Muitos cliques, nenhum candidato: as palavras que fazem uma vaga de emprego ser ignorada
Quase 3.000 anúncios de emprego foram abertos por pelo menos dez pessoas cada um e não receberam um único currículo.
Ao investigar o motivo, a plataforma de empregos JobLeads descartou o salário e o excesso de exigências. O que separa essas vagas das demais é o vocabulário: elas pedem traços de personalidade, como “motivado”, em vez de habilidades que o candidato consiga conferir.
O levantamento analisou cerca de 1,4 milhão de anúncios publicados entre abril e junho de 2026 e isolou 2.984 com 10 ou mais cliques e zero candidaturas. Nesse grupo, “motivado” aparece 4,5 vezes mais do que na base de comparação. “Trabalhador” aparece 4,3 vezes mais, e “seguir instruções”, 10 vezes mais.
A hipótese que os dados derrubaram
A primeira suspeita dos analistas era previsível: listas longas de requisitos assustariam quem lê. Os números não confirmaram. Nos dez setores analisados, as vagas sem candidatos listam em média 4,4 habilidades, contra 4,5 na média de todos os anúncios clicados no trimestre.
O salário também não explica. As faixas oferecidas nas vagas ignoradas ficaram próximas das demais, o que afasta a ideia de que o candidato desiste ao ver muita exigência por pouco dinheiro.
Por que “motivado” afasta candidatos
O relatório separa o que pode ser verificado do que não pode. Quem lê uma vaga consegue saber se domina Python ou se já fechou uma folha de pagamento. Não tem como saber se é motivado o bastante para aquela empresa.
Sem um critério concreto para se comparar, o candidato fica sem base para decidir se vale a pena tentar. Para os autores, a régua nem chega a aparecer.
Pesa também a impressão de texto genérico. Termos de personalidade costumam surgir em anúncios com cara de modelo, escritos sem uma função específica em mente, e o leitor acaba tratando a vaga com o mesmo descaso.
Outro grupo de palavras tem efeito parecido. Anúncios que listam equipamentos que o candidato precisa ter, como notebook, computador ou celular, dizem pouco sobre o trabalho e podem sugerir que a empresa não vai fornecer o básico.
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A ironia do RH
A área mais afetada é justamente a que costuma escrever os anúncios. Vagas de recursos humanos têm 28% mais chance de ser clicadas sem receber candidaturas do que a média. No extremo oposto, as de finanças têm 25% menos chance, porque costumam detalhar as habilidades exigidas.
Os autores atribuem o resultado ao perfil das funções de RH, avaliadas por critérios como alinhamento cultural e competências comportamentais. Na hora de anunciar a vaga, esses critérios viram justamente a linguagem de traços que domina os anúncios ignorados.
O que o anúncio revela antes da entrevista
A recomendação do relatório às empresas é direta: nomear as habilidades que a função usa de fato, os sistemas com que o contratado vai trabalhar e o que se espera dele nos primeiros meses.
Para quem procura emprego, o dado mostra que o anúncio carrega mais informação do que parece. Uma leitura atenta ajuda a separar requisito real de texto de modelo e a captar sinais sobre a cultura da empresa antes de enviar o currículo. Num mercado em que um candidato pode se inscrever em até 90 vagas antes de ser contratado, segundo estudo do Indeed, escolher bem onde se candidatar poupa tempo e energia.
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