Protestos no Porto: três opiniões

Estas manifestações trouxeram para a ribalta uma das personagens do nosso tempo: o activista.
O activista olha para uma câmara e vê lá reflectida a sua imensa virtude. Começa a falar e desenha um mundo de luz e trevas. O activista é o menino que a família achou prodígio e especial mas agora com barba e tatuagens. E acredita que se disser com muita veemência o que quer, o mundo lhe fará a vontade e lhe dirá que ele é especial.
O activista ao contrário do militante não tem de ter ideias, aliás as ideias que tem podem ser absolutamente contraditórias entre si: dizem-se gays pela Palestina. Querem combater o aquecimento global mas são contra a instalação de painéis solares. Usam telemóveis mas não querem que se explore lítio. Querem casas mas no mais simples projecto de urbanização vêem de imediato especulação e atentados.
O activista está para as ideias como o pudim quente & frio para as sobremesas: são espectaculares, derretem-se de imediato e no final sobra uma miscelânea sem consistência.
O activista não existe sem imagem: as suas intervenções são momentos com imagens de forte impacto. Quando precisam de mais imagens provocam intervenções policiais e destruição e então, com a desmesura infantil que lhes é própria, apresentam-se como protagonistas de lutas históricas diante de ditadores. Mas, no minuto seguinte, quando surge uma situação que podem ter de resolver, correm para os braços da mesmíssima polícia dizendo que estão a ser atacados pelos maus, ou pelos que podem ser maus ou que podem ser qualquer coisa que eles não estão a entrever.
O activista morre pela imagem: o acampamento que todos romantizaram nos primeiros dias começa a cheirar mal. Em seguida chegam os ratos. Depois os comerciantes queixam-se… E, por fim, mas não por último, entrevistar activistas é uma actividade de desgaste rápido: ao fim de dois dias já não há mais nada que digam. Comentar as declarações dos activistas é um suplício. E ver as imagens das acampadas uma espécie de visita de estudo a um parque temático sobre os efeitos da ausência de espelhos.
A única esperança é que sendo o activismo uma performance instantânea, rapidamente este activismo dará lugar a outro activismo, o que não sendo solução para nada sempre nos dá descanso por algum tempo.
Protestos no Porto
Nuno Gonçalo Poças
Não seria necessário afirmar que nem todos os manifestantes são violentos ou ideologicamente radicalizados se não houvesse tanta sonsice do lado do radicalismo de esquerda que sempre toma conta de “associações”, “comissões” ou outras entidades aparentemente focadas em temas e que servem, na verdade, de biombo de violências várias. A verdade é que se torna necessário evidenciar o facto de que nem todos os manifestantes do Porto eram militantes de extrema-esquerda. Contudo, não deixa também de ser um facto que a manifestação – ou vigília, como lhe quiserem chamar – é liderada por militantes e dirigentes de extrema-esquerda. Basta ouvir o delirante discurso de Catarina Martins para perceber, entre Maricarmens, habitação, genocídio, Gaza e onde só o apocalipse climático faltou, que o que ali está em causa não é o direito à habitação. É uma forma de luta radicalizada contra o Ocidente, o capitalismo, a liberdade, a burguesia, enfim, uma panóplia de temas que encharcam o debate público desde, pelo menos, os anos 60 do século passado, e que nos traz sempre o chavão da “resistência”. Ora, se se anuncia “resistência”, é sinal de que se resistiu e se desobedeceu. As instituições que decidam acerca da legalidade dos desobedientes e da polícia, da proporcionalidade e do grau de desobediência que ali se cometeu. É claro que a ilegalidade não dispensa a proporcionalidade policial. Mas a simples invocação das boas causas e do pacifismo também não torna facultativo o cumprimento da lei. Não há qualquer controvérsia quanto ao primeiro facto, mas estamos envolvidos num manto de dúvidas quanto ao segundo. Porquê?
