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Monday, October 26, 2026

Sobre não arranjar casa e gostar de odiar

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Olá, sejam muito bem-vindos a mais um episódio de "Terapia de Casal", o podcast comigo, Guilherme Fonseca, e com a minha querida mulher, Rita da Nova.

Ai! Arrotou. É bom saber que quando tu dizes "minha mulher, Rita da Nova", é essa reação que eu provoco no teu corpo.

Eu não sei se se ouviu ou não, mas veio mesmo um arroto gigante. É o que dá começar a falar. Estava tão bem caladinho.

Era o que as pessoas estavam a pensar, por acaso.

E com a minha mulher, Rita da Nova, pessoa que esta semana disse o seguinte: leva as mãos à cabeça, suspira e por ter de sair de casa, diz o seguinte: "Opá, mas aquilo é tardíssimo!" E era às 21h30.

É o seguinte, eu acho que nós devíamos todos coletivamente-- olá, estão bons? Tudo bem? Pronto.

Diz olá.

Eu acho que nós coletivamente devíamos todos concordar que coisas a começarem às 21h30 nunca começam às 21h30. Começam às 22h.

Mas o que nós fomos ver ontem, que eu já vou falar.

Está bem.

Eu já vou falar.

Mas começa sempre mais para as 22h.

Começou era 21h40. Foram 10 minutos de desfasamento entre a hora que estava no bilhete e a hora que começou.

Já é mais perto das 22h.

É mais perto.

Mas já é mais perto das 22h do que das 21h.

Está bem. Sem dúvida.

A partir do momento em que passa ali o meio, para mim já está mais perto das 22h.

Ok.

E não sei. Não pode começar um bocadinho mais cedo? 21h. As pessoas jantam às 20h, está bom.

Eu, por acaso, acho que disse até aqui neste podcast, eu gostava muito que a minha tour, os espetáculos fossem às 19h.

Durante a semana é mais difícil.

Não é. Desculpa, mas não é. Das 19h às 21h dava perfeitamente, as pessoas saíam de lá e iam comer uma sopinha ou iam a um restaurante qualquer.

Durante a semana eu acredito que começar coisas às 19h é mais difícil, mas a um sábado?

Pois.

Deixem-me ir para a cama a horas.

Mas ainda por cima, sabes o que é pernicioso no meio disto tudo? E sim, eu disse pernicioso. É que tu, hoje, a noite que nós acabamos de dormir, porque nós estamos a gravar isto, como de costume, de pijama, ao domingo de manhã, dormiste mais uma hora.

E que é?

Tu já ias dormir mais uma hora. A hora que tu achas-

Desculpa lá.

A hora que ouve a mais no espetáculo, tu ganhaste a dormir.

Desculpa lá, isso é a mesma lógica do não vou fazer agora a cama porque daqui a bocado vou desfazer. Se eu estou cansada naquele momento, não me interessa se eu dali a umas horas vou dormir mais uma hora. Interessa-me que naquele momento eu estou cheia de sono e quero ir naquele momento para a cama.

Pois é, para mim é impressionante. 21h30 é tarde para ti.

É tardíssimo.

Nós no dia 21 de novembro temos uma festa que acaba às 2h30 da manhã.

Sim, mas eu estou mentalmente preparada para uma festa que acaba às 2h30 da manhã.

O Amena Cavaqueira acaba às 2h30 da manhã. Tu vais ficar lá até ao fim ou não?

Vou ficar lá até ao fim. Num cantinho a dormir, mas vou.

Vais fazer uma conchada dentro da Casa do Capitão.

Não, vou ficar lá. Obviamente, já estou aí, estou mentalizada.

Vou te dizer uma coisa, nós à tarde vamos fazer um episódio de "Terapia de Casal" ao vivo. E para mim está tranquilo, porque há de ser ali é uma horinha, vamos estar sentados a conversar, as pessoas pagam um bilhetinho e vêm.

Já temos uma ideia muito gira do que vamos fazer.

Temos uma ideia muito gira do que é que queremos fazer no Amena Cavaqueira como episódio de "Terapia de Casal" ao vivo.

Um episódio exclusivo, que depois não vem para aqui.

Não vem para lado nenhum.

Para lado nenhum.

Só acontece lá.

Só quem está lá é que vai viver.

Exatamente, só quem está cá dentro é que sabe 24/7. Agora, à noite, depois quando começa os DJ sets já não é uma hora de Rita da Nova. Tu já não estás pronta para isso.

Mas estou. Nós quando pusemos música no mock, eu portei-me bem. E estava lá e estava acordada.

Estavas acordada. Agora, se estavas a fazer alguma coisa.

Fogo, a escolha musical foi toda minha. Roubaste músicas minhas. Eu é que dizia: "Está esta, agora passa aquela". Lá porque tu estiveste lá.

Sabes o que é que tu és?

O quê?

Tu és a pessoa que vai no lugar do morto no carro a dizer: "É aqui à direita". E estás a dizer que tu é que estás a conduzir o carro.

Sem um copiloto, o que é um piloto? Não é? É só um piloto.

É um piloto.

Sem um copiloto, o que é um piloto?

Mas nós estávamos a falar do que fomos ver ontem. Ontem, sábado à noite. Fomos a uma coisa que eu adorei.

É o mesmo tipo de coisa. Eu também gostei muito, mas é o mesmo tipo de coisa Guilherme Fonseca. É mesmo os teus olhinhos a brilhar, ele a sorrir com esse sorrisinho contido. Ainda estás hoje, que eu já não te consigo pôr a sorrir desta forma.

Eu adorei. Nós fomos ver uma coisa chamada "Debatível", que é um formato de debates de estilo Oxford, em que é vendido um tema. O tema que nós fomos ver ontem é: todo o discurso de ódio deve ser crime.

Pergunta.

