Quem é Carrie Mae Weems, artista que usa fotografia para combater opressão
Essas são as diferentes faces de uma mesma mulher. Em uma fotografia, vemos a americana Carrie Mae Weems passar batom sobre os lábios. Sentada na mesa ao seu lado, uma menina repete o gesto. Em outro registro, ainda na cozinha, a vaidade sai de cena para dar lugar ao afeto. Na imagem, a fotógrafa afaga o rosto de um homem, enquanto ele se refestela sobre um prato de lagostas.
Em outra fotografia, a solidão matrimonial emerge a partir do rosto melancólico da artista, que divide o quadro com o marido, que está com os olhos afundados nas páginas de um jornal.
As imagens de Weems revelam as diferentes camadas que constituem a experiência feminina. Mais do que mães, as mulheres podem ser amigas, amantes, vaidosas, melancólicas, virtuosas e despudoradas. A julgar pelos trabalhos de Weems, o corpo feminino pode abrigar multitudes.
Intitulada "Kitchen Table", essa série é o projeto mais conhecido da americana. Com mais de quatro décadas de carreira, a artista se consagrou em seu país. Em 2022, ela recebeu das mãos do ex-presidente Joe Biden a medalha nacional de artes, a maior condecoração concedida a artistas dos Estados Unidos.
É um prestígio conquistado graças a uma trajetória que une apuro estético e preocupação social à experimentação artística. Ao longo da carreira, ela já trabalhou com vídeos, textos, tecidos e instalações. Mas Weems é mais conhecida em razão de seu trabalho fotográfico.
Não à toa, a artista é o destaque do Festival Zum, evento que acontece entre sábado (7) e domingo (8), no IMS Paulista, reunindo atividades sobre fotografia e cultura visual. A vinda da fotógrafa é resultado de uma parceria entre o Instituto Moreira Salles e a Women Photographers International Archive, organização americana que apoia mulheres na fotografia.
"Mal posso esperar para estar lá. Há muitos anos quero conhecer o Brasil", diz Weems. "Estou ansiosa para descobrir o país, encontrar outros artistas e ver seus trabalhos."
É com esse mesmo entusiasmo que a fotógrafa discorre sobre "Kitchen Table", projeto pelo qual ela se tornou nome celebrado na arte americana a partir dos anos 1990. "O trabalho foi realizado em um contexto em que não existia nada semelhante. Nada sobre uma mulher negra negociando o casamento, a monogamia, a poligamia, a amizade e o amor. Tudo isso em torno de um único lugar."
Esse lugar é uma pequena cozinha, cenário que se repete em todas as fotografias da série. "É uma construção simples, mas o projeto é capaz de carregar uma bagagem enorme justamente por causa dessa simplicidade. Não importa onde eu esteja no mundo. Todos se identificam com o projeto."
A artista usou a cozinha como cenário por entender que o âmbito doméstico desempenha papel central na vida das pessoas.
"É quando você está sentado na cozinha, tomando uma xícara de café ou fazendo uma refeição sozinho, com a família ou com os amigos, que grande parte da sua vida é negociada", afirma. Não é detalhe o fato de a cozinha ser, historicamente, um espaço tido como feminino.
No trabalho de Weems, esse espaço não é símbolo de servilismo, mas um palco em que a mulher assume diferentes papéis. Ora, a fotógrafa se contorce de forma lânguida para expressar prazer; ora, ela tampa os olhos com as mãos como se quisesse esconder o choro.
Tudo isso se desenrola sob a luz invasiva de uma luminária, como aquelas que vemos em interrogatórios policiais. Com esse recurso cênico, é como se a fotógrafa tentasse investigar as diferentes facetas da feminilidade.
"Uma das razões pelas quais o trabalho é bem-sucedido tem a ver com esse questionamento contínuo sobre o corpo e com a tentativa de usá-lo como espaço de exploração e complexidade."
Além de jogar luz sobre questões de gênero, Weems analisa o papel da fotografia no fortalecimento de discursos racistas.
Foi isso o que ela fez na série "From Here I Saw What Happened and I Cried". Nesse projeto, a artista resgatou imagens de pessoas escravizadas feitas pelo naturalista Louis Agassiz. O suíço almejava usar as imagens para defender aquilo que enxergava como a inferioridade racial das populações negras.
Weems decidiu, então, atribuir novos significados a essas obras ao adicionar frases que evidenciam a desumanização dos retratados. "O trabalho é realmente uma resposta à objetificação dos negros, dos africanos e das mulheres."
Temas como esse permeiam o projeto estético de Weems, para quem o amor e a justiça social são os pilares de sua poética. "Meu trabalho é um ato de amor. Não como algo sensual, mas como uma necessidade essencial em nossa vida."
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