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Friday, September 11, 2026

“Se fosse Montenegro, já teria demitido Neves”

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Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco Miguel Costa Matos, ex-líder da Juventude Socialista, deputado e dirigente do PS e presidente do novo think tank Instituto Progresso. Bem-vindo a esta Vixi Suave.

Obrigado pelo convite.

Temos que começar pelo tema da semana. À boleia do caso Luís Neves, o Chega apresentou esta semana uma moção de censura, o Partido Socialista decidiu abster-se, mas acabou por ficar pouco clara a posição do partido. Luís Neves tem ou não condições para continuar no cargo?

Eu penso que Luís Neves deixou muito a desejar nas suas explicações. Isso é, desde logo, uma conclusão importante: não desvalorizarmos uma cultura de informalidade em que parece que os fins justificam os meios. Depois, para além disto, eu diria que há um problema do ponto de vista da gestão do governo. Não só um governo que, de facto, está sem rumo e que não está a responder a um conjunto de desafios, e nós, como partido de oposição, temos levantado essas questões, mas eu diria que a própria autoridade do governo e do ministro saem muito fragilizadas. E nesse sentido, eu se fosse Luís Montenegro, já teria demitido Luís Neves.

Ainda assim, o PS absteve-se na moção de censura do Chega e ao mesmo tempo tem pedido a Luís Montenegro para se distanciar de André Ventura, até coloca essa condição como parte das negociações para o Orçamento do Estado. Não teria sido mais claro votar contra e distanciar-se da iniciativa do Chega? Pergunto-lhe isto porque foi a primeira vez que o Partido Socialista não votou contra uma moção de censura apresentada pelo Chega.

Eu penso que se nós votássemos contra, logo teríamos alguém, jornalista ou outro partido, a dizer que nós estávamos a ser demasiado brandos com o governo e temos tido pessoas que confundem a nossa postura de responsabilidade em relação ao orçamento, em relação a algumas matérias desse gênero, como estando, de alguma forma, a permitir que o governo faça a sua política. Mas o PS tem sido muito determinado a combater várias iniciativas do governo e o pacote laboral é um exemplo disso, embora não o único. E portanto, eu penso que a abstenção do PS sinaliza isso mesmo. Nós estamos em grande desacordo, estamos em combate a este governo, temos uma alternativa a este governo, mas não alinhamos na utilização de um instrumento que é desproporcional, que não faz sentido derrubar um governo por causa de um ministro que perdeu, de facto, a autoridade e um primeiro-ministro que é incapaz de desenterrar a cabeça da areia.

Falou em comentadores e que poderiam dizer no dia seguinte que a abstenção, que um voto contra era errado. Agora, a questão é que mesmo dentro do Partido Socialista e dentro da direção socialista, há pessoas que consideram que podia ter sido esse o sentido do voto do PS. A minha questão é se devia existir uma linha vermelha em relação a iniciativas do Chega, uma coisa já definida à partida em que o PS não aprovava iniciativas do Chega.

Nós no passado já tentamos esta estratégia do chamado cordão sanitário, que aliás existe, por exemplo, na Alemanha. E o que nós podemos perceber ao olhar para os diferentes exemplos pela Europa é que o cordão sanitário não contém o crescimento da extrema-direita, mas a colaboração com a extrema-direita, nomeadamente por partidos de centro-direita, também não o contém. Haver também uma imitação com um bocadinho de populismo de esquerda, como alguns gostam de dizer, da extrema-direita, ou pelo menos do seu tom ou de algumas preocupações, nenhuma destas diferentes táticas funciona. Só há uma saída para nós conseguirmos combater a extrema-direita. E isso vê-se, por exemplo, nalgumas partes dos Estados Unidos, mas sobretudo mais recentemente, em Inglaterra, com Andy Burnham. A solução é nós darmos às pessoas respostas, porque enquanto André Ventura culpa o outro, enquanto André Ventura puxa pelo ressentimento, nós precisamos ser capazes de dar às pessoas uma esperança credível. E isso implica que quando elas olham para as instituições que construímos ao longo destes anos, o Serviço Nacional de Saúde, a própria democracia, encontram muitas frustrações. E veem os políticos só dizerem: "É preciso defender a democracia, é preciso defender o Estado social." Não chega. É preciso novas ideias para responder às frustrações presentes e para responder aos desafios do futuro.