Pergunta. E depois há o moderador, excelente, chamava-se João Marecos, se não estou em erro. Acho que é este o nome dele. E depois, havia duas pessoas que eram a favor de todo o discurso de ódio ser crime e duas pessoas contra todo o discurso de ódio ser crime. As duas pessoas a favor eram a Alexandra Leitão, do PS e ex-candidata à Câmara Municipal de Lisboa, e o João Maria Jonet, de direita e comentador na televisão, na Sic Notícias, se não estou em erro. E contra era Andreia Galvão, deputada do Bloco de Esquerda, e o Francisco Teixeira da Mota, que é provavelmente o maior defensor de liberdade de expressão em Portugal até à data, penso eu. Acho que não há um maior a defender mais gente de liberdade de expressão em tribunal. E portanto, eles fazem sete minutos cada um de apresentação no início, no meio respondem a perguntas uns dos outros e do público, mas não chegaram às do público, não deu. E depois no fim, fazem um closing statement de três minutos. E o que o "Debatível" faz? Aquilo é muito giro. O "Debatível" faz a diferença entre Quando tu entras na sala, qual é a tua opinião, e quando tu sais da sala, mesmo no fim do debate, como é que é a tua opinião?

Tu votas inicialmente numa aplicação, qual é que tu achas que é a resposta certa para ti, e depois no final, consoante os argumentos de um lado ou de outro, tu votas.

Tu mudas a tua opinião ou não, podes manter a tua opinião. Eu mantive a minha opinião.

Eu mudei.

A Rita mudou a opinião dela.

Eu mudei. O senhor Francisco Teixeira da Mota ganhou-me quando disse: "Então, mas já não se pode odiar em paz?"

"Ah, então, mas eu agora não posso odiar? Um indivíduo não pode odiar. Eu tenho direito a odiar."

E eu: "Olhe, os outros com o código não sei o quê, o Código Penal e nananã."

"Ah, o artigo 240 da Constituição."

E eu: "Este senhor realmente tem um ponto. Este senhor realmente está a dizer uma coisa que é muito correta."

E foi excelente, porque depois no fim, uma pessoa vota outra vez para saber se o debate mudou ou não a tua opinião, e o lado que tiver ganho mais votos, para o lado que mexer a votação, é o lado que ganha. Não é necessariamente o lado que tem mais votos, é o lado que conquistou mais votos. Por isso tu começaste com zero e acabaste com 8%, ganhaste tu.

Exato.

Tu conquistaste 8% ao outro lado. Eu adorei aquela merda. Eu gostava de ser intelectualmente desenvolvido e inteligente o suficiente para ir a uma coisa daquelas.

Sabes o que eu vi a brilhar em ti? Os olhos Ramsey. O Ramsey evangelista.

O avô foi deputado.

Foi, porque óbvio que o teu avô foi deputado e óbvio que tu estavas a pensar: "Que pena que no meu colégio, quando eu era Betinho e andava lá no colégio."

Se a minha escola tivesse tido isto...

Claro, óbvio.

Vou-te dizer uma coisa, se a minha escola tivesse tido isto, eu não fazia mais nada.

Claro. Era discutir com pessoas sobre temas.

Eu ia ser insuportável.

Ias ser insuportável. Tu não viste "Gilmore Girls", mas tu ias ser a Rory, que é absolutamente insuportável.

Obrigado por me chamares uma coisa que eu não sei o que é, senhor deputado, depois terei que ver, é uma referência que eu não tenho. Mas fica aqui o conselho. "Debatível" é como se chama o conceito, é como se chama o espetáculo. Eu vou dizer espetáculo, quando aquilo, na verdade, não é bem espetáculo. Mas pronto, o programa que vocês podem fazer. Vai haver mais duas datas, vai haver um no Porto sobre...

Se a inteligência artificial nos vai roubar o trabalho ou não.

Exatamente, a pergunta é: a inteligência artificial vai nos roubar o trabalho? E depois vai haver um em Lisboa, em dezembro, se eu não estou em erro, que é: deve Portugal ter centrais nucleares? São estes os dois temas.

A partir daqui digo que não, que eu não quero que isto rebente tudo.

Mas sabes que é super seguro e é uma fonte de energia muito maior. Eu sou a favor de nós termos centrais nucleares.

Pronto, estás a ver? Eu normalmente vou pelo instinto. "Eu acho que não, eu acho que sim." O Guilherme diz: "Sabia!" A pôr os óculos no sítio. "Desculpe, mas sabia que é uma energia muito segura e que Portugal devia ter centrais nucleares."

Sabes por que as pessoas não querem? Por causa de Fukushima e por causa do medo de... como é que se chama a série? "Chernóbyl", não sei o quê. Mas é que isso já avançou muito mais.

Eu já estou toda lixadinha, não preciso de um Chernobyl. Já tenho as costas todas tortas.

Não queres um terceiro braço?

Não tenho as costas todas tortas já.

Eu sou a favor de termos todos um terceiro braço.

Um terceiro braço.

Dá imenso jeito.

Dava jeito, de facto. Devem todos os seres humanos terem terceiro braço.

Exatamente. Fomos ver o "Debatível", que gostei muito.

Foi muito divertido. E fizemos um jantarinho antes, estivemos a ler no café. Fomos uma tarde de intelectuais.

Por acaso foi muito intelectual. Olha que nós, sentados no Capitólio, à espera que o debatível começasse, a ler os nossos livrinhos, nós somos a epítome do performative males and females.

Male reading.

É inacreditável.

É inacreditável, de facto.

O nojo que nós metemos armados em intelectuais.

É uma chatice.

Tu até foste uma tota, acho eu.

Não fui, não. Deixei tudo no carro.

Ah, era demasiado.

Era demasiado. Levei só o livrinho debaixo do braço, que eu acho que é pior.

Sim.

Ainda no outro dia estava uma amiga nossa a dizer que viu um rapaz num concerto com um calhamaço debaixo do braço.

Num concerto?

Tu não foste ler isso para o concerto. Levar um cobo para um concerto...

Até percebo.

