“Habeas Corpus’ representa um direcionamento artístico que eu protejo’, afirma Any Gabrielly

Habeas Corpus, primeiro drama jurídico da Netflix no Brasil, protagonizado por Marjorie Estiano (Ângela Diniz: Assassinada e Condenada) e Any Gabrielly (As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você), chegou nesta quarta-feira, 23 de setembro, ao catálogo da Netflix.
Na série, Marjorie interpreta Inez, professora de Direito e ex-advogada criminalista que reúne um grupo de estudantes para revisitar o caso de um jovem que pode ter sido condenado injustamente. Já Any vive Marina, uma das estudantes envolvidas na investigação, que carrega motivações pessoais relacionadas a uma injustiça do passado.
Em conversa exclusiva com Rolling Stone Brasil, as atrizes falaram sobre a preparação para interpretar personagens inseridas nesse universo e sobre as contradições que tornam Inez e Marina figuras menos fáceis de definir. Confira o papo completo a seguir:
O processo de preparação
Para interpretar personagens inseridas em um universo tão complexo quanto o da Justiça brasileira, Any Gabrielly e Marjorie Estiano precisaram ir muito além do estudo de termos jurídicos e procedimentos. “Foi árdua”, resume Any sobre a preparação.
Segundo a atriz, o desafio estava justamente em compreender, em pouco tempo, um sistema inteiro. “É muito complicado você ter que aprender desde o sistema de educação até a polícia, os juízes, tudo. Toda a engrenagem da Justiça no Brasil, em mais ou menos um mês.”
O processo, no entanto, acabou criando uma dinâmica de colaboração entre o elenco e a equipe. “Todo mundo estava muito aberto a perguntar. Eram muitas pessoas que não sabiam de nada, tentando entender tudo juntas. E isso criou um clima muito de parceria mesmo”, conta Any.
Para Any, não bastava saber como a Justiça funciona: “A gente também estava ali entendendo a jornada íntima dessas personagens. Como elas interagem, quem elas são, o que elas representam dentro daquela história e dentro do Brasil.”

Marjorie, por sua vez, conta que a preparação incluiu encontros com profissionais. “A gente teve a instrução do Innocence Project. O João Meirelles também, que era um advogado que trazia os bastidores da Justiça”, lembra.
A atriz buscou ainda referências no cinema documental de Maria Augusta Ramos, assistindo a obras como Juízo e Justiça. “Eles trazem sempre vieses diferentes, advogado, da família de uma pessoa condenada, do condenado, dos promotores. Apresentavam a Justiça através de personagens diferentes, porque ela é um sistema imenso.”
Para Marjorie, compreender essa dimensão foi importante justamente para perceber que a Justiça não termina no tribunal. “Depois da penitenciária, o que é que vem? O impacto da Justiça na vida de um cidadão.” E adiciona: “E quanto mais vulnerável o cidadão, maior o impacto, maior a dimensão do abandono quando o Estado falha”, afirma.
Foi nesse contexto que Marjorie também passou a olhar para a atuação de iniciativas como o Innocence Project. Para a atriz, a existência dessas organizações evidencia a necessidade de fiscalização e atualização permanente de um sistema criado por seres humanos e, portanto, sujeito a falhas.

Para Marjorie, compreender a Justiça significou também refletir sobre o próprio conceito de reparação. “Ela ocupa um lugar idealizado do que a gente acredita que é justo. E tem o que ela propõe na prática como um alicerce de um convívio social”, afirma. “Cada pessoa tem sua narrativa, seu ponto de vista, seus motivos. É muito complexo mesmo”, diz a atriz.
No entanto, para a atriz, o estudo não terminou com as gravações. “Foi um processo bem árduo, como a Any falou, e eu acho que inesgotável. A gente estuda antes, durante e depois. A gente continua estudando, pensando e buscando compreender com a situação que a gente vive.”
Segundo ela, a série permanece como uma oportunidade de pensar sobre o papel dessas instituições e sobre a responsabilidade de quem participa delas. “É um ano da Justiça, a gente está o tempo inteiro agora com a Justiça em foco, pensando sobre o papel dela e a nossa responsabilidade dentro da manutenção dela, desse sistema.”

As contradições das personagens
Mais do que entender o funcionamento da Justiça, Marjorie e Any precisaram descobrir as contradições de suas personagens em Habeas Corpus. Na série, ambas transitam por um universo marcado por dilemas éticos e morais. Para as atrizes, justamente a impossibilidade de classificá-las simplesmente como heroínas ou vilãs foi um dos aspectos mais interessantes da produção.
Para Marjorie, as contradições “foram os aspectos mais sedutores da personagem”, afirma. “Não só da Inez, mas acho que da série como um todo, ela brinca muito com essa ideia da ética e da moral, onde são todos antiéticos, todos contraditórios.”
Ao ser questionada sobre o que lhe chamou atenção em primeiro lugar, Marjorie afirmou: “De primeiro, a Justiça em si. Embora ela faça parte da nossa vida, eu nunca tinha visto ela de perto, entender um pouco como funcionam os atores, os instrumentos, o que ela propõe, o que ela entrega. E o nosso papel na construção e na manutenção disso.”
Esse interesse também passou por uma perspectiva histórica. “Compreender como ela começou essa proposta de regulador, de mediador do convívio social e como ela vai se transformando. O tema mesmo foi algo muito sedutor”, explica.

