"Eleições em Israel não vão alterar a política de segurança"

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Liliana Reis, bem-vinda. Obrigado por se ter juntado a nós neste gabinete de guerra de domingo, 25 de outubro. Começava por perguntar de que forma é que as eleições em Israel estão a influenciar, neste momento, o conflito nesta região do globo.
Bom dia, Miguel, e bom dia a todos os nossos ouvintes. Naturalmente que têm uma influência bastante significativa, até porque, neste momento, não apenas o primeiro-ministro, não apenas Netanyahu, como o seu partido Likud, da direita mais nacionalista e dependente dos partidos religiosos, têm que conduzir uma campanha eleitoral para além de tudo aquilo que se passa também do ponto de vista militar, mas também é confrontado com alguns opositores, sobretudo o antigo chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, o Eisenkot, do partido Yachad. E também temos aqui o antigo primeiro-ministro Bennett, que numa aliança com Lapid, tem sido muito assertivo no combate ao programa nuclear iraniano. Ou seja, nós não conseguimos ainda antecipar os resultados das eleições, até porque me parece que, pelas sondagens que vão sendo conhecidas, que há aqui uma divisão do Knesset bastante acentuada. E vai ser difícil conseguir uma maioria estável de 61 parlamentares de uma coligação única. Por isso, provavelmente aquilo que nós vamos assistir é a possibilidade de arranjos parlamentares no Knesset. E uma mudança do primeiro-ministro pode também não significar necessariamente uma mudança de orientação estratégica em matéria de segurança. Repare que quer Eisenkot, quer Bennett, também subscrevem parte daquilo que tem sido a posição de Netanyahu em relação à defesa do território israelita. As divergências ocorrem, sobretudo, na condução das operações militares, sobretudo em Gaza e também na Cisjordânia. Aliás, Bennett tem sido até mais crítico em relação à posição da expansão dos colonatos na Cisjordânia. Agora, aquilo que nós vemos é que se nenhum destes campos reunir os 61 deputados, poderão seguir-se negociações prolongadas e provavelmente ou um governo de unidade ou novas eleições. Pode também haver algumas alterações em relação aos próprios aliados, nomeadamente em relação ao aliado preferencial, aos Estados Unidos. Alguns conselheiros próximos de Trump, e permita-me também que refira esta questão, porque vi ontem no "New York Post", consideram que uma mudança de governo em Israel pode facilitar certos objetivos diplomáticos no Médio Oriente. Porque Washington, nós também sabemos que, e Donald Trump também terá eleições muito em breve, as "midterm", e, neste momento, aquilo que também procura é que haja aqui talvez uma maior abertura, nomeadamente para limitar simultaneamente a ameaça iraniana, mas que não comprometa os custos militares cada vez mais elevados e também económicos e energéticos de uma nova confrontação. Não me parece que Donald Trump queira, neste momento, uma nova confrontação com o Irão. E depois, em Gaza, os Estados Unidos, neste momento, procuram consolidar o cessar-fogo e avançar para uma solução de governação e de reconstrução. E como nós sabemos, o desarmamento do Hamas ainda não está totalmente resolvido. E depois, talvez o aspecto que me parece até mais importante neste momento para os Estados Unidos é a estabilidade da Arábia Saudita e dos Estados do Golfo, que é essencial, naturalmente, especialmente perante a ameaça dos houthis e o risco de perturbações energéticas, como nós temos vindo a assistir. Aliás, eu já falei aqui mais do que uma vez no nosso gabinete de guerra, que neste momento é talvez um dos maiores problemas que também se coloca aos Estados Unidos em relação ao Médio Oriente e em relação à sua relação com a Arábia Saudita, que se vê a braços com ataques permanentes dos houthis. E nós já vimos, não apenas a infraestruturas petrolíferas, mas também ao aeroporto. Por isso, aquilo que nós podemos antecipar destas eleições em Israel é que, por um lado, não vão alterar significativamente aquilo que é a política externa israelita, nomeadamente a necessidade de segurança nacional, de atrelar a política externa, naturalmente, à segurança nacional do Estado israelita, mas, por outro lado, pode levantar aqui novos eixos e novas ligações com os Estados Unidos que poderão efetivamente direcionar os equilíbrios para outra direção. E agora permita-me também que partilhe com o Miguel outra questão. É que o presidente do Irão, o Pezeshkian, tem uma visita prevista na próxima terça-feira, ou seja, no dia das eleições em Israel, o presidente iraniano estará em Moscovo para participar na cimeira do Fórum dos Países Exportadores de Gás. Ora, isto depois de Sergei Lavrov ter estado em Teerão também esta semana. E depois, como nós sabemos, de em janeiro de 2025 terem assinado o Tratado de Parceria Estratégica Abrangente, que inclui segurança, defesa, energia e transportes. Ora, esta visita do presidente iraniano a Moscovo também dá aqui um sinal claro que eu acho que Donald Trump deveria estar mais atento em relação a estas movimentações quando pensa que pode negociar com Vladimir Putin de uma forma de aliado, é que, na verdade, há aliados preferenciais que Moscovo já conta e um deles é o Irão.