Eu entendo. Já li em concertos quando o concerto está para começar, já li com o cobo. Agora, levar um calhamaço de 500 páginas ou 600 debaixo do braço para um concerto, só se for para te sentares em cima e estares à espera que comece a primeira parte e segunda parte.

Não, é para veres o palco.

Olha.

É para ganhares um degrauzinho.

Ganhas um degrauzinho.

Eu às vezes em concertos sou em bico dos pés.

Só se for isso. Já a Márcia tinha a teoria de que tu devias, por causa disso não conseguiste ver, as pessoas deviam ser postas na sala por altura que está no cartão de cidadão.

Concordo 100%.

Eu também concordo.

Da frente para trás.

Da frente para trás.

Tens dois metros, vais lá para trás.

Esta é a fila das pessoas com 1,40 m. 1,40 m, 1,45 m fica aqui.

As pessoas em breve vão conhecer essa nossa amiga Márcia.

É verdade, vão conhecer. Quer dizer, as pessoas já conhecem a nossa amiga Márcia, eu acho, mas vão conhecer aqui no "Terapia de Casal".

Exatamente.

Não se esqueçam disso, sim.

E ela também vai estar no "Amena Cavacara", mas chega de falar do "Amena Cavacara".

Com o seu podcast "Corte e Costura", mas comprem bilhetes para o "Amena Cavacara", já agora.

Queria falar duas coisas, queria falar dois temas.

Fala duas coisas, fala dois temas.

Houve uma mudança nesta semana.

Já vou ser... o quê? É a hora?

Não, está tudo calmo. Está muito defensiva a senhora.

É a hora?

Ninguém está a atacar, isto é um debate, isto não é um confronto. Tudo o que eu vou dizer é contigo. Ok? Houve duas grandes mudanças esta semana. Uma dentro da nossa casa, outra em Portugal.

Ok.

A de dentro da nossa casa foi eu acabei a minha tour, acabei o Amigável. E queria agradecer às pessoas todas que compraram bilhete, que foram ver, que se divertiram, que estiveram presentes, que mandaram mensagens, compraram bilhete, principalmente. Eu fico muito contente e queria agradecer a toda a gente, porque na terça-feira gravei o solo, foi uma noite muito divertida. E fiquei muito contente com a tour no geral e queria agradecer às pessoas de "Terapia de Casal", que compraram bilhete e arrastaram namorados, etc. E foram ver o meu espetáculo.

Queria também dizer àquela pessoa que deixou de nos ouvir porque tu estavas sempre a promover os teus espetáculos e porque eu era insuportável, mas isso não vai deixar de ser. Isso, infelizmente, olha, vai continuar.

Mas essa pessoa pode voltar.

Essa pessoa pode voltar. Senhora, pode voltar.

Já não estou a pedir bilhetes.

O Guilherme já não está a pedir bilhetes. Eu continuo insuportável, mas se conseguir ignorar essa parte, está tudo bem.

Ya. Pode voltar. Eu acho que entretanto já não está cá, já foi. Ou se calhar continua e está a ouvir.

Está a ouvir.

Está lá no fundo.

Está a ouvir, mas não está.

Pode vir aqui para a frente, já ninguém está a falar de bilhetes. Compre para o "Amena Cavacara". E então, o que eu ia dizer? Mas chegou o frio.

Graças a Deus.

Sabes o que é engraçado? Não vou transformar isto num conversa de elevador. Chegou o frio, de facto. É giro ver as mudanças de dinâmicas dentro da casa assim que vem o frio, porque passámos de uma altura de calor para uma altura de frio. Esta casa agora está outra vez roupões, mantas, etc.

Que sonho.

E os gatos mudaram completamente os hábitos. Nós mudámos completamente os hábitos. É muito giro ver que baixa 4°.

E nós estamos modo-

Nós somos mesmo um bicho reativo. Baixa 4° e os hábitos cá de casa trocaram completamente.

Eu acho que nós devíamos viver sempre com esta temperatura que temos agora.

Isto é muito frio.

Não, isto não é muito frio, Guilherme. Estás de t-shirt à minha frente.

Não, está bem, mas estou com frio.

Isto não é muito frio.

Mas estou com frio. Não é muito frio. Acho que ainda estamos dentro do ameno.

Isto é perfeito para mim. Eu acho que tu não tens noção do que se apodera do meu corpo, da excitação que se apodera do meu corpo, quando eu acordo e está solinho, mas frio.

Ya.

Está uma brisa fria.

Solinho, mas frio é mesmo o sweet spot, não é?

Amo. Ontem, durante o dia todo, eu fui fazer um workshop sobre identidade de género e linguagem inclusiva, por causa do Clube das Melhores Escritoras, não interessa para aqui.

Eu vou explicar. A Rita foi flagrada por crime de ódio, ela disse umas coisas sobre trans e então ela foi condenada a ter que fazer um workshop.

O senhor Francisco Teixeira da Mota disse que eu podia odiar à vontade. Estou a brincar. Depois o tribunal obrigou-me a fazer um workshop.

Estamos a brincar, obviamente. Mas foste fazer um workshop.

Fui fazer esse workshop. E fomos almoçar a meio do dia, como é normal. Saímos da livraria onde estávamos a fazer o workshop e tenho de vestir o casaco, mas está muito sol a vir para cima de mim e está quentinho na minha cara.

É aquele calorzinho na cara de "estou bem de casaco, mas está-me a saber bem este sol".

Completamente.

No fundo, é sol de inverno. Tu gostas de sol de inverno.

Isto para mim é o tempo perfeito. Sabes que os ingleses têm aquela ideia da crisp day? Crisp é isto.

Ya. Porque nós não somos os dois pessoas de verão.

Eu acho que me estou a tornar mais.

Eu gosto muito de piscina, de churrascadas, de copos com amigos. Mas eu acho que não sou de praia.

Eu estou-me a tornar cada vez mais de praia.

Ya.

Mas muito calor faço muito mal. Passo muito pior com o calor do que com o frio.