Para Any, o interesse pela história veio imediatamente. “Eu digo mesmo, foi de cara: nossa, quero contar essa história.” Mas, assim como Marjorie, ela encontrou nas contradições um dos principais atrativos de sua personagem.
“A Marina é muito contraditória dentro da história”, afirma. É justamente essa zona cinzenta que interessa à atriz. “Eu acho que tem essa complexidade ali de heroína, mas ela é meio que péssima, às vezes”, brinca Any.
Para ela, a série não trabalha com uma divisão simples entre personagens que representam o bem e outras que representam o mal. “E no fim, na verdade, na série não existem heróis, não existem vilões. Todo mundo é meio complexo”, resume.
A construção de Marina também exigiu que Any explorasse diferentes versões da mesma mulher. “Ela podia ser várias coisas, dependendo do momento, dependendo do que ela quisesse ali, naquela situação.”
Para a atriz, essa multiplicidade foi justamente um dos desafios mais interessantes da personagem: “Foi desafiador”. Ao mesmo tempo, interpretar Marina significou representar uma personagem que ultrapassa os limites da própria ficção. “Ela representa muita gente dentro do nosso país.”

Identidade brasileira no primeiro drama jurídico da Netflix
Vendida pela Netflix como o primeiro drama jurídico brasileiro da plataforma, Habeas Corpus busca se diferenciar de produções internacionais do gênero ao colocar a Justiça brasileira no centro da narrativa. Para Any, a série pode aproximar o público de um universo que nem sempre é compreendido em profundidade. “Eu acho que agrega essa questão de aproximar o telespectador ao nosso sistema”, explica.
A atriz também destaca que o público já está acostumado a acompanhar histórias sobre diferentes áreas profissionais em produções estrangeiras, mas que Habeas Corpus propõe um movimento diferente ao olhar para uma estrutura brasileira. “É a primeira vez que a gente pega o nosso e fala: ‘Vamos contar a nossa história do nosso ponto de vista?’”
Marjorie concorda que a identidade brasileira é justamente um dos principais elementos que diferenciam a produção. “Em qualquer cultura você tem o seu modelo de Justiça e o nosso é semelhante em relação a vários outros países. Mas Habeas Corpus traz a nossa identidade.”
É nesse ponto que, para Marjorie, a série deixa de falar apenas sobre tribunais, leis e procedimentos e passa a discutir o comportamento de uma sociedade. “A cultura é isso, os valores, a dimensão, o peso que cada elemento tem na construção de um indivíduo, a sua família, sua relação com o trabalho, com a sobrevivência, com os afetos.”
“E é esse o nosso diferencial. Falar sobre quem somos,” completa.
A importância de Habeas Corpus na carreira de Any Gabrielly
Any Gabrielly revela que encontrou em Habeas Corpus mais do que uma oportunidade de atuação. Para a atriz, o projeto representa uma confirmação do tipo de artista que deseja ser: alguém comprometida com histórias capazes de provocar reflexão, diálogo ou simplesmente criar algum tipo de identificação em quem assiste.
“Falando de uma forma pessoal, Habeas Corpus é muito maior do que eu, eu acho que para mim é uma forma excelente de mostrar artisticamente o que eu quero”, afirma.
Any, que também tem trabalhos como cantora e dubladora, explica que enxerga diferentes linguagens como possibilidades para expressar o mesmo propósito artístico. “É mais uma forma de mostrar que o meu compromisso é contar histórias, boas histórias, histórias que eu acredito.”
Para ela, é importante participar de produções que provoquem algum tipo de reação no público. “Histórias que façam as pessoas conversarem, pensarem, se questionarem.” E completa: “Mesmo que não mude algo no universo, mas que atravesse aquela pessoa que precisa daquele acolhimento em algum momento”, explica.
Por isso, a série ocupa um lugar específico dentro de sua trajetória. “Habeas Corpus representa muito um direcionamento artístico que eu protejo”, afirma.

Apesar de reconhecer que a série pode representar um momento importante para sua carreira no audiovisual, Any diz que esse não foi o principal motivo para aceitar o projeto. “O meu apelo a pegar essa série nunca foi: ‘Nossa, isso vai ser louco para a minha carreira, vai ser um passo, que wow!’”, conta. “Isso aconteceu naturalmente, como consequência.”
O que realmente chamou sua atenção foi a possibilidade de participar de uma produção que considerava necessária. “A minha motivação definitivamente foi: caraca, olha a história que eu vou poder jogar para o mundo, olha o que as pessoas vão poder ver e eu vou poder participar disso.”
Nesse sentido, Any prefere se enxergar como parte de algo maior do que sua própria trajetória. “Eu vou ser uma ferramenta de contar essa história que é tão linda, que é tão necessária”, finaliza.
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