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Sunday, October 11, 2026

Como paraísos turísticos em Alagoas viraram único reduto bolsonarista do NE

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Maceió repete onda

Flávio Bolsonaro, o seu candidato a vice, Alfredo Gaspar, e aliados em carreata em Maceió
Flávio Bolsonaro, o seu candidato a vice, Alfredo Gaspar, e aliados em carreata em Maceió Imagem: Carlos Madeiro / Colunista do UOL

Nessa onda bolsonarista, Maceió é a única capital do Nordeste que desde 2018 deu mais votos a um Bolsonaro —seja Jair ou Flávio— que Fernando Haddad e Lula. Neste primeiro turno, a vitória não foi por tão pouco: 52,36% a 41,09%. O vice de Flávio, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL), é de Maceió e teve expressiva votação na eleição de 2022.

O resultado dessa região do estado contrasta com as regiões de agreste e sertão, onde Lula venceu com folga, garantindo vitória quando se olha Alagoas inteira: 54,73% (995.459 votos) a 40,45% (735.718) de Flávio.

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O avanço nas cidades turísticas

A cidade em que Flávio teve a maior votação proporcional do Nordeste foi Maragogi, conhecida como o "Caribe brasileiro", que deu 57,34% dos votos válidos a Bolsonaro, contra 39,1% de Lula. O prefeito da cidade, Dani Mendes (PP), declarou apoio a Flávio no segundo turno, seguindo orientação do deputado e senador eleito Arthur Lira (PP).

Outras cidades turísticas também aparecem com liderança bolsonarista, como São Miguel dos Milagres, Marechal Deodoro (onde fica a praia do Francês), Porto de Pedras (onde está a praia do Patacho) e Barra de São Miguel.

"Essa região de praia é uma região de mansões, de pessoas com poder aquisitivo alto. O nativo que trabalha sofre pressão, até é coagido. Se você vai para o sertão, onde a agricultura familiar domina, não se depende desses empreendimentos grandes", diz o presidente do PT em Alagoas, o deputado estadual reeleito Ronaldo Medeiros.

Para ele, o resultado das urnas no domingo foi frustrante. "Ganhei, mas nem comemorei. Vamos comemorar o quê aqui?"

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"Aqui em Maceió fizemos muitas ações, mas em Maceió a gente realmente não está sabendo se comunicar mais com a juventude, com as pessoas. A gente é da era do panfleto em porta de fábrica, de ocupar território. Agora é rede social, e a gente patina nisso", completa.

Apoiadores em comício de Lula em Maceió no primeiro turno
Apoiadores em comício de Lula em Maceió no primeiro turno Imagem: Carlos Madeiro/UOL

Mais derrotas

O resultado deste ano foi ainda pior quando se considera a disputa estadual: o candidato ao governo apoiado por Lula, Renan Filho (MDB), e os dois candidatos ao Senado, José Wanderley (MDB) e Renan Calheiros (MDB), foram derrotados. Em 2022, os nomes apoiados por Lula venceram.

Para o PT, o resultado foi ainda pior na disputa para a Câmara: o único deputado federal do partido, Paulão, não conseguiu se reeleger porque a federação não alcançou o número de votos necessário para eleger ao menos um candidato.

Na disputa para a Assembleia, o partido aumentou a bancada de um para três deputados estaduais.

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Renan Filho, Lula e Renan Calheiros em evento de campanha em Maceió
Renan Filho, Lula e Renan Calheiros em evento de campanha em Maceió Imagem: Bruno Fernandes/Jornal Extra de Alagoas

O que explica

Cientistas políticos da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) ouvidos pela coluna apontam que o avanço do bolsonarismo na região metropolitana da capital e na faixa litorânea se deve a uma combinação de fatores históricos, geográficos e de articulação das elites locais.

"Isso é a continuidade do bolsonarismo, que a gente já tem na capital muito forte, e ele vai se entrelaçando com penetração também dessas elites no litoral, seja ao norte ou ao sul. E aí, claro, há uma dificuldade do campo lulista de transformar apoio presidencial, que tem em Alagoas como todo, em identidade política estadual", opina a professora Luciana Santana.

Para ela, Alagoas tem uma identidade conservadora consolidada, que transcende a conjuntura econômica e se apoia em pautas de costumes, segurança e religião. Um exemplo disso ocorreu em 2002, quando somente em Alagoas José Serra (PSDB) venceu Lula na disputa do segundo turno.

"Nesse cenário, o voto na família Bolsonaro não vai depender da avaliação de momento; ele vai reunir o antipetismo e demandas por segurança e valores."

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Outro ponto crucial para entender a derrota de Lula na capital e no litoral é o próprio histórico do PT no estado. Diferentemente de outras capitais e estados do Nordeste, o PT nunca conseguiu se consolidar como uma força tradicional em Alagoas.

"O PT pela primeira vez elege três deputados estaduais, e ele não consegue avançar nos interiores, não consegue fazer prefeitos. Tradicionalmente ele não tem força no estado, nunca teve vice-governador, nem conquistou a capital", aponta o também professor Ranulfo Paranhos.

Além disso, neste ano houve também a influência do governador eleito JHC (PSDB), que teve apoio de Flávio Bolsonaro. "Fica muito claro também aí que é a base do deputado Arthur Lira, que foi efetivo na campanha nesses municípios", diz.

"O PT não é forte o suficiente, a marca Lula é importante, mas não suficiente para vencer na capital ou nessa região onde o JHC ganha as eleições", finaliza Paranhos.

Arthur Lira e JHC em ato de campanha em Maceió
Arthur Lira e JHC em ato de campanha em Maceió Imagem: Reprodução/Facebook

Historicamente, o PT também orbitou em torno de outros partidos que tiveram mais força no estado, como o PSB, o PDT —que governaram Alagoas com Ronaldo Lessa até 2006— e o MDB, da família Calheiros, que governava desde 2015.

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Em muitas oportunidades, em nome de acordos nacionais, o PT de Alagoas teve de abrir mão de candidaturas mais fortes para conseguir compor com partidos aliados de Lula ou com candidatos apoiados por ele em outros estados.

"Acredito que foram as circunstâncias. O PT buscou estratégias de crescimento junto a esses partidos. Quando o PSDB assumiu o estado (2007), o PSB e o PDT não eram mais fortes, o PT sofreu com isso", diz Paranhos.

Por fim, ele avalia que essa fragilidade histórica da legenda fez com que a força da imagem de Lula não se convertesse automaticamente em vitórias locais nas regiões de maior concentração urbana e econômica.

E o que fazer?

Teca Nelma (PT) durante votação do dia 4
Teca Nelma (PT) durante votação do dia 4 Imagem: Divulgação

Sem a vaga de deputado federal e fora da aliança com o governo estadual, o PT deve sofrer um baque a partir de 2027 —cenário que pode piorar consideravelmente se Flávio vencer o segundo turno.

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A maior esperança de renovação do partido é a vereadora e deputada eleita Teca Nelma, que foi a candidata do PT mais votada em 2026 no estado. Aos 27 anos, ela tem destaque nas redes sociais e é bem vista em movimentos populares.

Para ela, o problema no estado têm a ver também com comunicação.

"Esses municípios têm um perfil de pequenos e médios empresários e prestadores de serviço que estão com sentimento de que o estado é inimigo deles. Eu entendo esse sentimento, mas é preciso reforçar que o projeto do bolsonarismo é voltado para elites. Eu tenho fé que vamos comunicar o nosso projeto, voltado a classe média e a populações vulneráveis, nesse municípios e virar o jogo", diz.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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