O McFish do uísque: por que a Johnnie Walker ressuscitou o Green Label
Um paralelepípedo de peixe empanado, um queijinho safado e um molho que se autodenomina tártaro. Tudo emoldurado por duas metades de um brioche fofinho. Não parece grande coisa. Mas causou um enorme rebuliço.
É o McFish, lanche que saiu do cardápio do McDonald’s brasileiro em 2019 — justamente porque vendia pouco. Em 2024, a rede anunciou sua volta, por tempo limitadíssimo. O anúncio foi recebido com gritos de glória por uma legião de fãs que, aparentemente, passou cinco anos de luto por um quadradinho de peixe.
O mundo do uísque também tem seus mortos-vivos. Port Ellen é um caso. Mas talvez o exemplo mais perfeito seja o Johnnie Walker Green Label. O único blended malt da linha permanente da marca do andarilho é, tipo, aquela pasta de dente recomendada pelos dentistas, o favorito de nove entre dez entusiastas quando o assunto é Johnnie Walker.
O Green Label nasceu em 1997. Na época, atendia pelo pseudônimo Johnnie Walker Pure Malt 15 anos — nome que, por sinal, explicava perfeitamente sua essência. Era uma mistura exclusivamente de malt uísques, produzidos com cevada maltada e destilados em alambiques, todos com pelo menos quinze anos de maturação. Em 2004, adotou a alcunha Green Label. O que também não exigia exatamente um departamento de semiótica para entender, visto o rótulo verde.
Apesar do sucesso e de ter conquistado seu nicho de bebedores mais exigentes, o Green foi praticamente extinto em 2012. Taiwan foi a grande exceção. A decisão fazia parte de uma reorganização do portfólio de Johnnie Walker, que também aposentou o antigo Gold Label 18 anos, abriu espaço para o Platinum Label e promoveu a ascensão de um certo Gold Label Reserve, sem idade declarada.
A justificativa para o homicídio doloso veio de Nick Morgan, então responsável pelo uísque outreach da Diageo. Segundo ele, a Johnnie Walker precisava reorganizar sua “escada”. O portfólio não oferecia uma progressão suficientemente clara de sabores e preços que conduzisse o consumidor de um rótulo ao seguinte. A ideia também era tornar essa lógica mais consistente entre diferentes mercados.
E o Green tinha um problema peculiar nessa arquitetura. Era o “odd man out”, nas palavras do próprio Morgan. Enquanto praticamente toda a família Walker era formada por blended Scotch uísques, o Green era um blended malt: só maltes, sem grain whisky, e ainda com uma idade mínima de quinze anos estampada no rótulo.
Havia, sem dúvidas, uma lógica comercial. O Gold Label Reserve entrava abaixo do antigo Gold 18 e, sem idade no rótulo, dava mais flexibilidade aos blenders. O Platinum ocupava outro degrau entre Black e Blue. No papel, a família Walker ficava mais organizada e compreensível. Só faltava mesmo ter mantido o excêntrico queridinho.
E, quando todos já haviam se conformado com a perda, veio a ressurreição. Em 2015, o Green Label voltou a aparecer nas prateleiras dos Estados Unidos e da Austrália. Em 18 de fevereiro de 2016, a marca anunciou oficialmente seu retorno. “Ouvimos nossos consumidores”, explicou Morgan. E assegurou que o uísque continuava essencialmente o mesmo, construído em torno de maltes como Cragganmore, Linkwood, Caol Ila e Talisker.
Nunca ficou claro se questões de estoque também pesaram na decisão original. Em 2012, o mercado de single malts estava em franca expansão, e um uísque como o Green impunha uma limitação inconveniente, tanto por conta da necessidade de maturação mínima de quinze anos, quanto por conta do uso exclusivo de single malts, que são caros.
O episódio ilustra como administrar um estoque de uísque é uma decisão racional, mas também eivada de dilemas. O destilado produzido hoje pode virar um single malt, alimentar um blend, acabar numa edição especial ou ser usado em um produto que ainda nem existe. E pode ser usado em um produto de nicho, que, apesar de tudo, é querido e bom demais para simplesmente desaparecer. É quase o McFish. Mas, no uísque, se você jogar fora o peixe errado, pode precisar esperar quinze.
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