C&A vai desacelerar investimentos em 2027, mas manterá expansão até 2030, diz CEO
O plano de expansão da C&A para 2030, que agrada o mercado, vai precisar de alguns ajustes no percurso no próximo ano. A varejista pretende ser mais seletiva nos investimentos em 2027, diante dos juros elevados e do comprometimento da renda das famílias, e já discute com o conselho uma revisão no número de lojas previstas para o próximo ano. A meta inicial era abrir entre 10 e 15 unidades, mas a companhia não descarta reduzir esse número. A ambição de chegar a 60 a 80 novas lojas até 2030, porém, permanece inalterada.
"Se está chovendo um pouco mais, com uma taxa de juros mais alta, talvez a companhia diminua um pouco a velocidade do carro, mas a direção continua a mesma. Estamos indo para esse mesmo lugar e, até abrir o sol, vamos começar a acelerar um pouco mais", afirmou à EXAME Paulo Correa, CEO da C&A.
De acordo com o executivo, a mudança não representa uma revisão da estratégia de crescimento, mas uma adaptação ao cenário econômico. Com o custo de capital mais elevado, a empresa pretende elevar a exigência de retorno para aprovar investimentos, dando preferência aos projetos com resultados mais rápidos.
"Primeiro, talvez seja necessário diminuir um pouco o ritmo dos investimentos. Isso não significa parar tudo. Vamos reduzir um pouco o ritmo. A régua fica mais alta. Assim, os investimentos que conseguem trazer um retorno mais rápido ganham prioridade em relação àqueles que talvez tenham um retorno mais longo ou mais duvidoso", disse.
A preservação de caixa também ganhou peso nas decisões da companhia. A possibilidade de retomar programas de recompra de ações e ampliar a distribuição de proventos continua no radar, mas não é a prioridade neste momento. A C&A encerrou um programa de recompra de quase 10 milhões de ações e, segundo Correa, avalia novas alternativas de remuneração aos acionistas.
"De fato, a prioridade máxima é preservar caixa. Enquanto o cenário macroeconômico não ficar um pouco mais claro, vamos ter um olhar mais conservador para o assunto do caixa antes de abrir caminhos de investimento".
O discurso de cautela vem depois de um terceiro trimestre de desempenho misto, mas aprovado pelo mercado com a maior alta do Ibovespa nesta quinta-feira, 5, ao subir 9,25%.
No balanço divulgado na noite da véspera, a receita líquida consolidada da C&A cresceu 2,3%, para R$ 1,88 bilhão, enquanto as vendas nas mesmas lojas avançaram apenas 1%, bem abaixo dos 8,1% registrados um ano antes. O lucro líquido ajustado caiu 23,3%, para R$ 56,5 milhões, embora tenha superado as estimativas dos analistas.
O lucro líquido reportado, de R$ 170,3 milhões, teve alta de 145%, mas foi beneficiado pelo reconhecimento de R$ 198,5 milhões em créditos tributários de PIS e Cofins. Na operação de vestuário, a margem bruta chegou a 56%, com avanço de 0,6 ponto percentual e a 21ª expansão trimestral consecutiva.
C&A vê melhora no consumo e aposta no quarto trimestre
Apesar das dificuldades do trimestre, Correa afirma que a companhia está mais otimista com o desempenho dos próximos meses. Segundo o CEO, a evolução das vendas foi gradual entre julho e setembro, com uma melhora mais perceptível no último mês do trimestre. Em outubro, a avaliação também foi positiva, mesmo com os efeitos das eleições, em dois turnos, e das chuvas sobre o movimento do comércio.
O executivo também vê sinais de que a restrição às plataformas de apostas pode contribuir para a recuperação do consumo, embora evite atribuir a melhora diretamente ao fim das bets.
“É difícil ter certeza absoluta. Temos pesquisas que mostram, sim, que isso tinha impacto no consumo das famílias. Era um pedaço importante do orçamento. À medida que se proíbe, se restringe a possibilidade de outros tipos de consumo, eu acredito, de alguma maneira, também ajuda", afirmou.
Para Correa, no entanto, a recuperação observada pela empresa tem mais relação com uma mudança na forma como a C&A apresenta seus produtos ao consumidor. Em um cenário de orçamento apertado, o cliente está menos propenso a comprar por impulso e mais atento à qualidade, à durabilidade e à possibilidade de combinar uma mesma peça em diferentes ocasiões.
“Fica menos impulsiva a compra e um pouco mais racional. A percepção de valor fica ainda mais aguda para o consumidor”, disse.
A estratégia da varejista, nesse contexto, é apostar em peças mais versáteis, que possam ser usadas em diferentes situações e que justifiquem o preço cobrado. Correa afirma que essa mudança tem sido um dos principais fatores por trás da recuperação das vendas da companhia.
Para o quarto trimestre, a expectativa é combinar a chegada de novas coleções com a reabertura de 18 lojas que passaram por reformas. As unidades ficaram parcialmente comprometidas durante as obras, o que, segundo a empresa, retirou cerca de um ponto percentual do crescimento das vendas nas mesmas lojas no terceiro trimestre. Sem esse efeito, o indicador teria avançado 2%.
Agora, a expectativa é que essas unidades passem a contribuir positivamente para o desempenho. Segundo Correa, as lojas reformadas registram aumento de visitação e conversão, além de facilitar a jornada de compra e a exposição dos produtos. "Todas as que abrimos até agora têm tido uma resposta de venda muito legal, muito interessante", afirmou.
Black Friday competitiva, mas sem guerra de preços
A expectativa mais positiva para o fim do ano não significa que a C&A esteja ignorando o ambiente promocional mais agressivo esperado para a Black Friday. A companhia reconhece que a data deve trazer pressão para o setor, mas não pretende entrar em uma disputa por volume a qualquer custo.
"Vamos estar competitivos, porém, não a qualquer custo. Faremos uma proposta forte, com percepção de valor do produto alta. Obviamente competitivos, mas não irracionais", disse o CEO.
A estratégia é tentar convencer o consumidor pelo valor das peças, em vez de depender exclusivamente de descontos para impulsionar as vendas. A companhia também pretende aproveitar a chegada das novas coleções e a diferenciação dos produtos para sustentar a demanda durante o período promocional.
A preservação da margem é especialmente relevante depois de a C&A registrar mais um trimestre de expansão da rentabilidade em vestuário. Para Correa, ainda há espaço para avançar, mas os ganhos mais fáceis já foram capturados.
O próximo passo, segundo o CEO, depende principalmente da capacidade de identificar tendências e levar os produtos às lojas mais rapidamente, reduzindo a necessidade de remarcações. A companhia também vem utilizando algoritmos para identificar oportunidades de precificação e ajustar os preços de maneira mais granular.
"Se começa a trabalhar na outra direção, de ter algoritmos que conseguem identificar produtos com alto potencial de ir bem, e consegue fazer isso com muita velocidade, a pressão pela remarcação diminui", afirmou.
A aposta em tecnologia também faz parte do novo ciclo estratégico da C&A, que prevê ampliar o uso de inteligência artificial em decisões sobre sortimento, abastecimento e precificação. A ideia é utilizar dados e algoritmos para definir desde a quantidade de peças produzidas até a distribuição de cada produto entre as lojas, considerando diferenças regionais e o perfil de cada unidade. Para Correa, a construção dessa capacidade interna pode trazer ganhos relevantes de eficiência e rentabilidade no médio e longo prazo.
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