Pois, eu percebo.

Pronto, aqui estamos. Estou muito feliz com a chegada deste tempo. Sou uma pessoa de outono, sou uma pessoa de inverno, o que é que se há de fazer?

Ya. Queria só falar de mais um tema antes de nós avançarmos, porque dividiu o nosso grupo de amigos quando nós falámos disso, que é: estás num restaurante. Isto é um cenário que eu estou a pôr às pessoas que nos estão a ouvir. E eu acho que este tema é divisivo, pelos vistos. Estás num restaurante. Vais à casa de banho. Levas ou não levas o telefone?

Apesar de eu ter sido a pessoa que não levou e que motivou a conversa sobre isso.

Exatamente.

Eu normalmente levo, porque uma vez fiquei presa numa casa de banho no Linha d'Água. Sabes onde é o Linha d'Água?

Ao pé do Parque Eduardo VII.

Ao pé do Parque Eduardo VII. Fiquei lá presa na casa de banho e depois tive de começar a bater muito na porta para me deixarem sair.

Mas quantas vezes é que acontece às pessoas ficarem presas em casas de banho, que levam o telefone por causa disso? Nunca me aconteceu ficar preso numa casa de banho.

Nunca te aconteceu?

Não.

Pronto, sorte para ti. O Anderson uma vez ficou preso na casa de banho da CP.

Do comboio.

Do comboio da CP. E mesmo tendo o telemóvel não se safou, porque ele não tinha a quem ligar.

Como é que se liga para um comboio? Um comboio não tem número.

Se calhar tem, deve ter um telefone interno.

Interno, mas não dá para ligar. Queria ligar para o Alfa de Silva agora para Coimbra, não dá.

Exato.

Mas eu acho que é engraçado, porque há pessoas que de facto quando vão à casa de banho, deixam o telefone na mesa. E eu acho que isto são pessoas superiores, são pessoas avançadas, são pessoas 2.0, são pessoas que não precisam de levar o telefone para ir à casa de banho. E depois há pessoas como eu, que levam o telefone normalmente quando vão à casa de banho, mas eu vou te explicar porque é que eu levo. Porque normalmente quando estás no jantar, eu evito ir ao telefone. Ou estamos a falar de qualquer coisa do telefone, ou estamos a escrever qualquer coisa. Já nos aconteceu duas vezes esta semana. Nós estamos em restaurantes e estamos a escrever qualquer coisa que precisamos de adiantar e eu estou no telefone. Mas tu quando estás no jantar, tu evitas ir ao telefone. Então, ir à casa de banho é o momento em que tu podes fazer um intervalo na conversa e checar o telefone.

Eu levo só mesmo para não estar perdida, para não estar presa. Mas o quão louco é que a nossa vontade de ir ao telefone signifique que ires à casa de banho é uma pausa numa conversa para veres o que é que tens no telefone.

Não é veres o que é que tens no telefone, é ver se aconteceu alguma coisa grave ou importante.

Mas não há de ter acontecido. Se tivesse acontecido alguma coisa grave ou importante, ligavam-te.

Não, mas não é. É ver: "Estávamos aqui a adiantar coisas de trabalho, deixa ver se alguém disse alguma coisa". É só isso. É só um checkup.

Mas repara, não há de ser aquela meia hora ou aquela hora que estás ali com aquelas pessoas. Percebes o que eu quero dizer?

Sem dúvida nenhuma. Lá está, por isso é que eu digo que as pessoas que não levam o telefone são versões avançadas de mim.

Mas é diferente. Há pessoas que levam o telefone por isso, e essas claramente, as pessoas que não levam em comparação com essas, são superiores. Mas há pessoas que levam porque não querem ficar presas na casa de banho.

Pois, eu percebo. O meu ponto é: para mim, é um bocado como quando chegas ao fim de um voo. Aterras no fim de um voo e ligas o telefone e dizes: "Olha, deixa ver o que a malta andou aqui a dizer nos grupos, deixa ver o que aconteceu". É nesse sentido. É: "Olha, vou à casa de banho, deixa-me aproveitar para ir ver o que se passa no telefone". Não é desagradável estar a fazê-lo na cara da outra pessoa.

Mas não achas que não é urgente isso? Que podes ir só fazer o teu xixi e voltar, e depois quando acabar o jantar, quando já não estiveres com aquelas pessoas, podes ir ao teu telefone?

Sem dúvida nenhuma.

Porque a atenção que também estás a dispensar ao que tens ao telefone e a atenção que estás a dispensar à vida que está a acontecer já está dividida.

Pois, numa casa de banho há uma vida interessantíssima.

Não, porque depois se calhar ficas mais tempo na casa de banho porque estás a responder a uma mensagem, ficas a pensar no que é que tinha a mensagem e depois vais voltar a sentar-te com as pessoas e estás lá, mas não estás.

Sim, mas ao menos não é o desagradável de estar a mexer no telefone no jantar.

Eu percebo, mas a tua cabeça não está no sítio. Não está nem num sítio nem no outro.

No outro dia, quando fiz o espetáculo em Faro, do Amigável, fomos jantar a um restaurante. Fomos comer alheira, uma coisa qualquer. E fomos lá jantar e havia imensas mesas onde estava só um senhor a jantar.

Adoro.

Típico algarvio. O senhor acabou o trabalho, agora estou aqui com a minha t-shirt.

Isso é alentejano.

"Não, mas eu consigo fazer sotaque algarvio." Não, não consigo.

Mas tu ainda assim tentas.

E não é sotaque, é pronúncia, o Dário já gritou comigo.

Exatamente.

Mas eu olhei para os telefones dos senhores para pensar: "O que é que estes gajos estão a fazer?" Estão a comer sozinhos num restaurante, sentados, estão com o telefone. Ok, deixa-me ver o que é que estão a fazer. Um estava a jogar um joguinho de tiros, um jogo de telemóvel, enquanto esperava pela comida e o outro estava no ChatGPT a fazer perguntas. E então é isto que a terceira idade no Algarve faz nos restaurantes enquanto espera pela comida.

