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Monday, October 19, 2026

Brigadeiros, Harvard e 200 milhões de pacientes: os finalistas do Sudeste no Prêmio Na Prática

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Gabriel Ronatty, 27 anos, João Freitas, 28, e Matheus Scatolin, 21, disputam nesta terça-feira, 20 de outubro, o título da Região Sudeste no Prêmio Na Prática 2026.

Os três estão entre os 15 finalistas escolhidos entre mais de 9 mil inscritos, e quem vencer ganha uma imersão de uma semana na China.

Os três estudam em São Paulo e trabalham com dados e inteligência artificial aplicados à medicina. Um começou a trabalhar aos 12 anos vendendo doces. Outro passou pelo ITA e pela França. O terceiro é o melhor aluno da turma de Engenharia da Computação da Unicamp.

Como funciona o Prêmio Na Prática

Criado em 2025 pelo Na Prática, plataforma de carreira da Fundação Estudar, o Prêmio Na Prática Protagonismo Universitário reconhece estudantes que se destacam dentro e fora da sala de aula à frente de projetos com impacto econômico, social ou tecnológico. A segunda edição recebeu mais de 9 mil inscrições de todo o país.

A seleção é feita por região, de acordo com o estado onde o candidato estuda. Cerca de 1,6 mil inscritos passaram pela triagem inicial e 500 seguiram para entrevistas e testes de raciocínio lógico. Uma banca regional com 50 candidatos definiu os 15 finalistas, três por região. Treze deles estudaram em escola pública ou em escola particular com bolsa.

Nesta semana, os finalistas participam de uma imersão em São Paulo, com curso de liderança, visitas a empresas parceiras e apresentação a uma banca de especialistas e executivos. Cada região terá um vencedor, e um dos cinco recebe também o título nacional. Os premiados viajam por uma semana à China, com custos pagos, para conhecer o ecossistema de inovação do país. Os vencedores da primeira edição passaram por Pequim e Xangai, com visitas a empresas como a Alibaba e a centros de saúde e robótica.

O prêmio tem apoio do BTG Pactual e da Suzano. A EXAME é parceira de mídia da premiação.

Do salão do pai à Harvard Medical School

Gabriel começou a trabalhar aos 12 anos vendendo brigadeiros, flores e distribuindo panfletos. Aos 15, no salão de beleza do pai, uma conversa com uma cliente pesquisadora despertou seu interesse pela ciência. Uma professora também lhe apresentou a autobiografia do neurocirurgião Ben Carson, que mudou a forma como ele via o próprio futuro.

Ainda no ensino médio, participou na USP do desenvolvimento de um pâncreas bioartificial e foi selecionado para a maior feira de ciência e engenharia do mundo. Hoje está no último ano de Medicina na Unifesp. Foi trainee em IA e neuroimagem na Harvard Medical School, onde analisou mais de 800 GB de ressonâncias magnéticas.

Fundou duas empresas. Em uma consultoria para clínicas, triplicou a conversão de clientes de uma delas e levou o faturamento a R$ 150 mil mensais em quatro meses. Com o Médico Híbrido, quer capacitar médicos a usar IA de forma crítica e baseada em evidências.

Gabriel concorreu ao prêmio em 2025 e volta agora como finalista. A viagem dos vencedores coincide com um plano dele: conhecer de perto os avanços da China em inteligência artificial e robótica médica e trazer parcerias para a saúde brasileira. “Mais do que conquistar um prêmio, quero mostrar que minha história só faz sentido quando aquilo que aprendi também ajuda a abrir caminhos para quem vem depois”, diz.

Os dados do SUS que não foram feitos para pesquisa

O SUS gera um dos maiores volumes de dados de saúde do mundo, e boa parte está aberta no DataSUS. O problema, segundo João, é que esses registros foram criados para cobrança. Cada internação, procedimento ou óbito aparece isolado, sem que se consiga acompanhar o percurso de um mesmo paciente. Por isso, a maioria dos estudos com esses dados analisa médias de regiões, e não pessoas.

João estuda Medicina na USP depois de cursar Engenharia no ITA e fazer mestrado em Ciência de Dados e Matemática Aplicada na École Polytechnique, na França. Começou analisando as tabelas públicas do próprio sistema e avançou até cruzar bases diferentes, medindo o erro desse cruzamento. Hoje reconstrói a trajetória anonimizada de cada paciente na atenção especializada e incorpora indicadores socioeconômicos. A infraestrutura processa mais de 10 TB de dados, com registros de 200 milhões de pacientes, sem precisar de um supercomputador.

Como o sistema também traz o gasto dos hospitais, dá para medir custo e efeito ao mesmo tempo. Uma intervenção mais barata, por exemplo, pode sair mais cara se gerar mais reinternações.

Entre os resultados está uma coorte nacional de pacientes com tumor de Wilms, um câncer renal infantil, com dados de todo o Brasil ao longo de 16 anos. Segundo João, seria a sexta maior do mundo. O trabalho também mostrou diferenças no diagnóstico e no investimento em tratamento de câncer entre homens brancos e não brancos. O projeto deu origem à HealthData Brasil, empresa que ele cofundou para levar a metodologia a instituições, empresas e pesquisadores.

João torce pelos colegas do Sudeste, seus concorrentes diretos, mas não esconde o objetivo. “É óbvio que eu quero ganhar a viagem para a China e toda a visibilidade de ser o campeão nacional”, diz.

Prever como um tumor evolui

Matheus foi o primeiro brasileiro no programa de pesquisa para alunos de graduação da Universidade Mohamed bin Zayed de Inteligência Artificial (MBZUAI), em Abu Dhabi. Lá, desenvolveu um sistema que analisa ressonâncias 3D de pacientes com tumor cerebral ao longo do tempo e classifica automaticamente a evolução da doença.

A tecnologia combina machine learning clássico e redes neurais e superou a abordagem tradicional em todas as métricas de diagnóstico. O grupo foi eleito o melhor entre 15, e a pesquisa rendeu artigos na MICCAI, uma das principais conferências do mundo em imagens médicas.

Hoje Matheus trabalha como engenheiro de IA no Valor Capital Group, fundo de venture capital. “O que mais passa pela minha cabeça é a vontade de mostrar que dá para fazer pesquisa de ponta e tecnologia de nível mundial saindo do Brasil”, diz.

Os três tratam a medicina como um problema de dados, mas falam dela como uma questão de acesso.

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