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Sunday, October 25, 2026

Lula chega à última eleição de sua carreira com militância mobilizada e empate técnico com Flávio

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Quando a apuração no primeiro turno terminou, na noite de 5 de outubro, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou atrás do rival Flávio Bolsonaro (PL) por 2,2 milhões de votos, não faltou quem vaticinasse que o resultado era fava contada e que a campanha petista, que até então fora morna e falara mais de legado do que de propostas para o futuro, estava fadada ao conformismo. Ao longo dos últimos 21 dias, porém, Lula conseguiu a façanha de engajar sua militância e reduzir a vantagem do oponente, que chegou a quatro pontos percentuais nas pesquisas, a um empate técnico.

A pesquisa Datafolha, divulgada na véspera da eleição, mostra o filho de Jair Bolsonaro com 50,89% dos votos válidos e Lula com 49,11%. Se as pesquisas estiverem corretas, a sétima disputa presidencial de Lula terminaria em derrota em sua longeva e histórica carreira política. O cenário apertado, contudo, mantém aberta a possibilidade de uma virada. Aliados do presidente apostam numa redução da abstenção, sobretudo em estados do Nordeste, onde Lula detém vantagem sobre o oponente.

Neste sábado, 24, em seu penúltimo ato de campanha, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, Lula disse estar otimista e com o "gosto da vitória na boca". Ao lado do ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD) e da deputada Benedita da Silva (PT-RJ), o presidente também afirmou que muitas vezes candidatos que não vencem uma eleição podem terminar politicamente fortalecidos quando fazem uma boa campanha. O petista falava dos dois aliados, derrotados no primeiro turno, mas a reflexão serve também para si próprio. Se não vencer nas urnas, Lula poderá dizer que encerrou a disputa com uma campanha multitudinária. Na caminhada pelo Rio de Janeiro, a prefeitura estimou a presença de ao menos 1,1 milhão de pessoas.

Pela tarde, no último ato de campanha de sua trajetória política -uma passeata na Avenida Paulista- foram ao menos 14 quarteirões ocupados por apoiadores, um público foi estimado pela organização em mais de 2 milhões de pessoas. A dimensão das manifestações simboliza uma mobilização que surpreendeu inclusive aliados de Lula.

O movimento ocorreu apesar de Lula ter chegado ao fim de seu terceiro mandato com um saldo de aprovação ainda desfavorável , de acordo com pesquisas, e sem conseguir converter os indicadores econômicos positivos de sua gestão em uma clara vantagem eleitoral. Nos últimos 21 dias, o petista reconstruiu a mobilização de sua base e reorganizou sua campanha, sobretudo no ambiente digital, e passou a disputar espaço nas redes sociais, terreno em que tradicionalmente o bolsonarismo tem melhor desenvoltura.

A reorganização da campanha e a reação nas redes

Uma das mudanças mais importantes na campanha de Lula no segundo turno foi o fortalecimento da coordenação política com a participação do senador Camilo Santana (PT-CE), que assumiu papel central na articulação de lideranças, na interlocução com aliados e na definição da estratégia da reta final, e do governador reeleito do Piauí Rafael Fonteles (PT). O objetivo era superar a apatia do primeiro turno e transformar a insatisfação da militância com o resultado das urnas em engajamento efetivo.

Na frente digital, a campanha incorporou deputados de esquerda com forte presença digital, a exemplo de André Janones (Rede-MG), que passou a organizar uma ampla rede de apoiadores em plataformas de mensagens. O canal Exército do Lula no WhatsApp chegou à véspera da eleição com 10,6 milhões de seguidores. Além de distribuir conteúdos, a iniciativa buscou coordenar a atuação dos apoiadores e circular mensagens favoráveis ao presidente. O principal canal da campanha bolsonarista, o Tropa do Flávio, tem 2,1 milhões de seguidores.

Essa estratégia representou uma guinada em relação à comunicação predominantemente institucional que marcou parte da campanha do primeiro turno. O resultado foi uma campanha mais descentralizada e com aumento em sua capacidade de mobilização. A organização digital foi usada para convocar manifestações em todo o país, com ou sem a presença de Lula, além de promover transmissões ao vivo.

Com isso, a avaliação da campanha é ter conseguido melhorar o desempenho eleitoral do presidente junto ao público jovem: o Datafolha de sábado mostra que, entre quem tem 16 e 24 anos, Lula tem 54% dos votos válidos (ante 46% de Flávio Bolsonaro).

