Como a crise habitacional traduz a luta política na Espanha hoje
Maricarmen conseguira mais oito anos no contrato de aluguel para continuar a residir num apartamento na região central de Madri, onde vivia há sete décadas.
Com a ordem de despejo revertida, a octogenária aceitou pagar 400 euros por mês, tirados da aposentadoria de € 1400 (R$ 7,8 mil) —e não os € 2.650 (R$ 14,9 mil) inicialmente pretendidos pela imobiliária.
Foram anos de uma luta pessoal que hoje inspira o movimento dos indignados na Espanha. Mas, o acordo chegou tarde. A inquilina morreu nesta quarta-feira (7).
María del Carmen Abascal, 87, tornou-se o rosto da crise habitacional, uma das mais complexas do país. Além do baixo estoque de moradias, grande parte delas tornou-se inacessível para idosos e jovens. Empresas imobiliárias retrofitam o que podem para negociar as unidades disponíveis a preços proibitivos. "Nenhuma Maricarmen a mais!", gritam manifestantes em Madri, ameaçando greve geral.
Pressionado pelas ruas, o primeiro-ministro socialista, Pedro Sánchez, enviou dois decretos para aprovação emergencial no Parlamento, ampliando as garantias aos locatários. Como foram rejeitados pela direita e pela extrema direita, ele teve a constatação empírica de que já não conta com maioria para governar. Por isso, antecipou eleições gerais para novembro, numa espécie de tudo ou nada político.
É sempre desafiador decifrar a insatisfação das massas. Vivemos isso no Brasil em 2013, com um movimento urbano que começou libertário e evoluiu reacionário.
Euro Radar
Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris
Agora mesmo, na onda de protestos dos estudantes de liceu na França, o que corresponde ao nosso ensino médio, o que se tem é um movimento com pauta específica (mais professores substitutos, turmas menores, classes climatizadas, etc), menos politizado.
Assisti aos vídeos dos defensores de Maricarmen. Havia estudantes, professores, sindicalistas, artistas, alternativos, gente que se jogou no chão para impedir o despejo. Chamam os proprietários de imóveis de "rentistas terroristas" e de "vergonhoso" o governo atual. A situação é ambígua: se os embates por moradia vêm da esquerda, a crise habitacional transcende a ela, incluindo outros setores.
Sánchez tornou-se refém de um Parlamento dividido, com 137 cadeiras do partido direitista PP e 33 cadeiras do extremista de direita Vox, num bloco que soma quase a metade da casa. A esquerda continua rachada.
Denúncias de corrupção sobre aliados e familiares do primeiro-ministro geram desgaste. E a crise migratória de Ceuta colocou-o na defensiva. Se 89% da população responsabilizam o Marrocos pela entrada em massa de imigrantes naquela parte da Espanha, 72% atribuem ao primeiro-ministro a culpa pelo caos que isso acarreta.
A insatisfação de hoje leva o país para onde? Sánchez e seu partido, o PSOE, defendem um programa de políticas sociais. Já o maior partido da oposição, o PP, defensor do livre mercado, perdeu qualquer pudor de abraçar o ultradireitista Vox, cujas propostas podem ser ainda mais radicais do que as dos partidos de Giorgia Meloni, na Itália, e de Marine Le Pen, na França.
Desde a morte do ditador Franco, a Espanha não lidava com uma extrema direita tão disposta a governá-la. O primeiro-ministro aposta na crise habitacional para catapultá-lo, mas políticos do Vox apostam na crise migratória para enterrá-lo. Se o Marrocos "esquecer" de controlar as passagens para Ceuta outra vez, haverá uma ajuda decisiva nisso.
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