Mas Miguel Costa Matos, essa é uma resposta que acaba por levar tempo a conseguir e a pôr em prática no terreno para as pessoas perceberem. Nos intervalos, o PS vai votando a favor de cerca de um terço de iniciativas vindas do Chega no Parlamento. Isto não é estranho para um partido que, como recordou, já defendeu um cordão sanitário e que agora continua a querer fazer esse distanciamento face a André Ventura e ao Chega.

Se nós tivéssemos uma solução tática para conseguir limitar o crescimento da extrema-direita, então seria muito fácil de adotá-la. O que nós temos que compreender é que não podemos deixar que a extrema-direita, através do nosso guião de votações, possa criar notícias, possa criar alarido, possa criar confusão em relação ao posicionamento do Partido Socialista.

O vosso posicionamento é só tática, não é uma coisa que tem a ver com convicções profundas.

Não, o que eu lhe estou a dizer é: não faz sentido adotar um posicionamento tático de chumbar tudo do Chega, independentemente de nós concordarmos mais ou concordarmos menos. Por vezes, eles apresentam iniciativas muito semelhantes àquelas que nós próprios estamos a apresentar. O que eu estou a dizer é que nós, em vez da tática, devemos utilizar uma análise sobre a substância das medidas, porque é isso que também evita que o Chega possa instrumentalizar as nossas votações contra nós junto dos eleitores.

Precisamente isso, porque André Ventura aproveitou o encerramento do debate sobre a moção de censura para anunciar duas propostas: a redução do ISP e a redução do IVA sobre o cabaz alimentar. O PS defende exatamente o mesmo, tem propostas neste sentido e já até as levou a votação. Como é que o partido Vai gerir esta questão nestas propostas concretas? Vai alinhar com o Chega por serem propostas que vão no mesmo sentido as do Partido Socialista?

Com responsabilidade. Repare, é evidente, nós iremos ainda avaliar as propostas que o Chega vai apresentar e ao momento em concreto. Mas aquilo que tem sido a nossa regra é: perante propostas que têm impacto orçamental, nós fazemos uma de duas coisas, ou recomendamos ao governo e tentamos que haja espaço orçamental para elas serem executadas, ou apresentamos uma medida, uma condição, que faça com que esse custo orçamental dessa medida seja devidamente comportável. Por exemplo, nós dissemos que se houvesse, de facto, mais dinheiro na Segurança Social do que estava previsto pelo governo, que se deveria refletir num aumento permanente das pensões. Nós dissemos que se houvesse mais dinheiro do que estava previsto em termos de execução do ISP, que deveria reverter numa descida do IVA sobre os alimentos essenciais. Portanto, isto é uma maneira de não abdicar das nossas propostas, mas também não cair na armadilha do Chega de, através da Assembleia, governarmos sem qualquer tipo de olhar para o impacto disso em termos da despesa e da receita.

Agora, por exemplo, já houve medidas que foram tomadas pelo governo e há estas medidas que o PS propõe, por via de um projeto de resolução, portanto, uma recomendação ao governo. Há cabimento orçamental para isso ainda este ano, apesar destas medidas do governo já tomadas, por que o PS insiste nisso, se há essa responsabilidade também pelo equilíbrio das contas públicas?

O governo não tem sido transparente em relação às suas contas públicas. Nós ainda recentemente denunciamos que o IGCP divulgou aos investidores um aumento de quatro mil milhões de euros do déficit. No entanto, o governo continua a dizer cá para fora que não há nenhuma alteração na meta do déficit. O governo diz para Bruxelas, para cumprir as regras orçamentais, que aumentou os impostos, mas aqui perante a Assembleia da República, diz que não aumentou os impostos. E, portanto, perante esta confusão, que me parece deliberada, exatamente também para evitar que os portugueses possam perceber quais são as alternativas, nós temos que ter cautela na forma como nós apresentamos as nossas propostas.

Mas desconfia que há mais dinheiro nos cofres do Estado do que o governo tem dito que há.

Se não houvesse mais dinheiro, o governo não teria agora anunciado uma descida do IRS e um suplemento nas pensões.

Mas esta margem era precisamente aquela que o PS também dizia que havia para outras medidas, só que o governo pretendeu aplicar nessas. A minha questão é se há mais margem para além desta que o governo já usou.