Olha, já não estarem a ver vídeos do André Ventura é muita sorte.

Não, mas isso porque já sabem de cor.

Exato, é muita sorte não estarem a ver vídeos do André Ventura.

E eu achei graça, um estava no ChatGPT, eu não conseguia ler as perguntas. Adorava. Eu digo-te uma coisa: adorava. E o outro estava a jogar um jogo, é um soldadinho que andava de lá para outro. Não sei que jogo era, mas ele estava lá a fazer a sua guinada, não sabemos bem.

A dar os seus tiros.

Mas acho que é um tema interessante, porque há mesmo uma divisão grande nas pessoas de: estás no jantar, vais à casa de banho, levas o telefone ou não levas o telefone. As pessoas que quiserem podem responder aqui nos comentários se levam o telefone ou não.

E se levam, por quê? Qual é o motivo que faz com que levem?

O meu motivo é aproveitar e vou ver no telefone o que é que se passa.

Haverias um dia de levar, levavas o telefone para ver o que é que se passa.

E caía na sanita.

Não. Ficavas preso, mas não tinhas rede. Adorava.

Espera, é isso que tu achas que é o pior que pode acontecer?

Adorava.

É que o teu ar de "tu merecias".

Num restaurante com música bué alta, que ninguém vai ouvir que tu estás a bater na porta.

Ok.

E mais ninguém vai à casa de banho durante duas horas.

Genuinamente, acontece assim-

Eu já fiquei presa numa casa de banho.

Mas acontece assim tanto? As pessoas estão a levar o telefone com medo de ficarem presas, é uma cena?

Será que isto é uma cena de mulheres?

Ficaram presas em casas de banho?

Não, terem medo de ficarem presas.

Não, isso sem dúvida. Eu não conheço nenhum gajo que leve o telefone que tenha medo de ficar. Até porque nós vamos a um urinol e depois saímos, não é?

Tu não vais ao urinol, não sejas mentiroso.

Não estou a mentir, as pessoas sabem perfeitamente que eu tenho bexiga tímida e eu vou fazer xixi nas sanitas.

Nas sanitas.

Xixi nas sanitas. Mas não é normal nós ficarmos presos. Não conheço ninguém.

Conheces-me a mim!

Não, de gajos, estamos a falar de homens e mulheres. Não era esse o tema. As mulheres é que têm medo.

Se calhar as mulheres têm medo. O medo está no nosso ADN. É verdade, o medo está no nosso ADN. Nós quando acordamos de manhã, temos uma série de coisas em que pensamos e que sentimos, que vocês nunca vão sentir na vida, nem nunca vão pensar.

Sem dúvida nenhuma. É o medo e é o falar, porque a menina ontem atrás de nós no debatível começou a falar.

Porra, com caraças, não se calava. Eu estava a tentar ler e eu às tantas estava tipo: "É pá, tu és insuportável, ninguém do teu grupo de amigos te está a ouvir."

Ela falou durante 15 minutos seguidos. Ninguém respondeu, só faziam: "Uhum, pois, exato." Ela falou, falou.

Meu Deus!

Tivemos isso ao monólogo. Sabes o que é que aconteceu? Ao vivo, ela mandou um voice note.

Meu Deus. Por falar em voice notes, quero falar de uma coisa.

Dá-lhe. Sendo que 22 minutos.

Está bem. Quero falar de uma coisa muito rápida. Não sei se vai ser muito rápida, mas o senhor Teixeira da Mota disse que eu podia odiar e eu vou odiar.

Dá-lhe.

Que é: video notes.

Sabes que eu apontei esta frase. Queres saber como é que eu apontei esta frase?

Quero.

Nós além de estarmos unidos na saúde e na doença, também estamos unidos no ódio aos video notes.

Não é. Bola de borracha. Há raros momentos em que uma pessoa enviar uma video note faz sentido. Para mim, faz sentido tu mandas uma video note a alguém.

Acho que por isso saí, me tive uma tontura.

Olha, pronto, vai morrer. Vou mandar uma video note. Para mim, faz sentido tu mandas uma video note quando queres mostrar alguma coisa que está a acontecer. Certo?

Ok.

"Olha, estou aqui na loja, vi esta coisa, é isto que tu queres?" Ou: "Estou aqui nas compras, é este o iogurte que nós levamos ou não é este?" E mesmo assim podia-se

Podia ser uma foto. É este o iogurte.

Mas podia-se questionar, senhor deputado, não faria mais sentido eu enviar um vídeo para a pessoa poder andar para a frente. O que é que é o problema das video notes?

Toca aí no ponto. Rita Nova, toca no ponto. Vou gritar mais alto para os vizinhos ouvirem. Toca no ponto.

Já é o ponto, este?

É este o ponto.

O problema das video notes, que vocês se não sabem, video notes são: vocês no WhatsApp podem mandar texto, podem mandar áudio e juntamente com a possibilidade de mandarem o áudio, também já têm a possibilidade de arrastarem a camerazinha para cima e fica uma bolinha.

É como se fosse um áudio de vídeo.

Exatamente.

Ou seja, fica assim redondinho e a vossa cara a dizer coisas.

Aquilo só tem um minuto máximo. E qual é o problema das video notes?

É que não dá para parar.

Não dá para parar.

E não dá para puxar para trás.

Não dá para pôr mais rápido.

E não dá para pôr onde vocês quiserem.

Exatamente.

"Eu já ouvi metade, deixa-me voltar para o meio." Não, tem que ouvir tudo desde o início.

E quando vocês estão a querer responder a coisas que estão a acontecer na video note, para não se esquecerem do que é que querem dizer, ela para

E começa de novo. É uma tecnologia do demo que eu acho que só serve para nós ficarmos com mais ódio e mais raiva. Eu odeio video note.

É rage bait. É rage bait do WhatsApp.

Tu sabes quanta video note nós vamos receber hoje durante o dia?

