Grupo de dança de crianças africanas que recebeu por vídeo pró-Flávio Bolsonaro apaga material

- Author, Rute Pina
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
Published
Tempo de leitura: 8 min
O grupo Hypers Kids Africa, que reúne crianças e jovens de Uganda e tem 12,9 milhões de seguidores no Instagram, disse que vai devolver os 120 milhões de tokens $B22 recebidos por publicar um vídeo em apoio ao candidato Flávio Bolsonaro (PL). A decisão, segundo o grupo, vem após a reação negativa do público.
Em mensagem enviada à BBC News Brasil, o grupo avaliou que os tokens valem cerca de US$ 20 mil atualmente e que a expectativa era usar o investimento para terminar a construção da casa do grupo.
"Vamos devolver os tokens a eles, para pedir desculpas a todos, porque pensamos que os tokens serviriam para nos ajudar a construir e terminar nossa casa dos sonhos. Mas houve comentários políticos demais, e não queremos partidos políticos", diz a resposta.
"Estamos aqui para dançar e fazer as pessoas felizes, não para política. Não sabíamos que as pessoas não iam gostar."
"Não queremos que as pessoas reclamem sempre na nossa página, porque não sabíamos que não iam gostar", completaram. "Não podemos estar na política. Amamos muito o Brasil, de todo o coração."
O grupo não informou quando nem como os tokens serão devolvidos, quem negociou a parceria, quem aprovou o vídeo, nem se houve contato com campanhas ou partidos.
A página que arrecada recursos para construir casas para crianças em Uganda, publicou um vídeo de apoio a Flávio Bolsonaro na noite de quarta-feira (7/10). Na legenda, anunciou que recebeu, pela parceria, 120 milhões de $B22, ativos digitais que podem ser transferidos e trocados por dinheiro.
Pule Mais lidas e continue lendo
Mais lidas
Fim do Mais lidas
Pule Promoção da eleição 2026 e continue lendo

Fim da Promoção da eleição 2026
A iniciativa Brasil 22 Token (B22) foi lançada na terça-feira (6/10), segundo o jornal Folha de S.Paulo. Ela foi promovida no Instagram pelo perfil @hyperskidsafrica, que tem 12,9 milhões de seguidores e aparece no site de criptomoedas como "parceira oficial".
O vídeo, que acumulava mais de 3,5 milhões de visualizações até o início da noite de quinta-feira (8/10), mostra crianças dançando com camisetas amarelas com uma música ao fundo que diz "vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro".
"Apoiamos a visão de @nikolasferreiradm, @flaviobolsonaro e @pablomarcal1", diz a legenda, marcando os perfis oficiais do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), de Flávio e do influenciador Pablo Marçal.
"Junte-se a nós: compre $B22, compartilhe nas suas redes sociais e acesse o site para saber como ganhar tokens inspirando outras pessoas a votar 22!"
Em nota, a equipe jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que vai entrar com medidas judiciais nas esferas eleitoral, cível e criminal para derrubar o site que oferece as criptomoedas.
A campanha afirma que desconhece a autoria do site, não tem relação com o seu conteúdo nem com a venda de criptomoedas.
A campanha disse ainda que não há perfis contratados para fazer propaganda, "seja de produto ou conteúdo", e que todas as páginas e canais oficiais foram informados ao TSE e seguem a legislação eleitoral.
A assessoria de Nikolas Ferreira afirmou desconhecer conteúdo, e Pablo Marçal foi procurado e não respondeu até a publicação.
A $B22 é uma meme coin, nome dado a moedas digitais que têm origem em memes ou tendências da internet. Elas são usadas para ganhar popularidade em torno desses movimentos, mas carecem de valor intrínseco e são investimentos extremamente voláteis.
O que diz o site
O site Brasil 22 Token, que distribui as criptomoedas e fez a parceria com a Hypers Kids Africa, afirma que a defesa do voto 22 é uma posição própria, que não é manifestação das crianças do projeto nem é feita em nome delas.