A análise que fazemos aponta-nos para haver margem para fazer duas medidas que nós achamos essenciais para combater a crise do ponto de vista do custo de vida. Voltarmos ao IVA zero, que os estudos do Banco de Portugal demonstram que teve uma eficácia de 75% na redução do preço. E em segundo lugar, baixarmos o ISP num montante equivalente a baixar o IVA de 23 para 13%. Espanha fez isto. E há tantos portugueses que vão atravessar a fronteira para poderem ter combustíveis mais baratos. Nós fizemos isto em 2022, num governo do PS, é certo, mas para combater uma crise de inflação semelhante. Não se compreende porque é que um governo mais desafogado em termos orçamentais não toma a mesma decisão ou uma decisão correspondente.

Então, voltando aqui um bocadinho atrás e partindo do princípio que o Chega apresenta mesmo estas duas propostas, como foi prometido, como é que o PS justificaria um eventual voto contra? Não ficaria um bocadinho ferido na sua credibilidade?

Não, a nossa credibilidade seria ferida se nós aprovássemos propostas que têm um impacto orçamental significativo, sem termos a certeza de que ou existe margem orçamental para serem aplicadas, ou existe uma medida compensatória para que elas não ponham em perigo as contas públicas. Nós sabemos o que é que acontece quando as contas públicas estão em perigo. E nós temos visto os mercados financeiros com os juros das dívidas a subirem. O que acontece é que as primeiras pessoas a serem cortadas são as mais vulneráveis. As primeiras coisas a serem cortadas são os serviços públicos, que hoje em dia já estão bastante frágeis. Já há demasiada classe média a desistir dos serviços públicos. Nós não podemos colocar o país nessa condição. E, portanto, nós não vamos alinhar numa onda irresponsável de agora aprovar medidas porque o Chega as propõe ou porque seja qual partido as propõe. Nós vamos apresentar as nossas medidas, ora como projeto de resolução, ora com medidas compensatórias, ora se o governo disser claramente qual é a margem orçamental. E se os portugueses, de facto, concordam conosco que há necessidade de haver mais medidas, então temos a necessidade também de exigir ao governo essa transparência que ele invulgarmente está a negar à Assembleia.

O que está em cima da mesa, pelo menos pelo que sabemos até agora, é um projeto de lei do Chega. Portanto, nesse caso específico, o PS votaria contra.

O que está, na verdade, na mesa e está agendado é um projeto de resolução do Partido Socialista com várias medidas de combate ao custo de vida.

Certo, mas foi aquilo que André Ventura anunciou. Se isso se colocar em prática, o PS terá de escolher votar nesse projeto de lei, não é?

Eu apresentei aquilo que são os nossos princípios. Naturalmente, o sentido de voto concreto, isso anunciaremos num momento oportuno.

Mais tarde. No final de março, por altura do Congresso do PS, defendeu que o partido não podia esperar pelo desgaste do adversário e devia ter uma postura forte na relação com o governo, devia dar-se ao respeito. Palavras suas na altura. José Luís Carneiro tem seguido o seu conselho?

Olha, eu acho que sim. Eu acho que nós temos visto, de facto, que perante um governo de tal maneira ziguezagueante, de tal maneira pouco fiável na sua relação com os partidos, José Luís Carneiro tem percebido a necessidade de ser mais contundente com o governo e também de apresentar as suas propostas de forma mais clara aos portugueses. Ele tem sido muito próximo do terreno e eu penso que estes próximos meses serão momentos em que nós continuaremos essa proximidade, mas sobretudo em que nós iremos apresentar Novas propostas e alternativa. E como eu escrevi justamente em março, nós temos que apresentar propostas não é ao governo, é ao país. Nós temos que apresentar propostas porque achamos que elas são boas, não porque achamos que elas possam ser negociáveis com o governo nestas circunstâncias. Nós não somos candidatos a parceiros de coligação ou de entendimentos com este governo. Somos candidatos a governar o país. Agora, quando somos candidatos a governar o país, temos que dizer duas coisas muito claramente: há várias matérias sobre as quais deve haver entendimentos de regime com o PSD. Aliás, justamente o Instituto Progresso é um espaço onde tem pessoas do PSD, do PS e de vários partidos, porque é fundamental que os moderados conversem entre si e encontrem pontos de entendimento. E em segundo lugar, é fundamental que nós não olhemos para quem votou no Chega por desespero, por ressentimento. Não desistamos desse eleitorado. Vamos procurar compreendê-los e mostrar-lhes que há mais esperança e mais soluções deste lado.

