Governo Trump vê embate entre interesse na eleição e terras-raras no Brasil

Mas as negociações acabaram, sim, destravadas. De acordo com fontes ouvidas pelo UOL em Washington, foi menos pela "química" entre os líderes de EUA e Brasil ou pela influência do megaempresário da carne Joesley Batista na Casa Branca, e mais "pelas terras-raras pesadas" que os EUA retiraram o ministro do STF Alexandre de Moraes das sanções da Lei Global Magnitsky e aumentaram a lista de itens isentos do tarifaço de 50%. As duas medidas, motivadas politicamente de acordo com uma carta assinada pelo próprio Trump, tinham sido impostas em julho do ano passado e caíram antes do início de 2026.
Ideologia em vantagem
Os EUA pareciam bem posicionados para negociar com o Brasil as terras-raras no começo deste ano, mas é neste ponto que as ações da ala ideológica começam a turvar o ambiente bilateral mais uma vez. Em fevereiro de 2026, Darren Beattie é nomeado para o posto de assessor de Rubio para Brasil, algo que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro já sabia que aconteceria desde novembro do ano anterior. No mesmo mês, o Departamento de Estado convida mais de 50 países, entre os quais o Brasil, para participar de um plano para terras-raras que não considerava as demandas particulares brasileiras, como a manutenção de ao menos parte do refino em território nacional, e ainda subentendia mais uma vez a exclusão total da China da cadeia comercial nacional. O governo Lula optou por ficar de fora.
Entre entes privados, porém, a relação se aprofundou. E com o empurrão político do governador de Goiás Ronaldo Caiado, que já era então pré-candidato presidencial e veio a Washington para facilitar o negócio, o banco estatal americano DFC liberou US$ 565 milhões em empréstimos para que uma empresa das Ilhas Virgens Britânicas, a SVRE Holdings Ltd., fizesse melhorias para otimizar a produção na goiana Serra Verde, única mina de terras-raras pesadas do Brasil atualmente com operações comerciais. O acordo incomodou o Planalto, que viu um sinal de que os EUA passaram a União para trás ao negociar com um ente subnacional, ainda que o contrato tenha sido travado entre partes privadas. Consultado pelo UOL, o DFC disse por meio de um funcionário que "o investimento da DFC na Serra Verde ajudará a desenvolver uma fonte independente de elementos de terras raras — incluindo terras raras pesadas —, que atualmente não são produzidos fora da Ásia."
No mês seguinte, porém, e a pouco mais de um semestre do pleito presidencial, as coisas se complicaram de vez. Beattie, que tinha pedido visto para uma viagem de trabalho ao Brasil e que dizia pretender ter reuniões com o governo Lula, não havia marcado nenhuma agenda oficial poucos dias antes do embarque. Tinha, porém, pedido autorização à Justiça para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que àquela altura cumpria na Penitenciária da Papudinha a pena de mais de 27 anos por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes. Ao perceber a movimentação, o governo Lula revogou o visto do funcionário do Departamento de Estado.
E não participou de um evento montado pela Embaixada dos EUA em São Paulo justamente sobre terras-raras e que, no planejamento original, pretendia ter o vice-presidente Geraldo Alckmin na abertura dos trabalhos. "Ouvimos que não havia clima, aquele já não era mais o momento político", diz um membro da gestão Trump sob reserva.
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