A extrema-esquerda nunca se sente derrotada, muito menos com resultados obtidos em processos eleitorais da “democracia burguesa”. Se as urnas não lhes dão razão, as ruas darão. Se as ruas não lhes derem razão, a força a trará. O que vimos no Porto foi a sonsice do “pacifismo” e a vitimização de quem usa causas para provocar reacções que possam ser usadas contra a ordem vigente. Um grupo de desobedientes à ordem policial estava pacificamente a violar a lei, logo a polícia só pode ter reagido excessivamente. A estratégia não é particularmente inovadora: todos os grupos terroristas, em particular os de extrema-esquerda, usaram-na deliberadamente, conseguindo provocar no debate público, pelo menos, a ideia de que eventuais acções ilegais ou criminosas eram justificadas pela bondade das causas defendidas, e colocar o peso da acusação em cima do Estado ou das vítimas que persegue almas tão bondosas, normalmente com o beneplácito de uma imprensa complacente com a narrativa, como hoje se chama a estas coisas.
Não sei se o Governo pode dormir descansado – afinal, o Primeiro-ministro não foi particularmente habilidoso a gerir publicamente o caso. Duvido mesmo que, num país de proprietários e onde tantas famílias têm visto o seu património financeiro crescer à conta da valorização dos imóveis, a onda de protestos cresça, pelo que a extrema-esquerda nacional não terá, provavelmente, o gosto de assistir ao país a arder. Mas o pior que pode acontecer a um Governo é que se gere a convicção generalizada trazida pela psicologia da crise. Sem reformas, sem mudanças, mesmo que contra todo o tipo de radicalismo, que mostrem resultados num prazo curto, o Governo poderá sair desgastado de tudo isto. A esquerda só ainda não percebeu que também não será ela a ganhar.
Entre o fracasso do Governo e o desespero da extrema-esquerda
André Azevedo Alves
A conjugação de políticas públicas erradas tanto do lado da oferta como da procura gerou uma tempestade perfeita na habitação em Portugal. Do lado da oferta, pelas excessivas restrições à construção e pela manutenção de um enquadramento hostil ao arrendamento que retira imóveis do mercado e encarece as rendas dos que ainda assim aí são colocados. Do lado da procura, por anos de imigração descontrolada, por incentivos perversos e iníquos a estrangeiros que pressionam os preços dos imóveis e as rendas (desde os vistos gold aos “nómadas digitais”) e por apoios públicos que reforçam ainda mais a procura num mercado já de si inflacionado.
Não faltam de facto razões para protestar quanto à habitação em Portugal, pelo que é natural que, pelo menos na sua motivação, protestos como os dos últimos dias no Porto recebam alguma simpatia. Infelizmente, os grupos de esquerda radical que mais dinamizam esses protestos defendem políticas de habitação ainda piores do que as que temos tido. Percebe-se também que a extrema-esquerda arrasada nas urnas veja no fomento da agitação nas ruas uma possível bóia de salvação, embora seja menos compreensível que um PS que pretende ser uma alternativa credível de Governo vá pelo mesmo caminho.
Quanto à reacção do Governo, só confirma a debilidade e desorientação do actual executivo e dos partidos que o sustentam. Como se já não bastasse a notória incapacidade para aplicar reformas estruturais e inverter caminho no domínio da habitação, a comunicação da AD relativa aos incidentes no Porto revela uma elevado grau de confusão: ao mesmo tempo que o ministro Carlos Abreu Amorim vocifera que “não vai ceder aos gritos que vêm da rua”, Pedro Duarte – que começou por anunciar que a intenção de ser “implacável” com os protestos – declara agora que acha “ótimo, em democracia, expressarmos as opiniões que entendermosE e que é “muito sensível” a “um aumento do custo de vida muito intenso na vida das pessoas, particularmente na área da habitação”, sendo que vê também com bons olhos o processo aberto pela IGAI à intervenção policial no Porto.
No meio deste panorama francamente deprimente e que não augura nada de bom para o país, resta pelo menos a esperança de que os acontecimentos dos últimos dias possibilitem finalmente ao ainda MAI Luís Neves perceber a real ameaça que a extrema-esquerda constitui para a ordem pública.
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