José Luís Carneiro deu como praticamente garantida a viabilização do próximo orçamento de Estado. Pelo menos sabemos com grande grau de certeza que é essa a vontade do líder socialista. Sente-se confortável com esta abstenção pré-enunciada? É esta a forma de o partido se dar ao respeito na relação com o governo?

Sim, eu penso que nós definimos condições que não são insignificantes. Eu volto a dizê-las: é haver apoio às vítimas das tempestades do início deste ano, é haver continuidade dos projetos de investimento do PRR, é haver um compromisso de não alterar o sistema de pensões e, em quarto lugar, não alinhar exclusivamente com o Chega na revisão constitucional e, portanto, evitar esse cenário que penso eu todos pensamos ser dantesco, de agora, através de uma maioria entre PSD e Chega, a nossa Constituição mudar completamente de figurino e deitar fora o conjunto de direitos e de estabilidade que ao longo destes 50 anos construímos.

Apesar de tudo, deixe-me interrompê-lo. Abandona uma lógica que existia antes com a anterior liderança de tentar condicionar efetivamente a governação do dia a dia com medidas concretas, falou da questão do apoio às vítimas da tempestade Cristina, mas para lá de tudo isso, existe uma realidade, existe um país, existem desafios que se colocam no presente. O que me está a dizer é que o Partido Socialista não quer entrar nessa negociação direta e ficará confortável com essas quatro grandes prioridades que definiu.

O PS não vai entrar num jogo político através do qual será corresponsabilizado pelo orçamento do Estado e por seguramente a maneira como ele vai ficar muito curto para os desafios do país. Nós temos que pensar como é que o nosso país pode crescer mais. Luís Montenegro, quando entrou para o governo, dizia que era fácil pôr o país a crescer 3%, 4%. Está com grandes dificuldades em manter o país a crescer 2%. Dizia que era capaz de resolver os problemas do SNS muito rapidamente. No entanto, hoje em dia temos menos cirurgias, menos consultas, mais portugueses sem médicos de família. Portanto, repare, nós não queremos estar aqui a fazer o orçamento com o governo, porque senão nós seríamos obrigados a fazer um conjunto de exigências muito mais significativas, sob pena de podermos ser acusados de: "Mas por que vocês não pediram mais para assegurar que este orçamento era capaz de resolver os problemas do país?" Nós, olhando para as opções do governo, antecipamos que não será capaz de resolver os problemas do país, mas isso é responsabilidade do governo, de governar. Da nossa parte, cabe-nos ser responsáveis e dar estabilidade ao país. Isso implica um conjunto de condições mínimas que nos parecem quase do ponto de vista da decência moral. Não desperdiçarmos os investimentos do PRR, não abandonarmos as vítimas das tempestades é quase uma questão moral.

Falemos do futuro a médio e longo prazo. Olhando para as sondagens, é possível concluir que o Partido Socialista está a crescer nas intenções de voto e que José Luís Carneiro tem conseguido aumentar a popularidade. Perante isto, deve ser dada uma oportunidade a José Luís Carneiro para ser candidato do Partido Socialista nas próximas eleições legislativas? Não há aqui o risco de acontecer a José Luís Carneiro o mesmo que aconteceu a António José Seguro?

José Luís Carneiro tem essa oportunidade e um partido, naturalmente, não é uma única pessoa, não é só o seu líder e penso que todos nós temos de nos empenhar em conseguir apresentar novas propostas, em conseguir unir e apresentar os melhores quadros que o Partido Socialista tem e unir as diferentes pluralidades que contêm dentro do Partido Socialista e, para além disso, ser capaz de mobilizar a sociedade.

É uma resposta muito defensiva. José Luís Carneiro deve ou não ser candidato do PS nas próximas eleições legislativas?

Eu penso que tem todas as condições para poder ser. Naturalmente, teremos um congresso até lá, mas eu quero contribuir para que nós possamos ter as melhores propostas políticas e a maior unidade no nosso partido para enfrentar e vencer as próximas eleições legislativas.

Está à frente do novo think tank da esquerda, que diz ser apartidário, mas não só tem vários dirigentes, deputados e ex-governantes do Partido Socialista como signatários, como também tem potenciais desafiadores do atual líder lá incluídos. É o caso de Duarte Cordeiro, por exemplo. Como pode garantir que isto, afinal, não é um tubo de ensaio para uma futura liderança do Partido Socialista?

