'Jabuti força todo mundo a mentir', diz ilustrador que foi desclassificado por usar IA
Desclassificado do Jabuti em 2023 por usar inteligência artificial, o designer gráfico Vicente Pessôa segue recorrendo à tecnologia e aparece novamente entre os semifinalistas do prêmio —dessa vez, diz ter mudado seu processo criativo. Está indicado na categoria capa com "O Idiota", publicado pelo Clube de Literatura Clássica.
Pessôa diz usar IA generativa desde que foi disponibilizada no Brasil, no segundo semestre de 2022. Naquele ano, ele concorreu ao Jabuti pela primeira vez. Em 2023, usou ferramentas de IA na capa de "Frankenstein", também do Clube de Literatura Clássica, o que levou à sua desclassificação do prêmio.
Dessa vez, o ilustrador diz que foi orientado pela editora a não usar IA para fazer o projeto de capa. "Eu usei o Midjourney para gerar uma imagem e desenhei com base nessa referência", afirma, sobre o trabalho indicado agora como semifinalista. Acha que descumpriu a orientação do clube? "Não sei", responde.
Para Pessôa, a IA é apenas uma ferramenta. Ela substituiu buscas por imagens no Google e no site Archive.org por pesquisas no ChatGPT e prompts elaborados pelo Claude. Segundo o designer, sua função é resolver problemas com os recursos que estiverem disponíveis, desde que não sejam ilegais.
De toda forma, a inteligência artificial não é bem-vinda no Jabuti. O regulamento rejeita concorrentes que tenham empregado IA ou tecnologias similares em "tarefas autorais", termo que o prêmio emprega para definir "todas aquelas pelas quais os autores são responsáveis, incluindo contribuições substanciais para a concepção da pesquisa, a interpretação de textos e dados e a redação de todos os elementos textuais da obra inscrita".
Pessôa diz que o prêmio se recusa a aceitar as mudanças no mercado. Segundo ele, direta ou indiretamente, a IA já está integrada nos processos e ferramentas usados por designers. "O Jabuti está forçando todo mundo a mentir e premiando a mentira."
Daniel Brito, também semifinalista na categoria capa pelo trabalho em "Anônimos", discorda que a IA seja incontornável e afirma conhecer designers que não a usam. Ele diz recorrer à ferramenta em seu trabalho para acelerar processos de tipografia, mas que a capa que concorre ao prêmio passou longe dessa tecnologia.
"Fizemos um ensaio no Liceu de Artes com um drone. Na diagramação, usei Photoshop para tratamento de imagem e correção de angulação", conta.
Brito não defende que a IA seja banida, mas diz acreditar que integrar a tecnologia ao processo criativo tende a empobrecer o resultado. "O valor do design está na ideia e na solução, e a IA não tem a melhor ideia, ela só requenta o que já está na internet."
Ele vê o regulamento do Jabuti como uma reação ao "pânico geral" que está tomando o mercado. "Ao escolher os melhores do Brasil, não é ideal incluir a pessoa que deu a solução mais fácil. O prêmio tem que ser rigoroso, já que se propõe a celebrar as pessoas criativas."
Pessôa, por sua vez, questiona a decisão lembrando ocasiões em que a premiação reconheceu autores e artistas de maneira póstuma. "Esse é o estado do Jabuti hoje: preferem premiar os mortos porque ainda não têm condições de processar os vivos."
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Pessôa é um dos fundadores da Barca, empresa que se apresenta como uma aceleradora de cultura e mantém 11 clubes de assinatura de livros. Tanto as capas das obras enviadas aos assinantes quanto os livretos que os acompanham são produzidos com inteligência artificial.
"Dos redatores aos revisores e editores, a gente incentiva todo mundo da Barca a usar IA para otimizar o processo."
Ele afirma que o uso da tecnologia permite criar projetos de qualidade acima da média em menos tempo. Com equipes enxutas, diz, é possível produzir mais e remunerar melhor os profissionais. "O profissional não é menos valioso por causa da IA, ele é mais valioso por estar usando."
Na Barca, diz que erros são recebidos como parte do trabalho, mas mentir sobre o uso da tecnologia não é aceitável. Ao concorrer ao Jabuti com "Frankenstein", Pessôa incluiu o Midjourney nos créditos junto a seu nome. Isso passou batido pelos jurados e, depois que o caso veio a público, ele foi desclassificado.
"É claro que vai ter ilustrador que vai falar que IA não é arte. Mas, sinceramente, eu não tô nem aí."
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