A mobilização ganhou força justamente em um cenário em que a campanha de Lula alega dificuldades para disputar espaço em pé de igualdade nas plataformas digitais. A ofensiva nas redes ocorreu em meio a denúncias de tratamento desigual das candidaturas por empresas de tecnologia como a Meta, dona das redes Facebook e Instagram e do aplicativo de mensagens Whatsapp.

A afirmação da campanha petista foi reforçada por um estudo do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que identificou falhas no cumprimento das regras eleitorais pelas plataformas e diferenças na recomendação de conteúdos políticos e apontou que a campanha petista pode ter pago mais caro por anúncios nas redes da Meta na comparação com candidatos de direita. O próprio Comitê de Supervisão da Meta, órgão independente que avalia decisões de moderação da companhia, reconheceu falhas na aplicação das regras da empresa às contas de anúncios de Lula. A companhia nega qualquer intervenção na eleição brasileira.

A economia não garantiu a reeleição

A reação da campanha contrasta, ainda, com o balanço político do terceiro mandato de Lula. Segundo pesquisa Datafolha divulgada neste sábado, 39% dos entrevistados avaliavam o governo como ruim ou péssimo, enquanto 36% consideravam a gestão ótima ou boa. Outros 24% classificavam a administração como regular.

O resultado revela a dificuldade de Lula em transformar o desempenho econômico de seu governo em apoio político, o que tem sido atribuído por especialistas a um cansaço do eleitor com a figura de Lula.

Fato é que, de acordo com os dados mais recentes, a inflação brasileira medida pelo IPCA é de 4,58% nos 12 meses encerrados em setembro, dentro da meta do Banco Central. Apesar do índice relativamente moderado, a inflação dos alimentos foi um tema explorado na campanha de Flávio Bolsonaro e que desgastou o governo.

No mercado de trabalho, a taxa de desocupação do trimestre encerrado em agosto chegou a 5,3%. A população ocupada, que chegou a 103,5 milhões, foi a maior da série histórica do IBGE.

Apesar disso, o endividamento das famílias, que chegou a 81,7% em setembro de 2026, e a elevada taxa básica de juros (13,75%, a maior do mundo) corroeram o capital político do governo e reduziram as expectativas de crescimento da economia.

O contraste entre a situação econômica atual e a expectativa futura expõe os limites de uma campanha apoiada, durante boa parte do primeiro turno, na defesa das realizações do governo Lula.

A estratégia mudou no segundo turno. Lula passou a dar maior ênfase a propostas para o futuro e lançou um pacote de medidas, como o reajuste dos benefícios do Bolsa Família, a anistia de dívidas para microempreendedores individuais com o fisco, além da aprovação do fim da escala 6x1 no Congresso. Ainda assim, pode não ter sido suficiente para garantir a reeleição.

A última eleição de Lula

A disputa deste domingo representa um momento singular na trajetória de Lula. Prestes a completar 81 anos, o presidente enfrenta um adversário competitivo e que, a despeito do envolvimento em escândalos como o do Banco Master, conseguiu se desvencilhar de desgastes eleitorais.

A recuperação de Lula nas últimas três semanas, embora real, não apaga o favoritismo que Flávio Bolsonaro conquistou no primeiro turno. Tampouco garante que as multidões reunidas nas ruas ou os milhões de seguidores mobilizados nas redes sociais se traduzam em votos suficientes para reverter o resultado, visto que eleitores de menor renda — segmento em que o presidente tem vantagem — são mais propensos à abstenção.

A reação de Lula e de sua campanha, porém, permite uma conclusão política antes mesmo da abertura das urnas: o petista transformou uma campanha que parecia caminhar para uma derrota apática em uma disputa acirradíssima e de resultado incerto.

Para Lula, a eleição deste domingo pode representar uma quarta vitória eleitoral, que seria a mais adversa de todas, dado que o Congresso, em especial o Senado, eleito em 5 de outubro, representou um avanço da direita. A alternativa representaria desafios de governabilidade que exigiriam de Lula ainda mais capital político do que no mandato atual.

A alternativa de derrota provavelmente encerraria uma trajetória política pessoal que começou no fim da década de 1970, nas greves do ABC paulista, atravessou meio século da história política brasileira e levou um ex-operário à Presidência da República por três vezes. Independentemente do resultado, porém, Lula demonstra uma força política capaz de mobilizar metade do país e que continuará mesmo que ele não seja mais candidato. Não é pouca coisa.

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