Segundo o site, parte das vendas da $B22 financiará projetos para as crianças em Uganda.
O site anunciou que distribui tokens a usuários que compartilharem conteúdos que incentivem o voto em Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, afirma que a distribuição é independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral.
O Brasil 22 Token afirma ser "um movimento que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua casa em Kampala".
Diz ainda que o projeto "não é oficial, não é endossado nem tem vínculo com político, partido, candidatura ou campanha", e que não constitui doação eleitoral.
No rodapé, o site traz outro aviso: "$B22 é uma memecoin criada pela comunidade, sem valor intrínseco e sem promessa ou garantia de retorno financeiro. Criptoativos são voláteis; você pode perder todo o valor investido. Não é recomendação de investimento".
No X, a Brasil 22 Token anunciou que o site está integrando o Pix nos próximos dias, para que usuários comprem a $B22.
A empresa também disse ter mais de 20 criadores de conteúdo com vídeos não listados "prontos para publicação". "A distribuição de conteúdo continuará diariamente até 25 de outubro. Os maiores canais envolvidos ainda não publicaram seus conteúdos", afirmou.
A empresa disse ainda que está gerenciando o engajamento da Hypers Kids Africa, que, segundo a publicação, perdeu 100 mil seguidores após o vídeo em apoio a Flávio, e que busca republicações de Nikolas Ferreira para ampliar o alcance orgânico.
A publicação orienta: "Compartilhem o conteúdo, interajam com as publicações deixando comentários positivos e acompanhem as atualizações." E acrescenta: "Negociar o token e aproveitar quedas de preço ('buy the dip') devem ser decisões individuais, levando em conta os riscos envolvidos."
Segundo a própria lógica da campanha, o engajamento contribuiria para valorizar a moeda.
Quem é o grupo Hypers Kids Africa
Desde 2023, a página Hypers Kids Africa faz sucesso com danças coreografadas. O grupo é formado por crianças e jovens de 7 a 15 anos do subúrbio de Kampala, capital de Uganda, e tem 12,9 milhões de seguidores no Instagram.
Os vídeos viralizaram no Brasil porque as coreografias são embaladas por hits brasileiros, como Sequência de Lovezinho, da cantora Treyce, e Zona de Perigo, de Léo Santana.
Os integrantes costumam dançar com a bandeira do Brasil ao fundo ou a camiseta da seleção brasileira, e os vídeos já foram compartilhados por artistas como Ivete Sangalo.
Butindo Moses é o fundador do grupo. "Perdi meus pais em um acidente de carro em 2009. Então comecei a ir para as ruas, porque não tinha local para dormir ou para comer. Nas ruas, encontrei muitas crianças e aí decidi criar o grupo de dança", disse ele em entrevista à TV Bandeirantes.
O grupo participou da 19ª temporada do programa America's Got Talent e ficou no Top 5 da semana das quartas de final, mas foi eliminado na fase seguinte.
Nas entrevistas durante o programa, os integrantes disseram que o sonho de vencer era conseguir recursos para comprar um terreno e construir uma casa e uma escola em Uganda.
O que diz a lei eleitoral?
Para o advogado Raimundo Fernandes Neto, doutor em Direito Constitucional e coordenador acadêmico da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), a campanha reúne elementos que podem configurar ilegalidades eleitorais.
"É uma engrenagem que junta três camadas bem inusitadas: uma moeda que vai valorizando a partir da sua interação social, um influenciador e uma causa eleitoral muito clara, que é a propaganda do $B22, vinculada ao Bolsonaro", afirma.
Segundo Fernandes Neto, a lei veda o uso de influenciador remunerado, e o modelo da campanha remuneraria quem posta e reposta.
"Todos esses influenciadores que vão postar e repostar, cada vez mais as postagens vinculadas ao conteúdo vão valorizar a criptomoeda, e ele receberá de acordo com esse valor. Então ele está sendo remunerado pelas suas postagens."
