Como não criar crianças stressadas numa rotina apressada?

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos, à boleia de uma ouvinte, falar de crianças, do regresso às aulas, das atividades extracurriculares e do tempo que sobra, que é quase nenhum. Olá, Eduardo. Estes pais não querem tirar as crianças das atividades, porque elas gostam de lá andar, mas sentem que depois não sobra tempo para estarem juntos sem pressa. Até que ponto encher a semana com atividades compensa o desgaste da rotina familiar?
Olá, Judite. Estamos naquela altura em que todos nós, que temos filhos mais pequenos, temos uma formação muito apressada em logística, porque às vezes é terrível encaixar tudo. O nosso trabalho, então, quando se tem mais que um filho, é uma tarefa terrível. E quando se vive numa cidade grande, como Lisboa, como Porto, mais difícil ainda, porque fazer com que os horários batam certo e acreditar que o trânsito ajude ainda é uma coisa mais difícil. Mas é nestas alturas que se define toda uma agenda que eu acho que é muito importante definir. Eu gosto que as crianças tenham o tempo de escola necessário e suficiente e, portanto, nunca para além do que é razoável. Melhor escola não significa mais escola, que fique claro. E depois, que sobre tempo, de preferência, que sobre uma tarde, para que os pais a possam preencher, consoante os dias da semana, com aquilo que é habitual. Uma atividade física é fundamental. Claro que uma coisa é eles já dominarem a natação, outra diferente é a necessidade de fazerem essa aprendizagem. Uma atividade física de equipe, um esporte de equipe, eu acho absolutamente fundamental. Educa o corpo, educa para a humildade, porque quando elas estão a mandar nas disciplinas na escola, muitas vezes chegam a um grupo de voleibol, de futebol, ou seja do que for, e percebem que o protagonismo que têm não tem comparação com aquilo que se passa na escola, portanto, é muito importante. Gosto muito que elas tenham uma atividade estética, música de preferência. Eu acho que é tão importante como ter matemática e português. E nessas circunstâncias, já temos aqui um naipe de coisas que são preciosas. Claro que nestas alturas os pais pensam sempre isto que a nossa ouvinte nos está a dizer. Elas gostam, se puderem repartir a tarde entre o tênis, o futebol, a natação, etc. Muitas vezes fazem, isto exige que haja regras. Já há uma mãe, às vezes são mais as mães, quem faz duro nisto tudo, a sacrificar-se para andar numa correria louca, mas não é por lhes darem várias oportunidades formativas que estão a ajudar a fazer crescer bem. E portanto, eu gostava que houvesse pelo menos uma tarde livre, pelo menos uma, Judite, onde se possa não fazer nada, nomeadamente, se possa ir lanchar com a mãe ou com o pai, se possa estar em casa a brincar com os Legos, se possa perceber na exata dimensão o que significa o tempo livre. E eu acho que nós não estamos a pedir demais, se houver só uma tarde livre. Se houvesse duas, Judite, ui, aí era magnífico, porque as crianças iam lucrar. Não é por terem menos atividades que têm menos rendimento escolar. Às vezes, é exatamente o contrário.
Como é que os pais podem desacelerar o ritmo do final do dia, quando as tarefas do cotidiano parecem inevitáveis?