O Zuckerberg acordou e pensou: "Como é que eu vou irritar mais as pessoas com esta minha cara de anormal?"

Vou propagar a extrema-direita e vou propagar as video notes.

E eu acho que as video notes são piores. Eu acho que as video notes são piores que a extrema-direita. Já disse.

Eu odeio video note. Odeio.

pá.

Eu não consigo perceber. Tu não conseguiste mandar um áudio? Tens mesmo que gravar a tua cara?

É que ainda por cima com o áudio eu consigo pôr em 1,5 ou em dois e estar a ouvir.

Não, e podes selecionar onde é que queres ouvir.

E estar a ouvir e estar a fazer a minha vida.

Olha, tive que parar, mas agora consigo voltar aqui a meio.

Exatamente.

Vou pôr aqui de meio.

pá, não entendo.

Eu também não entendo. Eu acho que é das coisas em que nós concordamos mais na vida.

Ya.

É ódio às video note. Ya, concordo 100%. E eu sabia que tu tinhas essa raivinha aí dentro e eu queria que saísse.

Pronto, já está.

Não estás melhor? Já estás a rir.

Estou melhor.

Não te deu um quentinho como sol de inverno?

Olha, deu-me um quentinho como um sol de inverno e até sou capaz agora de ir à casa de banho sem levar o telemóvel, que é para não ter de ver video note.

Mas aqui em casa também não vais ficar presa.

Vou, fico.

Por acaso houve uma altura em que a porta do teu escritório estava-

Pois. Uma vez a Dina ficou lá trancada. Estávamos nós em viagem.

E não levou o telefone, ao que tudo.

Não levou o telefone. E por isso estragou-me a minha tesoura linda a tentar abrir a porta.

Pois foi, partiu uma tesoura para abrir. Agora também. Então vamos a e-mails.

Vamos a e-mails. Vamos à crise da habitação que faz sentido com o tempo.

Tema quente.

Depois logo vemos. É da Aconchada, chamamos-lhe assim.

Aconchada, exatamente. Atenção que é um e-mail grande, portanto eu acho que é este o e-mail de hoje.

Já se vê.

Vou dizer, é este o e-mail de hoje.

Já se vê. "Olá, caros terapeutas. Em primeiro lugar, quero dizer que adoro o vosso podcast. No ano passado fiquei no top 1% de ouvintes de terapia de casal."

Vamos!

"Já ouvi todos os episódios e já cheguei ao ponto de repeti-los, pois vocês são o melhor conforto que posso ter nos meus ouvidos."

Um grande beijinho para Aconchada.

Aconchada, ninguém merece.

Eu não sei se queres ser a pequena ou a grande, mas eu fazia conchinha contigo de agradecimento.

"O meu dilema é o seguinte: eu e o meu namorado, vou dar-lhe o nome de Joaquim."

Ok, fica Joaquim.

"Joaquim. Estamos juntos há quase três anos."

Ok.

"Ambos temos 23 anos e trabalhos estáveis. Apesar disso, ainda estamos a terminar os nossos cursos. Eu tenho a tese de mestrado por terminar e ele deixou a licenciatura em standby, mas agora pretende terminá-la de vez." Trabalham, estão a estudar ao mesmo tempo. "Quando começámos a namorar, o Joaquim estudava noutra cidade, por isso vivíamos uma relação à distância durante a semana. Era difícil, mas fomos ultrapassando, porque havia uma data de fim para essa situação."

Ok. Havia uma meta, não é?

Exatamente. "Entretanto, o Joaquim não terminou a licenciatura, mas arranjou trabalho na nossa cidade, o que lhe permitiu ficar cá o tempo todo e só ir à universidade para fazer exames."

Parece o hospital, não é? Ele agora só vai à universidade fazer exames.

"O problema é que mesmo com o Joaquim cá, o nosso tempo juntos não aumentou."

Ok.

"Este último ano e meio serviu para começarmos as nossas vidas profissionais, conciliando estudos e horários complicados que não nos deixavam estar muito juntos. Eu trabalhava muitos fins de semana e ele só saía às 9 h do trabalho. Isso já está resolvido. Agora já tenho o meu das 9 h às 17 h, com folgas ao fim de semana, e ele sai do trabalho às 19 h. Mas existe outro problema. Como devem imaginar, ainda moramos com os nossos pais."

Pois claro.

"Tanto eu como o Joaquim temos dinâmicas familiares que não nos permitem estar em casa um do outro quando algum dos pais está lá, que é quase sempre."

Ok.

"Isto faz com que não durmamos juntos nem tenhamos um sítio confortável para estar, a não ser o carro ou algum estabelecimento público. É como se a nossa relação não tivesse casa nem dinheiro para pagar uma renda. A nossa situação deu origem a algumas discussões, pois eu sou o gênero de namorada mais dependente que quer estar todos os dias com ele. O Joaquim muitas vezes quer só descansar e para ele está tudo bem se estivermos vários dias sem nos ver, algo que não consigo compreender, mas que já aceitei. Vamos fazendo pequenas escapadinhas, mas são raras e costumam vir com muita resistência do Joaquim por querer poupar dinheiro. No final de contas, somos pessoas diferentes, com perspectivas diferentes e vamos dando o nosso melhor para chegar a um compromisso bom para os dois. Sempre que temos dias de casa livres ou viagens, fico superfeliz e sinto-me muito bem com a nossa relação. Só que nas alturas em que mal nos vemos, fica muito difícil para mim lidar com a nossa situação. Para mim, já estaríamos à procura de casa juntos, pois temos poupanças e trabalhos consolidados. Para o Joaquim, essa não é a realidade. Por um lado, percebo. Quando penso no custo de vida, também acho que o melhor seria continuar a juntar dinheiro em casa dos pais. Por outro, em casa dos pais paga-se com saúde mental e partilhando as contas, acho que seria possível viver bem. Eu falava muitas vezes sobre arranjarmos casa, sempre acompanhado da minha insatisfação. Como compromisso, no início deste ano combinámos focar-nos em poupar para, em 2027, começarmos à procura de casa."

