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Saturday, October 24, 2026

Estado Novo tem centro interpretativo em Santa Comba Dão

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O secretário de Estado da Cultura defendeu esta sexta-feira que “estudar a ditadura é uma responsabilidade da democracia” e fazê-lo no Centro Interpretativo do Estado Novo, no Vimieiro, concelho de Santa Comba Dão, “acrescenta uma maior responsabilidade”.

Após duas décadas de avanços e recuos, o Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência abriu esta sexta-feira portas na Escola Cantina Salazar, com coordenação científica da Associação Ephemera, fundada por Pacheco Pereira.

Para Alberto Santos, estudar a ditadura “num lugar tão diretamente associado à figura de António de Oliveira Salazar”, figura maior do Estado Novo, acrescenta a responsabilidade “de conhecer o regime, compreender como ele se manteve durante tanto tempo, o que significou viver sob o seu poder” e que lição deixou para o futuro.

“Este centro interpretativo abre as portas sob o olhar atento, e em muitos casos até crítico, de quem conheceu por dentro a repressão do regime”, frisou, lembrando que 204 antigos presos políticos chegaram a escrever ao primeiro-ministro a manifestarem-se contra o projeto, “pelo receio de que pudesse contribuir para a reabilitação da figura de Salazar”.

Na sua opinião, “essas preocupações merecem ser ouvidas com respeito”, porque “quem passou pelas celas da polícia política, por Caxias, por Peniche ou pelo Tarrafal carrega uma experiência que nenhuma exposição consegue substituir e que nenhuma instituição de memória deve ignorar”.

“A censura, a perseguição, a tortura e a privação da liberdade fazem parte dessa história, mas é algo que não pode ser deixado de ser conhecido e transmitido”, afirmou.

O secretário de Estado mostrou-se satisfeito com a cooperação estabelecida entre a Câmara de Santa Comba Dão e a Associação Ephemera, que “definiu um propósito de investigação histórica e de autonomia científica”, contribuindo com “documentação, conhecimento e capacidade de programação”.

No que respeita aos receios de que o centro possa ser “instrumentalizado e apropriado por quem cultiva a nostalgia do regime”, Alberto Santos disse ficar reconfortado “com a ideia de que a defesa essencial contra esse risco reside na qualidade e na profundidade do trabalho científico que nele se fizer”.

“O meu desejo é que este centro seja sinal de esperança e ajude a semear, em quem o visitar, a coragem de pensar livremente e a vontade inquebrantável, irrevogável, de lutar e fazer durar a democracia”, sublinhou.

A comissão científica do centro será constituída por Marçal Grilo, Irene Pimentel, José Manuel Sobral, José Pedro Castanheira, Luís Nunes, Maria Inácia Rezola, Luísa Tiago de Oliveira e Rui Feijó. Pacheco Pereira realçou que a maioria são pessoas que, “antes e depois do 25 de Abril, tiveram um papel na defesa da liberdade e da democracia”.

O fundador da Ephemera lembrou que tem havido “dois tipos de críticas”: as das “pessoas que são saudosistas do salazarismo e queriam transformar isto num museu Salazar” e as das que pensam que se pretende “reabilitar o fascismo”.

“Como é evidente, a comissão científica, as pessoas que estão aqui a trabalhar e o programa do arquivo Ephemera deitam isso tudo abaixo”, considerou.

Para Pacheco Pereira, dos dois lados “há uma intenção comum, que é controlarem a história e a memória”.

A presidente da Câmara de Santa Comba Dão, Inês Matos, lembrou que na Escola Cantina Salazar, até 2009, “crianças da freguesia e do concelho tiveram aulas, aprenderam a conviver, a respeitar-se, a brincar juntos, nunca tendo a história que a escola carrega lhes pesado, prejudicado ou diminuído a sua condição de criança”.

“Assim sendo, porque haveria hoje de pesar, tendo em conta que se quer ver reaberta com o propósito de aqui se continuar a estudar, aprender, debater, em liberdade, um período da História de Portugal que ainda tem tanto para ser revelado?”, questionou.

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