Pode haver alguma tentação por parte de Netanyahu de intensificar operações militares nestes dias para tentar capitalizar em votos?
Pode. É algo que efetivamente pode acontecer. Sobretudo, nós temos vindo a observar operações, aliás, também depois da morte de dois militares israelitas na Cisjordânia. Mas aquilo que nós temos vindo a observar é que, pelo menos do lado da Cisjordânia, há de fato um intensificar das operações militares, até porque a questão da Cisjordânia divide muito mais a oposição do que propriamente Gaza. Nós temos observado, até nos discursos, quer de Bennett, quer de Eisenkot, uma proximidade maior com Netanyahu. Hoje é domingo, dia 25. As eleições são dia 27, ou seja, são daqui a dois dias. Essa intensificação a acontecer só poderia ser hoje ou amanhã, e por isso também não me parece que possa existir, não sei em que é que o Miguel me questionava, mas se for, por exemplo, em relação ao Irão, não me parece que isso venha a acontecer nas próximas 48 horas. O que pode acontecer, efetivamente, é em relação ao aumento da violência na Cisjordânia, até porque, neste momento, Netanyahu, como eu dizia, tem uma posição mais isolada relativamente a Eisenkot e a Bennett. Eisenkot, aliás, já veio até condenar a violência dos colonos e defender uma maior responsabilização também. E o Bennett, apesar de ter mantido uma posição favorável à presença israelita na Cisjordânia, também teve dois discursos relativamente à condenação da violência por parte dos colonos israelitas. Por isso, na Cisjordânia há uma divisão maior entre estes três grandes protagonistas do que propriamente em Gaza ou em relação ao Irão, à política que deve ser conduzida por parte de Israel em relação ao Irão.
Já há pouco falou da violência também na Arábia Saudita. Riad reabriu esta manhã o aeroporto, mas os ataques dos houthis têm tido a sequência nos últimos dias. Como é que a Arábia Saudita pode tentar também pôr fim a estas ofensivas que se têm intensificado nos últimos tempos?
A Arábia Saudita, nós temos vindo a observar que está a braços com uma situação muito complicada. Os houthis continuam a levar a cabo ataques contra a Arábia Saudita e, como eu dizia, já ultrapassou a fase inicial, que era muito direcionada para infraestruturas petrolíferas da Arábia Saudita. Efetivamente, Riad hoje abriu o aeroporto, mas nós sabemos o que aconteceu no aeroporto, nomeadamente ao nível muito elevado do número de mortos. Agora, a Arábia Saudita procura que os Estados Unidos também ofereçam alguma segurança ao próprio território, mas aquilo que nós continuamos a observar é que os houthis continuam com capacidade militar de projeção de ataques até de longo alcance. Por isso, os houthis também estão a ser alimentados e fornecidos, provavelmente pelo Irão, mas não excluiria outros atores deste fornecimento de capacidades militares aos houthis. Nós sabemos que há aqui alguns proxies, como o Hamas, como o Hezbollah no sul do Líbano, como os houthis no Iêmen, mas os houthis, neste momento, procuram não apenas desestabilizar a Arábia Saudita, como o próprio Iêmen, e controlar o Estreito de Bab-el-Mandeb, e condicionar, naturalmente, toda a circulação marítima no Mar Vermelho. Por isso, a situação da Arábia Saudita, neste momento, também vem deslocar o foco de atenção norte-americano, não exclusivamente para Israel e para o problema do Irão, mas de uma forma indireta, porque sabe que o Irão também tem mão naquilo que está a acontecer entre o Iêmen e a Arábia Saudita. Entre o Iêmen, não, que, aliás, o próprio Iêmen também está a ser afetado, entre os houthis no Iêmen e a Arábia Saudita. E por isso, isto de certa forma também é visivelmente uma condicionante por parte do Irão de deslocar e dispersar os meios norte-americanos, que não são ilimitados e têm que se fazer escolhas. E neste momento, as escolhas que têm que ser feitas naturalmente obrigam à divisão das capacidades militares norte-americanas no Médio Oriente entre o Irão e a Arábia Saudita.