Muito bem.

"Corta para julho, quando ele me disse que se sentia culpado por me ter prometido isso, porque não se sente preparado para dar esse passo. Foi uma mistura de ele evitar o conflito e de eu colocar demasiada pressão e tudo terminou num grande trambolhão. Foi um ponto de viragem na nossa relação. Percebi que quero estar com ele e que tenho de parar de achar que ele querer descansar e poupar dinheiro são sinónimos de que não gosta de mim. Acredito mesmo que podemos ter uma boa vida juntos, apesar dos meus medos de abandono e dos traumas e traços avoidant dele. Nos últimos meses mudei a minha perspectiva. Comecei a pensar num plano para sair de casa sozinha, mas recebo o salário mínimo e com a crise da habitação, isso parece impossível. A nossa relação está mais estável, mas o problema de não termos casa continua. Sinto que tive de fazer o luto da ideia que tínhamos criado, porque vivermos juntos parece cada vez mais longínquo. Se estamos felizes e queremos passar a vida juntos, não devia sentir que isso está cada vez mais perto. Sinto que sou só uma pequena parte da vida dele, embora saiba que ele me vê como uma grande prioridade. Vivo nesta dualidade. Às vezes parece o amor da vida dele, outras parece que não quer começar a nossa vida a dois. Por favor, ajudem-me a pôr sentido na minha cabeça." "O Joaquim é excelente namorado e sempre me tratou como uma princesa. Começámos a namorar aos 20 anos, mas conhecemo-nos desde o 11º ano, quando éramos colegas de carteira. Ele diz que é obcecado por mim desde aí e os amigos dele confirmam. Sinto que é a minha sorte grande, mas há muitas coisas na relação com que tenho dificuldade em lidar, e esta é a principal. Acham que se ele estivesse com alguém de quem gostasse realmente, já teria dado o passo de se mudar? Sei que defendem que a experiência de morar sozinho é muito importante, mas mesmo que eu arranjasse casa sozinha, o problema de não estarmos juntos não se resolveria, porque os pais dele são muito rígidos e não lhe dão liberdade. Sim, mesmo aos 23 anos. Ele tem deveres de casa que tem de cumprir para não ter problemas e se não jantar em casa, ouve bocas que o fazem sentir muita culpa. No meio disto tudo, sinto que fico em último lugar e não vejo como isto se vai resolver. Se continuar assim, vou ficar insatisfeita e não vamos conseguir estar tranquilos. Acham que o problema está na forma como vejo as coisas? Que é só uma situação complicada e tenho de esperar pelo dia em que ele queira morar comigo? Ou que ele me está a dar falsas esperanças? Ele vai dizendo datas, mas elas mudam e já estou farta de esperar. Tenho muitas dúvidas e poucas respostas. Sei que muitas vezes os problemas estão só na minha cabeça e são ampliados por inseguranças. Ou será que não estão? Quero a vossa opinião sincera enquanto pessoas que não nos conhecem. Peço desculpa pelo e-mail longo. O meu sonho sempre foi escrever-vos e finalmente está a realizar-se. Fico disponível para escrever uma versão mais curta. Adoro os dois, mas admito que sou team Rita. Desculpem por ter de me. Com os melhores cumprimentos, Aconchada."

Muito bem. Há aqui várias coisas a acontecer.

I've got so many things to say.

Eu deixava a parte da crise da habitação para falarmos a seguir, porque eu acho que é uma camada diferente do problema e nós podemos falar a seguir disso, porque muita gente passa pela mesma dificuldade de querer sair de casa dos pais ou arranjar uma casa e não conseguir, porque o valor está apertado. Eu acho que é mais importante falar aqui de uma coisa desta relação, que é: eles estão com velocidades completamente diferentes na relação deles. Ela quer casa em conjunto, construir vida e aquela cena de ela querer estar todos os dias com ele é meio esquisita. Calma, deixa também, às vezes uma pessoa quer estar com os amigos, quer jogar póquer, beber copos, quer só descansar, quer espaço para si. Isso é normal.

É normal.

Isso é normal. E ela própria diz: "Eu quero estar todos os dias".

Não, ela quer poder ir estando com ele ao longo dos dias. Para mim, isso faz-me sentido.

Mas ela pareceu muito mais clingy e falou até do medo de abandono.

Ela própria fala disso.

Sem dúvida nenhuma. E, portanto, eu acho que isso é uma coisa que ela tem que trabalhar e tem que ver do lado dela, porque eu acho que não é porque as pessoas não estão constantemente a dizer que se amam, que não se amam. Calma. Segunda coisa. Este gajo, por problemas familiares, pressões familiares, dinâmicas tóxicas familiares, etc, está claramente muito confortável em casa.

Está.

Ou muito fechado em casa. Este gajo não quer sair da sua dinâmica de casa. De todo. Seja porque sente essa pressão familiar e porque se de facto ele é controlado e criticado por não jantar ou por ter uma vida própria em casa, ele pode sentir essa pressão ou pode só estar confortável com essa pressão. Podem ser as duas coisas. Isto é uma terapia que essa pessoa vai ter que fazer e vai ter que descobrir por si. O que eu acho disto tudo? Acho, querida Aconchada, que de facto tu fizeste muito bem em começar a pensar pela tua própria cabeça. A vossa relação e a vossa dinâmica familiar e a vossa dinâmica pessoal está a ir a velocidades completamente diferentes. E tu puseste o pé no acelerador, arranjaste um emprego, queres uma casa e estás a andar e estás a ver o teu namorado a ficar para trás. Já não estás a ver o teu namorado no lugar do morto, estás a ver o teu namorado no espaço da televisor.

O teu namorado está preso na casa de banho.