Olha, seguramente um tubo de ensaio para novas ideias. Repare que um partido político, quando apresenta uma ideia perante o eleitorado, compromete-se de certa forma com ela. Isso impede-nos de podermos pensar fora da caixa, de podermos arriscar. E de facto, nós perante os desafios que o país enfrenta, perante a incapacidade de arranjarmos soluções, porque os diferentes partidos já tentaram diferentes soluções para a crise da habitação e para o SNS, mas não arranjam uma solução que funcione. E por isso nós pensámos, de facto, que podemos sair fora do que é a dimensão partidária, juntar pessoas de diferentes partidos, juntar pessoas, sobretudo, sem partido. Também estar fora deste calendário da bolha parlamentar e podermos apresentar novas soluções e sobretudo experimentá-las. Nós queremos ir ao encontro do que são as melhores práticas lá fora e poder fazer experiências-piloto, fazer uma espécie de laboratório com empresas, autarquias e IPSS para perceber: ok, esta ideia funciona Ou não funciona. Se não funcionar, abandonamo-lo. Se percebemos que ela pode ser afinada de uma determinada forma pra funcionar melhor, então vamos aprender com esse processo para que quando algum governo, seja do PS ou de qualquer outro partido, PSD, o que for, possa implementar esta ideia melhor.

Acha que isso vai ser possível com uma bolsa tão marcada de pessoas do Partido Socialista? Porque é a esmagadora maioria.

Não, eu diria que a maioria é de independentes, mas nós não tememos nada que haja muitas pessoas do PS e mal seria que num espaço progressista.

Exatamente, há independentes, mas os independentes vieram do gabinete do governo do Partido Socialista.

E isto desqualifica as pessoas?

Não é desqualificar, mas há uma ligação direta e daí a minha questão: acha que é possível haver esse aproveitamento do que vem de lá por outros partidos?

Esse é o nosso compromisso e é naquilo na qual nós estamos empenhados. E posso lhe dizer que todos os dias estamos a falar com pessoas que não têm uma ligação política nem atual nem em passado, no sentido de desenvolver e acolher as suas ideias. E, por exemplo, posso partilhar convosco que nós esta semana aceitamos e convidamos, e foi aceito, o convite a Bernardo Pires de Lima, que é um intelectual muito reconhecido, investigador na área dos assuntos europeus, das relações internacionais, para dirigir na parte do nosso instituto a dimensão da Europa e mundo. E portanto, ele é apenas um exemplo de várias pessoas, nomes desde o centro-direita até à esquerda, que nós estamos a recrutar.

Quando se fala de esquerda, nomeadamente no universo do Partido Socialista, há uma figura que salta à vista, que é Pedro Nuno Santos, que foi ex-líder do partido e é sempre referido como da ala mais à esquerda e até uma espécie de líder dessa frente. Não está entre os subscritores do movimento. Foi porque não quis ou não foi abordado nesse sentido? Ele é demasiado à esquerda pra entrar num movimento destes?

Não, ninguém está, à partida, excluído de juntar-se a um movimento destes, mas eu não perco tempo a discutir nomes, sinceramente, e acho que nós devemos olhar para o think tank como uma oportunidade de trazer novas pessoas pro futuro da sociedade portuguesa, da política portuguesa. E naturalmente, temos respeito e queremos ouvir e contar com as pessoas que fizeram parte do seu presente e do seu passado, mas tá na hora de chamar novas pessoas pra política.

Chamou a ele ou não?

Eu já conversei com Pedro Nuno Santos sobre esta ideia e, aliás, foi enquanto Pedro Nuno Santos era líder do Partido Socialista que começamos a trabalhar nesta ideia e ele, penso, posso dizer que gostou bastante da ideia, tal como José Luís Carneiro, tal como o atual e ex-líder do Livre. E portanto, nós queremos contar com o máximo de pessoas como apoiantes desta iniciativa, porque ela pretende, sobretudo, isto: a renovação das ideias neste grande espaço progressista da nossa sociedade.

Miguel Costa Matos, vamos avançar com o segundo segmento do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe. Só pode escolher uma de duas opções. Venha daí a trilha. Esta é difícil. A quem é que pedia mais facilmente uma noite de babysitting para o seu filho recém-nascido: José Luís Carneiro ou Duarte Cordeiro?