Para ele, os beneficiários diretos são os criadores da estrutura, sediada fora do país e "vinculados claramente a uma ideologia política".
"É uma forma de financiamento de influenciadores para a campanha eleitoral, só que não é dinheiro, não é de uma forma direta", diz.
"É quase um sistema de pirâmide em que vai valer mais a partir da maior adesão e maior é a simultaneidade que se dá às postagens."
Fernandes Neto também vê semelhança com o esquema de campeonatos de cortes de vídeos do influenciador Pablo Marçal nas eleições de 2024, que dava incentivos financeiros a quem conseguisse mais visualizações em trechos de seus vídeos.
"O princípio é o mesmo: eu pagar influenciadores ou pessoas quaisquer que se tornam influenciadores para fazer propaganda", afirma.
Ele destaca que não se trata necessariamente de um influenciador famoso: o modelo, segundo ele, "qualifica e remunera todo e qualquer tipo de influenciador".
Marçal, candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PRTB, foi condenado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico. Em dezembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) manteve a inelegibilidade de Marçal por oito anos na ação sobre o concurso de cortes.
Para o especialista, o uso da moeda para financiar ou beneficiar candidaturas já seria vedado pela legislação eleitoral.
Segundo ele, o caso envolve a "junção de dois abusos": o dos meios de comunicação, já que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considera as plataformas digitais meios de comunicação social, e o abuso de poder econômico.
Ele avalia que o uso da moeda para financiar ou beneficiar candidaturas seria irregular, "independentemente do pagamento direto ou não".
Para ele, o conteúdo é "nitidamente eleitoral" e ainda desinformativo, porque o apelo filantrópico das crianças de Uganda estaria no fim da cadeia.
E, mesmo que o site exponha avisos de que não há vínculo com a campanha, Fernandes Neto disse que a campanha de Flávio ainda poderia ser responsabilizada.
"Há uma vinculação direta da página no Instagram e há um benefício direto de imagem, de propaganda, postado na própria página", afirma. Para ele, a remuneração não é descolada do conteúdo de propaganda eleitoral.
O professor explica que, em casos de abuso de poder econômico, a análise, segundo a jurisprudência, recai sobre o benefício que o conteúdo pode trazer à campanha, e não sobre a responsabilidade pessoal do candidato. "Independente do conhecimento do Flávio ou não", diz ele.
Caso pode ser investigado?
Fernandes Neto avalia que há uma série de entraves que tornam uma possível investigação mais complexa. Derrubar os perfis, por exemplo, é uma possibilidade que precisaria ser analisada, já que a página não é hospedada no Brasil.
Em repositórios de domínios na internet, o registro do site aparece como privado.
Para o professor, o caso mostra como o meio digital surpreende a cada dia com novas formas de propaganda.
"O direito eleitoral tem que se amoldar a essa realidade, porque o objetivo do direito eleitoral é tornar a disputa igualitária", diz.
Ele classifica o mecanismo, que une influenciador, criptomoeda e uma aparente causa filantrópica, como "uma maneira muito engenhosa, mas perigosa também, de desinformar", com possíveis dividendos tanto eleitorais quanto financeiros.
Uma resolução do TSE proíbe o pagamento por perfis no exterior para publicar propaganda eleitoral a favor de candidatos brasileiros. A restrição vale mesmo que as contas estejam em outros países e direcionem conteúdo ao público brasileiro.
As regras vigentes permitem que influenciadores participem da propaganda eleitoral apenas de forma totalmente gratuita e sem impulsionamento de conteúdo. Candidatos, partidos e federações não podem contratar, premiar ou oferecer benefício, nem de forma indireta, a influenciadores que publiquem propaganda.
A reportagem também entrou em contato com o tribunal, mas o TSE afirmou que não se manifesta sobre temas ou casos que possam vir a ser ou são objetos de análise na Justiça Eleitoral.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.



