprias fazem parte dessas categorias.

Programas sociais têm menos apelo do ponto de vista eleitoral. Como explica isso?
É simplesmente a normalização. Muita gente recebe. No caso do Bolsa Família, isso acontece desde 2003. Os norte-americanos não acordam todos os dias agradecendo ao Partido Democrata pela Previdência Social.

A sra. fala em entrevistas e textos sobre a questão geracional na hora do voto.
Me parece que os jornalistas e os cientistas políticos não têm se dedicado muito a esse aspecto. A ciência política discute muito o voto evangélico, por exemplo. Ou o voto de acordo com a região do país.

Historicamente, os jovens são de esquerda, e as pessoas mais velhas tendem a ser mais conservadoras. Agora estamos vendo uma inversão --e não é apenas no Brasil. Nesse sentido, um segmento que a campanha do Lula deveria prestar mais atenção é o das pessoas com mais de 70 anos. Não são obrigadas a votar e muitas delas não votaram em 2022.

Nessa parcela mais idosa, há mais apoiadores de Lula do que de Flávio por uma diferença entre 10 e 15 pontos. São pessoas menos influenciadas por essa visão de que todo mundo vai ser empreendedor.

Há quem diga que o Brasil pode ser tomado por uma nova onda de direita, seguindo países sul-americanos como a Colômbia, em que Espriella saiu vencedor. Faz sentido?
Caso Lula perca, imagino que uma parte da imprensa internacional destaque que uma "onda de direita atinge o Brasil". Seria um erro. No caso de ser esse o resultado, isso teria mais a ver com a rejeição a quem está no poder, Lula está há muito tempo. Além disso, o Brasil já é bastante de direita. Basta olhar o Congresso, os governadores.

Em dezembro do ano passado, o anúncio de Flávio de que seria pré-candidato foi recebido sem ânimo pelos setores mais conservadores. Nos meses seguintes, o partido dele, o PL, tentou, mas não conseguiu formar alianças com outras siglas. Hoje, porém, a candidatura demonstra vigor. Qual avaliação a sra. faz dessa força?
Do ponto de vista da oposição a Lula, Flávio foi uma boa escolha porque já conta com cerca de 30% de apoio automático graças aos seguidores do pai. Depois, ele se fortalece na busca pelo voto dos grupos antipetistas –há muita gente que não é bolsonarista, mas está cansada de Lula.

Uma eventual vitória de Flávio representaria risco para a democracia no Brasil?
Acho que não. Ele fala em tom grandioso em fazer uma repressão ao estilo Bukele, mas não conseguiria porque, entre outras razões, grande parte da segurança pública cabe aos estados. No Brasil, o federalismo é uma salvaguarda. Além disso, existe o interesse do Congresso, que age em benefício próprio. Os parlamentares perderiam espaço com uma solução autocrática. Mas, em uma vitória dele, as políticas sociais e os projetos para a Amazônia correriam risco.

Acredita que possa haver algum tipo de interferência do governo Trump nas eleições brasileiras?
Não vejo como isso possa acontecer. Há muita conversa e pouca ação. O Brasil tem boas instituições e um sistema eleitoral seguro, não vejo o governo Trump se infiltrando ali. O trabalho feito pelo TSE me impressiona muito.

Raio-X | Wendy Hunter

Professora de ciência política na Universidade do Texas, em Austin (EUA). Com doutorado pela Universidade da Califórnia, Berkeley, é autora de livros como "The Transformation of the Workers´Party in Brazil, 1989-2009" (2010)

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