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Sunday, November 1, 2026

Rival da Starlink avança no Brasil e quer levar satélite a 200 milhões de celulares

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Cerca de metade das rodovias federais e estaduais do Brasil e dois terços das terras disponíveis para a agricultura não têm sinal de 4G ou 5G, segundo estimativas citadas pela AST SpaceMobile. É nesse vazio que a americana, rival da Starlink na conexão de satélites direto ao celular, acaba de ganhar terreno no país.

A companhia, listada na Nasdaq, anunciou que recebeu autorização da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para usar 30 MHz de espectro na banda S, uma das principais faixas para a comunicação direta entre satélites e smartphones.

A AST também obteve aval para o uso secundário de até 20 MHz na faixa de 700 MHz. Esse espectro será cedido por quatro operadoras regionais: Brisanet, Unifique, Iez! Telecom e Amazônia 5G. Em paralelo, a empresa constrói quatro estações terrestres no país.

Em comunicado, a AST afirma que o Brasil é um mercado prioritário e que montou equipes locais dedicadas ao país. A ambição é alcançar as mais de 200 milhões de linhas de celular brasileiras, sem que o usuário precise trocar de aparelho, instalar antena ou baixar aplicativo.

Como o satélite vira uma torre de celular

A tecnologia, chamada de Direct-to-Device (D2D), faz o satélite funcionar como uma antena de telefonia no espaço. Para o aparelho, o satélite se comporta como uma torre distante, o que permite mensagens, chamadas de voz, internet e vídeo em smartphones comuns.

Para isso, a AST combina dois tipos de espectro. Na banda S, a autorização da Anatel de 9 de outubro garante à empresa 15+15 MHz nas faixas de 1.995 MHz a 2.010 MHz e de 2.185 MHz a 2.200 MHz: um bloco para o envio de dados e outro para o recebimento.

Na faixa de 700 MHz, usada pelo 4G e presente em praticamente todos os celulares, a AST poderá operar com até 10+10 MHz em caráter secundário, dentro das áreas licenciadas de cada operadora parceira. Segundo a empresa, essa frequência mais baixa amplia a cobertura e melhora o sinal dentro de ambientes fechados.

Essa faixa foi arrematada pelas quatro regionais no leilão da Anatel de 4 de maio, que arrecadou cerca de R$ 23 milhões. A Brisanet levou os lotes do Nordeste e do Centro-Oeste, a Unifique ficou com o do Sul e a Amazônia 5G, com o do Norte e de São Paulo. A Iez! Telecom também arrematou um dos lotes.

Os quatro gateways em construção vão conectar a constelação de satélites BlueBird diretamente ao núcleo das redes das operadoras, levando voz, vídeo e dados entre o espaço e a infraestrutura em solo.

A estrutura local também tem uma função regulatória. Segundo a AST, a arquitetura foi desenhada para garantir que os dados dos usuários brasileiros permaneçam no país, sob a chamada soberania de dados.

Os BlueBird são, de acordo com a empresa, os maiores satélites de comunicação comercial já colocados em órbita baixa. Cada unidade da nova geração tem uma antena de cerca de 223 metros quadrados. Segundo a AST, o tamanho permite cobrir uma área maior com menos satélites.

Vender para a operadora, não para o consumidor

Na conexão direta ao celular, AST e Starlink seguem o mesmo desenho: as duas vendem capacidade de satélite às operadoras, que levam o serviço aos próprios clientes. A diferença está na escala da Starlink, que já domina a banda larga fixa por satélite no país.

“Estamos reunindo o espectro, os relacionamentos com operadoras e a infraestrutura terrestre para entregar uma terceira camada de conectividade em todo o Brasil”, afirmou Abel Avellan, fundador, presidente do conselho e CEO da AST SpaceMobile, em comunicado.

A estratégia se apoia em parcerias. A AST soma mais de 60 operadoras parceiras no mundo, que juntas atendem mais de 3 bilhões de assinantes, e afirma ter mais de 3.900 patentes registradas ou pendentes.

Em 2025, a empresa registrou receita de US$ 70,9 milhões. Ela diz ter mais de US$ 1,2 bilhão em compromissos de receita já contratados com parceiros.

No Brasil, o movimento das regionais veio a público na sexta-feira, 23. Nesse dia, Brisanet, Unifique e Iez! Telecom divulgaram fato relevante sobre o acordo comercial. Pelo desenho, as operadoras cedem o espectro e conectam suas redes aos gateways da AST.

Para as regionais, o satélite resolve um problema concreto. Os lotes de 700 MHz vieram com obrigações de cobertura em cidades com menos de 30 mil habitantes e em rodovias. A Anatel estima que a faixa beneficie mais de 864 localidades e cerca de 6,5 mil quilômetros de estradas federais.

A Amazônia 5G entrou na lista de parceiras com o anúncio desta semana. A operadora está em processo de venda de controle para a Unifique, operação que depende de aprovação da Anatel.

A disputa com a Starlink pela banda S

A banda S virou o principal campo de batalha regulatório do satélite no celular no Brasil. Em maio, a Anatel autorizou a constelação de 248 satélites da AST no país. Na mesma decisão, limitou a empresa a um bloco de 10+10 MHz e dividiu a faixa em três blocos desse tamanho, com no máximo um por empresa.

A Starlink, que pedia 30+30 MHz, o equivalente a toda a banda S disponível para esse uso, contestou a divisão. Em 9 de outubro, a Anatel concedeu 15+15 MHz à empresa de Elon Musk e, na mesma votação, ampliou a faixa da AST.

Segundo a AST, a decisão separa as frequências de cada provedor de satélite e garante acesso equitativo à banda S. Pelos termos da autorização, uma parte de 5+5 MHz vale até junho de 2029 e o restante, até setembro de 2039, de acordo com o Tele.Síntese.

No varejo, a Starlink tem como parceira a Vivo, que lançou nesta semana o Vivo Satélite. A Anatel estendeu até abril de 2029 o prazo de testes da tecnologia pela operadora.

O que muda para o usuário

A AST não vai definir preços nem planos. Segundo a empresa, cada operadora decidirá se o satélite entra nos planos atuais ou se será cobrado à parte, e os valores serão divulgados pelas parceiras à medida que o serviço chegar ao mercado.

Também não há data de lançamento. O início do serviço depende da conclusão dos gateways e da integração com as redes das operadoras, e o cronograma será definido em conjunto com as parceiras. A oferta vale tanto para smartphones quanto para aplicações de internet das coisas (IoT), como sensores no campo.

A cobertura também depende de quantos satélites a AST consegue colocar em órbita. A empresa tem 13 BlueBird no espaço, após o lançamento de três unidades em 5 de agosto, a bordo de um foguete Falcon 9, da SpaceX, dona da própria Starlink.

A meta inicial era chegar a 45 a 60 satélites até o fim de 2026, mas o cronograma foi adiado. A companhia agora mira cerca de 45 unidades no início de 2027 e 243 até o fim de 2028. Em abril, o BlueBird 7 foi perdido depois de ser colocado em órbita mais baixa que a planejada pelo foguete New Glenn, da Blue Origin.

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