Eu sou amigo do Duarte há 15 anos, portanto, apesar de gostar muito de trabalhar com o José Luís Carneiro também, é natural que tenha mais proximidade com o Duarte.

Com quem é que dividia mais facilmente um prato de caracóis: André Ventura ou Luís Montenegro?

Com o André Ventura eu não pretendo partilhar absolutamente nada, portanto, será um gosto partilhar esse prato de caracóis com Luís Montenegro e digo-lhe mais, falarmos um bocadinho do Instituto de Progresso e como o governo dele poderá aproveitar algumas das nossas ideias.

E quem gostaria mais de ter a subscrever o manifesto do Instituto de Progresso: Pedro Nuno Santos ou António Costa?

Bom, penso que os dois serão muitíssimo bem-vindos.

Não escolhe.

Olha, eu trabalhei com António Costa. Eu sou, de facto, alguém que olha pra António Costa como uma pessoa que transformou o nosso país. Nós estávamos a crescer 0,2% ao ano, passamos a crescer mais de 2%. Nós viramos a página da austeridade e provamos que era possível pro nosso país fazer um conjunto de coisas que antes não sonhávamos fazer. E, portanto, posso lhe dizer que eu convidarei sempre que possível António Costa pras iniciativas do Instituto de Progresso e tenho uma grande esperança no papel que ele ainda pode prestar na Europa e, naturalmente, no espaço do progressismo a nível internacional.

Falou do virar da página da austeridade e uma última questão: ao lado de quem gostaria de fazer campanha nas próximas presidenciais? É um cenário difícil de acontecer, mas gostávamos de saber a sua resposta. Ao lado de António José Seguro, atual presidente da República, ou de Mário Centeno?

Bom, António José Seguro será desejavelmente recandidato a presidente da República, teve a maior votação que já houve registro nessas eleições.

Pode haver uma candidatura alternativa do espaço socialista. Se António José Seguro não estiver a fazer um bom trabalho, porventura.

Eu tenho a confiança que António José Seguro fará um bom trabalho. Eu gosto muito, sou também amigo, trabalhei com Mário Centeno, vai em breve lançar um livro que acho que será muito interessante e seguramente é um nome que dará cartas ainda na política portuguesa, mas penso que estamos bem entregues em belém a António José Seguro.

Muito bem, Miguel Costa Matos, como é hábito no nosso programa, o convidado serve uma sobremesa, no caso uma música. Que música é que nos traz e por quê?

O Que Será, de Chico Buarque, porque nós vemos no Brasil e em outras partes do mundo fantasmas antigos a levantarem-se, mas também porque, como nos diz a música, há, de facto, a necessidade de termos esperança e de perguntar o que será e de fazer diferente. E, portanto, vamos a isso. O que será está nas nossas mãos. Chico Buarque, obrigado por dar voz à esperança.

E é uma excelente música, sim, senhor. Miguel Costa Matos, muito obrigado por ter vindo a esta Vixi Suave.

Obrigado eu.

Os nossos ouvintes já sabem, podem ouvir esta entrevista nas plataformas habituais ou lê-la na íntegra no site do Observador. Até à próxima.

Que juram os profetas embriagados. Está na romaria dos mutilados. Está na fantasia dos infelizes. Está no dia a dia das meretrizes. No plano dos bandidos, dos desvalidos. Em todos os sentidos, será que será? O que não tem decência, nem nunca terá. O que não tem censura, nem nunca terá. O que não faz sentido. O que será, que será? Que todos os avisos não vão evitar? Porque todos os risos vão desafiar? Porque todos os sinos irão repicar? Porque todos os hinos irão consagrar? E todos os meninos vão desembestar. E todos os destinos irão se encontrar. E mesmo o padre eterno, que nunca foi lá, olhando aquele inferno, vai abençoar. O que não tem governo, nem nunca terá. O que não tem vergonha, nem nunca terá. O que não tem juízo. O que será, que será? Que todos os avisos não vão evitar? Porque todos os risos vão desafiar? Porque todos os sinos irão repicar? Porque todos os hinos irão consagrar? E todos os meninos vão desembestar. E todos os destinos irão se encontrar. E mesmo o padre eterno, que nunca foi lá, olhando aquele inferno, vai abençoar. O que não tem governo, nem nunca terá. O que não tem vergonha, nem nunca terá. O que não tem juízo.

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