O teu namorado está preso na casa de banho, não levou o telefone, muitas vezes não te diz que está lá preso na casa de banho e eu acho que tu estás a perceber que, pausa dramática, estás a crescer mais depressa do que ele e estás a crescer para um sítio onde ele não te está a acompanhar. E isto acontece imenso nas relações, imenso as pessoas crescerem para sítios diferentes e acham que é porque já não gostam daquela pessoa ou aquela pessoa já não gosta de mim e não tem absolutamente nada a ver com isso. É só vocês estão a crescer para sítios diferentes. Tu estás com um nível de maturidade e de independência que ele não tem. Tu estás com uma vontade de criar ninho e família. E quando eu digo família, calma, não estou a falar de casamento e filhos. Estou a dizer criar um núcleo familiar e um ambiente familiar numa casa que ele não tem. Tu queres uma casa tua e queres uma independência e uma vida e uma morada tua e ele está confortável com os pais dele na casa dele.

E acho que o que é importante para a Aconchada levar na cabeça é que ele pode nunca querer.

Não, e ela não pode ficar à espera.

Não, e ela não pode ficar à espera.

Porque o ponto dela é: nós planeámos, ele a meio do ano disse que afinal já não queria e eu agora estou à procura só para mim, mas eu vou esperar por ele, eu tenho esperança.

Minha amiga, segue a tua vida.

Eu sei que isto é duríssimo de ouvir, mas segue a tua vida, porque tu eventualmente vais te transformar numa pessoa que ele pode já nem sequer conhecer ou apaixonar-se.

Não, e vais continuar ressentida e amargurada com o facto de ele não te dar aquilo que tu queres.

Exatamente. E tu não podes pôr a tua vida em pause só porque...

Alguém não está pronto para te acompanhar.

Exatamente. A tua vida continua.

Sim, e há opções além de, falando agora da crise da habitação, há opções além de ou moras com os teus pais ou moras exclusivamente sozinha. Tu podes partilhar casa com outras pessoas. Isso pode ser uma possibilidade.

Há pessoas que não gostam.

Eu sei que não gostam. Certo.

Mas é uma opção, tens toda a razão.

É uma opção e é uma forma, é uma via. É uma maneira de começares a trilhar esse teu caminho da independência. Já não estás a morar com os teus pais, já estás a morar numa casa com outras pessoas. Pode não ser a coisa mais agradável do mundo, mas há muita gente que o faz para dar esses passinhos para a liberdade.

Sem dúvida nenhuma. Mas porque repara, tu olhas para estas duas pessoas e uma fez um plano para poupar, para comprar uma casa, para arranjar uma casa, para poupar durante um ano e não sei quê, tinha esse plano e tinha esse objetivo. E a outra a meio do ano diz: "Não, não estou pronto." Ok. Então tchau.

Então eu vou seguir.

A vida vai continuar para o outro lado. E eu acho que isto é uma das coisas que custa mais às pessoas, a pensarem nisto, que é duríssimo. É duríssimo, porque esta pessoa conheceu o Joaquim, eu disse que ia chamar Quim, no décimo ano e de repente está na faculdade.

Não, já está a trabalhar.

Já está a trabalhar, já acabou a faculdade. É do género: "Esta pessoa é a relação da minha vida. Eu não tive outro homem, ou se calhar tive, mas era mais nova e agora está aqui este homem, é com ele que eu sonho."

E ele é obcecado comigo e eu sou obcecada por ele.

E repara, tudo indica que vocês estão a descolar, mas estão a fazer imensa força, tipo o quadro do Da Vinci, em que Deus e o homem estão a esticar o dedinho para continuar de mão dada. E tu estás a flutuar para a tua vida.

Tu achas que é assim o quadro? Eles estão-se a separar em vez de juntar? Podia ser uma perspectiva tua.

Não é. Se bem que há uma metáfora qualquer com a humanidade de eles estão-se a afastar em vez de se estar a aproximar.

Pois.

Neste estado de extrema-direita e inteligência artificial.

Não, e também, para a humanidade ser criada, o homem separa-se de Deus.

Sim. Mas também é engraçado pensar que nós estamos sempre a uma pequenina distância, mas nunca nos tocamos.

Olha, como nós agora.

Exatamente. Mas esta é a minha visão em relação ao que está a acontecer. Eu acho que ela está a amadurecer e a crescer a uma velocidade que ele não acompanha.

Exatamente.

Ela continua presa na ideia que tem da relação que já teve e que já não tem bem, e que eu acho que é mais importante para ela valorizar-se a ela, o espaço dela, a vida dela e os objetivos dela, e não ficar parada por causa de um homem que daqui a 20 anos ela nem sequer se vai lembrar do nome. Ponto final.

Não sei se não se vai lembrar do nome.

Estou a exagerar porque isto é cómicos. Isto não é um podcast de humor.

Pronto, está bem. Então vamos embora. Terapia de casal podcast@gmail.com é para onde vocês enviam.

Não, fala sobre a crise da habitação, que deixámos para o fim.

O que queres dizer sobre a crise da habitação?

Que não vejo onde é que está a crise da habitação. Há mesmo uma crise de habitação?

Ok.

É difícil para as pessoas arranjarem uma casa. Onde é que isso está? Mostra-me os números. Onde é que estão as dificuldades para arranjar casa?

Terapiadecasalpodcast@gmail.com é para onde vocês podem enviar as vossas questões, como fez a Aconchada e como fizeram tantas outras pessoas que nós não tivemos tempo de chegar lá. Para a semana vamos receber uma convidada para falar sobre-

Já está gravado o episódio. Só temos nós fazer o upload. Está gravado o episódio e foi muito giro.

Vamos receber uma convidada para falar de um tema que eu acho que vai ser muito relacionável com quem nos ouve. E é isto. Comprem bilhetes para o Amena Cavequeira e não mandem video note.

Não mandem video note. Tu lembras quando nós alugámos uma casa aos dois com varanda.

Por €500.

Por €500 no centro de Lisboa, ao lado da Alameda. Lembras-te desses tempos? Bons tempos. Em que isso era possível.

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