Queda de cabelo: emagrecimento rápido ou canetas emagrecedoras?
O paciente começa a usar uma caneta para tratamento da obesidade, perde uma quantidade importante de peso e, alguns meses depois, percebe mais cabelos no travesseiro, no banho ou na escova. A associação parece imediata: foi o medicamento que provocou a queda? A resposta ainda não é tão simples.
Uma meta-análise publicada em 2026, reunindo estudos com mais de 4 mil usuários de medicamentos agonistas de GLP-1, encontrou risco maior de queda de cabelo em comparação com placebo. Outros trabalhos recentes também apontaram associação entre essa classe de medicamentos e diferentes formas de queda, especialmente com semaglutida e tirzepatida.
Isso não significa, porém, que já esteja demonstrado que essas substâncias atacam diretamente o folículo capilar. Existe outro fenômeno acontecendo ao mesmo tempo: muitos pacientes perdem bastante peso em um período relativamente curto, e sabemos há décadas que mudanças metabólicas importantes e emagrecimento rápido podem interferir no ciclo dos cabelos.
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Por que emagrecer rapidamente pode fazer o cabelo cair?
Cada fio passa por diferentes fases ao longo da vida. Existe um período de crescimento, seguido por fases de transição e repouso, até que o cabelo finalmente se desprenda e seja substituído.
Diante de uma mudança importante no organismo, um número maior de fios pode entrar antecipadamente na fase de repouso. Meses depois, esses cabelos começam a cair de maneira mais intensa e difusa. É o chamado eflúvio telógeno.
Esse fenômeno não surgiu com as canetas emagrecedoras. Pode acontecer depois de cirurgias, doenças, febre, estresse metabólico importante, dietas muito restritivas e perda acentuada de peso. Também é conhecido entre pacientes submetidos à cirurgia bariátrica.
Uma meta-análise publicada em 2025, por exemplo, avaliou mais de 7 mil pacientes submetidos a cirurgia metabólica e bariátrica e encontrou queda de cabelo em 47% deles. Isso reforça a ideia de que o próprio processo de emagrecimento e as mudanças que o acompanham podem ter participação importante.
Na maioria dos casos de eflúvio telógeno, não há destruição definitiva do folículo. Quando o fator desencadeante é identificado e controlado, existe possibilidade de recuperação do ciclo de crescimento, embora isso não aconteça de um dia para o outro.
Emagrecer não significa estar bem nutrido
Outro ponto precisa ser observado. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida podem reduzir significativamente o apetite e a quantidade de alimentos ingeridos. Se essa alimentação não for bem planejada, o paciente pode perder peso e, ao mesmo tempo, não atingir adequadamente suas necessidades nutricionais.
Proteínas são particularmente importantes para a formação dos fios. Ferro, zinco e outros micronutrientes também participam de processos relacionados à saúde capilar. Isso não significa que toda pessoa com queda de cabelo precise tomar uma coleção de suplementos. Significa que deficiências devem ser consideradas e investigadas quando houver indicação.
Tomar vitaminas por conta própria também não resolve necessariamente o problema. Se a causa for outra forma de alopecia, uma doença da tireoide, alteração hormonal, uso de outro medicamento ou mesmo uma combinação de fatores, a suplementação indiscriminada pode não trazer benefício.
Por isso, diante de uma queda importante, é necessário entender como foi o emagrecimento, quanto peso foi perdido, em quanto tempo, como está a alimentação e se existem outros sintomas ou condições associadas.
Parar a caneta resolve?
A queda de cabelo não deveria levar automaticamente à interrupção do tratamento da obesidade. Primeiro é necessário identificar que tipo de queda está acontecendo. Nem toda pessoa que usa uma caneta e começa a perder cabelos apresenta eflúvio telógeno. Alopecia androgenética, alopecia areata e outras condições podem surgir ou tornar-se mais perceptíveis no mesmo período.
Além disso, existe um intervalo entre o acontecimento que altera o ciclo do folículo e o momento em que o fio efetivamente cai. Por isso, suspender o medicamento hoje não significa necessariamente que a queda desaparecerá amanhã.
A decisão sobre manter, ajustar ou interromper a medicação deve considerar o tratamento como um todo e ser discutida com o médico responsável pela obesidade. Ao dermatologista cabe avaliar o couro cabeludo, caracterizar o padrão da queda e, quando necessário, investigar fatores nutricionais, metabólicos ou outras doenças que possam estar contribuindo.
As pesquisas de 2026 trouxeram uma informação importante: existe uma associação entre os agonistas de GLP-1 e maior ocorrência de queda de cabelo. O que a ciência ainda procura responder é por que isso acontece.
Pode haver participação do medicamento, da velocidade do emagrecimento, das alterações nutricionais e metabólicas ou de vários desses fatores ao mesmo tempo. Até que essa relação esteja mais esclarecida, o mais importante é não escolher uma explicação antes de avaliar o paciente.
Quando o cabelo começa a cair durante um tratamento para obesidade, a pergunta não deve ser apenas “a caneta está causando isso?”, mas também “o que mudou no organismo durante esse emagrecimento?”.
*Artigo escrito pela dermatologista Dra. Ingrid Campos, titular pela Sociedade Brasileira de Dermatologia – CRM: 185.549 | RQE 99.113
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