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Saturday, October 24, 2026

Sem indústria, não há bioeconomia: o papel do setor na COP17

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O Brasil possui uma das maiores biodiversidades do planeta, uma riqueza natural extraordinária que representa também uma vantagem comparativa para o desenvolvimento econômico.

Transformar esse patrimônio em inovação, produtos de maior valor agregado, empregos e oportunidades de negócios, entretanto, depende de um agente fundamental: a indústria.

Essa reflexão ganha relevância com a realização da 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), em outubro, na na Armênia. O encontro terá como prioridades a implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, o financiamento da conservação, o uso sustentável dos recursos naturais e a repartição justa e equitativa dos benefícios decorrentes da utilização da biodiversidade.

O Brasil chega a esse debate reunindo atributos singulares: megadiversidade, capacidade científica, uma indústria inovadora e experiência regulatória na utilização sustentável de seu patrimônio genético.

O setor brasileiro de beleza e cuidados pessoais exemplifica esse potencial. Responsável por aproximadamente 2% do PIB nacional, a indústria investe continuamente em pesquisa e desenvolvimento, transformando ingredientes e conhecimentos associados à biodiversidade em produtos presentes no cotidiano de milhões de pessoas.

Em 2025, o setor alcançou um recorde histórico de US$ 1,061 bilhão em exportações, crescimento de 20,1% em relação ao ano anterior, com produtos comercializados em 189 países. Os números demonstram a competitividade da indústria brasileira e revelam oportunidades adicionais de expansão internacional.

Uma dessas oportunidades está justamente na biodiversidade. O desenvolvimento de ingredientes inovadores a partir de espécies nativas brasileiras pode ampliar a participação do país nas cadeias globais de valor, tanto pela exportação de produtos acabados quanto pelo fornecimento de ingredientes e soluções biotecnológicas para indústrias internacionais.

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É uma oportunidade de agregar valor ao patrimônio natural brasileiro, exportando conhecimento, tecnologia e inovação, em vez de limitar nossa inserção internacional ao fornecimento de matérias-primas.

A bioeconomia, afinal, não consiste simplesmente na exploração de recursos naturais. Seu verdadeiro potencial está na pesquisa científica, no desenvolvimento tecnológico e na capacidade de transformar as propriedades de nossa biodiversidade em soluções que atendam às necessidades da sociedade.

No setor de beleza e cuidados pessoais, essa inovação está diretamente associada ao conceito de cuidado integral, defendido pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC). Produtos de higiene, proteção solar, cuidados com a pele, cabelos e saúde bucal contribuem para o bem-estar físico, mental e social das pessoas. A biodiversidade, associada à ciência e à tecnologia, amplia continuamente as possibilidades de oferecer produtos mais eficazes, seguros e sustentáveis.

Essa dinâmica também fortalece cadeias produtivas, gera renda para comunidades e cria incentivos econômicos à conservação ambiental.

Nesse contexto, o Brasil dispõe de um importante diferencial institucional. A Lei nº 13.123/2015, que regulamenta o acesso ao patrimônio genético, a proteção dos conhecimentos tradicionais associados e a repartição de benefícios, colocou o país na vanguarda internacional ao estabelecer um modelo que concilia a utilização econômica sustentável da biodiversidade com a geração de benefícios para sua conservação.

A experiência brasileira constitui uma referência que merece ser conhecida e considerada por outros países, especialmente diante da necessidade de construir mecanismos internacionais capazes de estimular investimentos e assegurar resultados ambientais concretos.

Entre os temas relevantes da COP17 está o Fundo Cali, mecanismo multilateral destinado a mobilizar recursos provenientes da utilização comercial de informações de sequências digitais de recursos genéticos, conhecidas como DSI.

A iniciativa representa uma oportunidade para ampliar o financiamento da biodiversidade. Seu êxito, contudo, dependerá de governança transparente, critérios objetivos de destinação e mecanismos que assegurem a efetiva aplicação dos recursos em conservação, uso sustentável e benefícios às comunidades.

É igualmente importante evitar a sobreposição de obrigações ou a criação de custos e procedimentos que desestimulem investimentos em pesquisa e inovação, especialmente por empresas que já cumprem mecanismos nacionais de repartição de benefícios.

A lógica deve ser simples: quanto maiores os incentivos à pesquisa, ao desenvolvimento tecnológico e à utilização sustentável da biodiversidade, maiores serão as oportunidades de geração de valor e repartição de benefícios.

Os três objetivos centrais da Convenção sobre Diversidade Biológica — conservação, uso sustentável e repartição justa e equitativa de benefícios — encontram na atividade industrial uma importante força de implementação. Sem pesquisa, não há novos conhecimentos. Sem inovação, não há novos produtos. E, sem atividade econômica baseada na biodiversidade, não se concretizam as oportunidades de repartição dos benefícios dela decorrentes.

A mobilização da indústria brasileira para a COP17, com representantes do setor produtivo presentes em Ierevan a partir de 19 de outubro, demonstra o compromisso empresarial com essa agenda e a importância de sua participação na construção das soluções internacionais.

O Brasil tem condições de assumir protagonismo global em uma bioeconomia baseada em ciência, inovação e agregação de valor. Para isso, precisamos de ambientes regulatórios previsíveis, instrumentos que estimulem investimentos e mecanismos de repartição de benefícios que reconheçam o papel da iniciativa privada.

Nossa biodiversidade é uma vantagem comparativa extraordinária. Transformá-la em vantagem competitiva depende da capacidade de pesquisar, inovar, produzir e conquistar mercados.

Conservar a biodiversidade e gerar desenvolvimento econômico são objetivos complementares. E a indústria brasileira tem muito a contribuir para que ambos avancem juntos.

*Fábio Brasiliano é diretor de Desenvolvimento Sustentável da ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos)

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