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Tuesday, September 15, 2026

A chuva não chega. É preciso que a paisagem saiba guardar a

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Em 2017 escrevi um artigo sobre a relação entre monoculturas florestais e bacias hidrográficas. Na altura procurei explicar uma ideia relativamente simples: a água que alimenta uma nascente ou mantém uma ribeira durante o Verão não aparece por acaso. Depende da chuva, naturalmente, mas depende também da forma como o território recebe, infiltra, armazena e liberta essa água.

Nove anos depois, esta questão parece-me ainda mais importante. Falamos muito de seca, de barragens, de precipitação e de disponibilidade de água. Falamos bastante menos sobre aquilo que acontece entre o momento em que uma gota de chuva toca no solo e o momento em que essa água abandona uma bacia hidrográfica.

E é precisamente aí que se decide uma parte importante da nossa segurança hídrica.

Uma bacia hidrográfica pode ser entendida como uma enorme superfície de captação. A topografia determina para onde a água se desloca. As cumeadas separam bacias e sub-bacias; as encostas conduzem a água; os vales concentram-na; os solos determinam quanto infiltra e quanto escorre; a vegetação interfere na velocidade desse movimento e na capacidade do sistema para conservar humidade.

Por isso, duas paisagens sujeitas exactamente ao mesmo episódio de chuva podem responder de formas completamente diferentes.

Numa paisagem com solo degradado, compactado ou descoberto, pouca matéria orgânica e reduzida complexidade vegetal, uma parte importante da precipitação pode transformar-se rapidamente em escoamento superficial. A água ganha velocidade, concentra-se nas zonas mais baixas, transporta partículas de solo, aumenta a erosão e abandona rapidamente o território.

Choveu. Mas isso não significa necessariamente que o território tenha ficado significativamente mais hidratado.

Numa paisagem funcional, o processo é diferente. A vegetação intercepta parte da precipitação. A manta morta protege o solo do impacto directo das gotas. As raízes contribuem para a estrutura e porosidade do solo. A matéria orgânica favorece a retenção de água. A rugosidade da superfície reduz a velocidade do escoamento. A água permanece mais tempo no sistema e uma maior proporção tem oportunidade de infiltrar.

É aqui que o solo se torna decisivo.

Um solo vivo depende da quantidade, qualidade e continuidade dos materiais orgânicos que recebe. Folhas, ramos, raízes mortas, excrementos e outros resíduos biológicos entram num processo contínuo de decomposição através da actividade de fungos, bactérias, invertebrados e inúmeros outros organismos. É deste processo que resulta uma parte importante da fertilidade e da estrutura física do solo.

Quanto melhor estruturado estiver esse solo, maior tende a ser a sua capacidade de receber água em vez de simplesmente a deixar passar pela superfície.

Isto ajuda a explicar por que razão uma floresta não pode ser reduzida a uma contagem de árvores.

Uma floresta funcional é um sistema ecológico complexo. Tem árvores, mas tem também arbustos, herbáceas, fungos, microrganismos, fauna, raízes a diferentes profundidades, matéria orgânica em decomposição e diferentes estratos de vegetação. Tem ciclos de nutrientes e relações ecológicas que não existem da mesma forma numa plantação homogénea destinada essencialmente à produção.

Uma monocultura de árvores pode cumprir uma função económica perfeitamente legítima. Pode produzir madeira, pasta de papel, biomassa ou outros recursos. O problema começa quando confundimos essa função produtiva com a totalidade das funções de um ecossistema florestal.

Não são a mesma coisa.

O problema também não se resolve através de uma discussão simplista entre eucalipto e espécies autóctones. O eucalipto tem características fisiológicas e produtivas próprias e pode apresentar consumos elevados de água em determinadas condições, sobretudo quando associado a elevada densidade e produtividade. Mas reduzir a degradação hidrológica portuguesa a uma única espécie seria tecnicamente pobre.

Uma monocultura de pinheiro pode igualmente produzir uma paisagem simplificada. Uma plantação demasiado densa de qualquer espécie pode aumentar competição por água. Um montado sobrepastoreado pode apresentar solos degradados. Uma floresta autóctone mal gerida também pode perder funcionalidade.

A questão fundamental não é apenas que árvores temos.

É que sistema temos.

Qual é a diversidade estrutural? Como está o solo? Existe regeneração? Há cobertura permanente? Como circula a água? Qual é a densidade vegetal adequada à disponibilidade hídrica local? Existem diferentes estratos? Há continuidade ecológica? Que relação existe entre a vegetação, a topografia e a rede hidrográfica?

Estas perguntas tornam-se particularmente importantes quando passamos da propriedade individual para a escala da bacia hidrográfica.

Uma nascente não começa no ponto onde vemos a água sair da terra. O seu funcionamento depende de uma área de alimentação que pode estar centenas de metros ou vários quilómetros acima. Da mesma forma, uma ribeira não depende apenas da chuva que cai directamente sobre o seu leito. Depende da água que toda a sua bacia consegue receber, infiltrar, armazenar e devolver progressivamente ao sistema.