Helena Reiesto, antes de virar também as atenções para o conflito na Europa, também com estes impactos que ouvimos nos últimos dias da questão do Starlink e da influência dos Estados Unidos nesta guerra. Zelensky vai ter aqui dias complicados até às midterms dos Estados Unidos
Vai, porque aquilo que nós temos vindo a observar é que Donald Trump está a tentar acelerar uma solução negociada, enquanto Zelensky naturalmente procura impedir que essa solução implique concessões territoriais sem garantias de segurança credíveis. Nós esta semana tivemos a visita de Witkoff a Oslo, aliás, em que se reuniu com Zelensky, e dessas negociações, ou dessa reunião, a única coisa que foi transmitida é que há efetivamente disponibilidade para negociações trilaterais entre os Estados Unidos, a Rússia e a Ucrânia, mas Zelensky queixou-se dos problemas de cooperação militar e de informações fornecidos por Washington. Depois, Witkoff foi reunir-se com Vladimir Putin em São Petersburgo logo no dia 21 de outubro, logo no dia seguinte, e aquilo que nós observamos é que no dia 22, ataques russos continuaram contra Kiev e outras regiões. Aliás, ainda ontem vários ataques também se observaram, nomeadamente em Zaporíjia, que levaram também à morte de três pessoas. Não me parece que neste momento esta vontade de Donald Trump de pressionar para negociações a Ucrânia passe disso mesmo, ou seja, de uma vontade individual da Casa Branca, porque primeiro, a próxima ronda de negociações que começa a ser discutida entre os Estados Unidos, a Ucrânia e a Rússia poderá decorrer em Abu Dhabi ou na Suíça. Aliás, a informação que nós temos dos Estados Unidos é que há uma inclinação maior para a Suíça, enquanto por parte da Rússia é para Abu Dhabi, na primeira quinzena de novembro. Mas neste momento, nós temos também, e temos que o destapar, uma clara deterioração das relações entre Washington e Kiev e a intensificação destes ataques que eu falava a propósito da Rússia em relação à Ucrânia. Não me parece que haja aqui uma vontade clara de negociação quando os ataques continuam. Agora, naturalmente que Donald Trump dar-lhe-ia muito jeito, e ele sabe disso, procurar aqui um acordo antes das midterm. Agora, a questão que nós temos, pelo menos em cima da mesa, é que o único cessar-fogo que tivemos, pelo menos esta semana, foi o de Olesky, anunciado para ser iniciado também no dia 27 de outubro, também no dia das eleições em Israel. Mas este cessar-fogo destina-se apenas a permitir assistência humanitária e algumas evacuações. Aliás, e também a troca que nós tivemos conhecimento de 270 militares de cada lado. Se por um lado, Olesky pode ser uma oportunidade para testar a capacidade das partes para executar compromissos limitados, o que é certo é que não nos permite extrapolar a possibilidade destes compromissos serem muito mais alargados, até porque neste momento, Zelensky precisa de garantias de segurança muito sólidas para que não seja congelado o conflito e daqui a um ano seja confrontado novamente com ataques da Rússia à Ucrânia.
Liliana Reis, muito obrigado por se ter juntado a nós neste gabinete de guerra de domingo nas manhãs 360 da Rádio Observador.
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