Judite, se calhar não podem, porque no final do dia há todo um comboio de compromissos que se atropelam uns aos outros. A mim já me deixaria muito contente que o final do dia não tivesse trabalhos de casa, porque sejamos razoáveis, as escolas sabem, porque os professores também têm filhos. As escolas sabem perfeitamente o que é o final do dia para qualquer família e, portanto, nessas circunstâncias, é quase um bocadinho bizarro imaginarmos que as crianças cheguem ao final do dia e estejam absolutamente disponíveis para fazer todos os trabalhos de casa, que às vezes os professores de diversas disciplinas entendem pedir ao mesmo tempo. E, portanto, desacelerar começa por não haver trabalhos de casa. Não faz sentido nenhum. Não faz sentido andar a fazer trabalhos à pressa entre o banho e o jantar. A relação custo-benefício desse lado mecânico não tem pés nem cabeça e, portanto, logo aí, por favor, já estaríamos a poupar as crianças, estaríamos a poupar os pais de toda aquela aflição que passa por se gerir a vida familiar Enfim, num curtinho espaço de tempo em que tudo acontece. Eu achava ótimo. Também gostava muito que as atividades desportivas não acabassem às 8:00 p.m. ou às vezes às 9:30 p.m., como acontece. E eu gosto que eles tenham compromissos com as atividades desportivas, eu digo as atividades desportivas, porque é aí que estes horários fogem do que é razoável. Percebo perfeitamente que os pavilhões ou os campos nem sempre estão disponíveis quando é necessário, mas é evidente que quem tem este tipo de tarefas ou desportos dos nossos filhos, tem que perceber que a partir das 6:30 p.m., 7:00 p.m., já não há atividades pra ninguém e a mim preocupa-me, porque às vezes às 7:00 p.m. estão a começar as últimas atividades do dia e isso não é de todo razoável.
Quando uma criança de sete anos diz que as férias de verão passaram a voar, estamos perante um sinal da forma como agora as crianças experienciam o tempo?
Mais ou menos. Eu acho que diz sobretudo a noção que elas têm do tempo que lhes falta neste período que vai entre setembro e junho, porque elas têm a noção de que a partir do momento em que entram nesta engrenagem, é uma engrenagem absolutamente glutona, que não dá espaço pra ninguém, não dá espaço pra viver, nem sequer dá espaço pros fins de semana, que é outra das coisas que a mim me preocupa, porque eu gosto que eles tenham compromissos sociais. Mas tem que ter conta, peso e medida, porque senão entre os compromissos desportivos ao final da semana, mais as festas de um ou dois amigos, e às vezes são duas. São sete dias por semana, em que eles não gozam a casa, não gozam os brinquedos, não gozam o estar por ali, fazer um bolo com a mãe ou com o pai, preparar um lanche, o que seja. E portanto, eles têm a noção que a partir de setembro a vida é de uma agitação muito grande. Ora, uma vida muito agitada pra crianças de sete, eu já nem falo dos oito, dos nove, dos 13, dos 15, dos 16, é um absurdo completo. E portanto, jovens tecnocratas com sete anos a terem uma vida maluca de agitação, eu gostava que os pais tivessem a noção que não há como serem agitados, terem mais agitação em cima deles quando nós lhes exigimos resultados e a seguir dizermos: "Pronto, agora quando chegares à aula, vê lá se estás atento", como se o cansaço e o medo de falhar não fossem, só por si, que estamos a fazer as contas pelo mínimo, fatores que lhes trazem uma enorme turbulência e portanto não podem acontecer.
E há cada vez mais crianças com ansiedade.
Claro que sim, porque a ansiedade das crianças é responsabilidade nossa. Peço desculpa, mas é responsabilidade nossa. E nós pomos uma pressão absurda sobre eles. Os nossos filhos podem errar, podem se engasgar, não têm que ter sempre notas magníficas. As mães neste país não têm que estudar com as crianças. Podem estar ali a cheirar os trabalhos de casa ou tirar uma dúvida ou outra, mas eu conheço mães que estudam previamente as matérias pra que depois deem os resumos aos filhos. É bondade de mães, mas o benefício que isso traz é nenhum. Só os prejudica. E portanto, eu gostava que os pais percebessem que a escola não é o mais importante na vida dos filhos. O mais importante é serem crianças. A escola é muito importante, mas cuidado. Ainda recentemente falámos dos resultados do PISA e é muito importante que os pais não percam de vista que esta correria pateta, que faz com que depois os nossos filhos, no final do dia, tenham uns minutos pra estarem agarrados aos ecrãs, o que é que lhes traz? Traz prejuízos tais que nós, em vez de termos uma geração a andar pra frente, temos uma geração a andar pra trás, com os pais mais dedicados que a humanidade já produziu. Isto faz sentido? Claro que não.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.