É por isso que uma bacia degradada pode comportar-se de uma forma aparentemente contraditória: ter demasiada água quando chove e demasiado pouca água quando deixa de chover.

No Inverno, a água chega rapidamente às linhas de drenagem. Os caudais sobem depressa, aumenta a erosão e cresce o risco de cheia. Pouco tempo depois da chuva terminar, o sistema perde rapidamente essa água.

No Verão, encontramos o resultado inverso: solos secos, nascentes enfraquecidas, linhas de água intermitentes e vegetação submetida a maior stress hídrico.

Não são necessariamente dois problemas diferentes. Muitas vezes são duas manifestações do mesmo problema: a incapacidade da paisagem para abrandar, infiltrar e armazenar água.

É por isso que no planeamento regenerativo começamos pela leitura da água.

Antes de decidir onde plantar, é necessário compreender a topografia, delimitar bacias e sub-bacias, identificar cumeadas, vales, linhas de drenagem e zonas de acumulação. Perceber onde existe erosão e onde existe capacidade de infiltração. Só depois faz sentido decidir onde devem ficar acessos, estruturas de retenção, áreas produtivas, sistemas agroflorestais ou zonas de conservação.

A sequência interessa porque a água condiciona tudo o que vem depois. A água é precisamente o elemento territorial de menor reversibilidade e um dos primeiros a ser resolvido; os acessos, usos e infraestruturas têm de se adaptar à realidade hidrológica e não o contrário.

O princípio operacional é simples: reter primeiro, infiltrar depois e conduzir apenas quando necessário. A água em movimento deve perder velocidade e ganhar tempo de contacto com o solo.

Não significa tentar guardar toda a chuva numa charca ou construir barragens por todo o território. Significa trabalhar a bacia como um sistema.

Pode significar recuperar galerias ripícolas. Restaurar solos. Aumentar matéria orgânica. Manter cobertura vegetal. Redesenhar acessos que actualmente funcionam como canais de drenagem. Recuperar pequenas estruturas tradicionais de retenção. Criar charcas ou bacias de infiltração onde a topografia e a geologia o permitem. Utilizar sistemas agroflorestais. Recuperar mosaicos produtivos. Aplicar Keyline onde existe enquadramento adequado.

São intervenções diferentes para cumprir uma função comum: abrandar o ciclo da água dentro da paisagem.

Esta discussão tornou-se particularmente urgente porque as alterações climáticas não actuam sobre um território neutro. Actuam sobre aquilo que construímos, plantámos, abandonámos e degradámos durante décadas.

Uma paisagem com solos pobres, pouca capacidade de infiltração, linhas de água degradadas e grandes extensões homogéneas de vegetação entra numa onda de calor em condições muito diferentes de uma paisagem com solos cobertos, sistemas radiculares diversos, galerias ripícolas funcionais e água distribuída pelo território.

Essa diferença também interessa quando falamos de incêndios.

A água armazenada no solo influencia o estado hídrico da vegetação. A vegetação influencia o microclima. A estrutura da paisagem influencia a continuidade do combustível. As linhas de água e os corredores ripícolas podem funcionar como zonas de maior humidade. A agricultura e a pastorícia podem introduzir mosaicos e descontinuidades.

Água, floresta, agricultura, solo e fogo não são departamentos separados da paisagem.

São partes do mesmo sistema.

É precisamente por isso que precisamos de começar a pensar para além dos limites das propriedades e até dos próprios concelhos. A água não conhece artigos matriciais nem fronteiras administrativas. Move-se de acordo com a gravidade e a topografia.

A unidade física mais coerente para compreender esse movimento é a bacia hidrográfica. É nela que conseguimos perceber de onde vem a água, onde acelera, onde se concentra, onde infiltra, onde se perde e onde uma intervenção pode produzir efeitos a jusante. Esta é também a escala que permite integrar água, solos, biodiversidade, agricultura, floresta, povoações e economia numa única leitura territorial.

Em 2017 escrevi que a água podia ser «semeada e plantada». Continuo a gostar da imagem, mas hoje explicá-la-ia de forma mais precisa.

Não criamos água.

Criamos condições para que a água que recebemos permaneça mais tempo connosco.

Podemos aumentar a capacidade do solo para a receber. Podemos reduzir a velocidade a que abandona uma encosta. Podemos recuperar vegetação capaz de proteger o solo. Podemos armazená-la temporariamente. Podemos favorecer a infiltração. Podemos permitir que uma parte dessa água reapareça lentamente, mais tarde e mais abaixo, através de nascentes e linhas de água.

Isso é gestão hídrica da paisagem.

E talvez uma das perguntas mais importantes que Portugal tenha de fazer nos próximos anos não seja apenas quanto vai chover.

É quanto dessa chuva conseguiremos guardar no território depois de ela cair.

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