A noite sem tendas que virou "aconchada"

Manifestantes votaram pela retirada das tendas e por uma noite ao relento, "em conchinha", para poder pernoitar no Rossio. Cunhava-se uma “aconchada” pela habitação, após diálogo com a polícia.
Há acordo de paz. Depois de um breve diálogo entre manifestantes e polícia, numa das laterais da praça D. Pedro IV, em Lisboa, o protesto sossegou. A incerteza de uma intervenção das autoridades, como a que na segunda-feira levou à desmobilização e à detenção de 55 pessoas, marcou toda a noite e início de madrugada, levando a realização de várias assembleias populares para decidir os próximos passos. Se num primeiro momento os manifestantes acordavam montar as tendas e resistir, mais tarde mudavam o rumo e anunciavam que iam dormir em “conchinha”, ao relento. Cunhava-se uma “aconchada” pela habitação.
O cântico “polícia, alinha, vamos fazer conchinha”, revelar-se ia certeiro. No diálogo, pelas 3h da manhã, o comandante da 1.ª divisão da PSP de Lisboa foi questionado pelos manifestantes sobre se podiam permanecer no Rossio se ficassem deitados no chão, em silêncio, exibindo os cartazes. Iuri Rodrigues deixou uma garantia: “Não vamos incomodar por causa dos cartazes”.
▲ A noite acabou num diálogo entre a PSP e os manifestantes
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
“Se, a partir das 00h30, continuarem a ter comportamentos de manifestação, não o devem fazer. Mantenham a via circulável, para as pessoas passarem, o espaço tem de ser público, não podem criar aqui um complexo privado, só vosso. Isso não pode acontecer”, explicou o comandante.
Informados pelos porta-vozes os manifestantes acataram, depois de um momento inicial de desagrado. Regressaram às esteiras, sacos-cama e mantas em pequenos grupos para aguentar as próximas horas. Alguns conversam em voz baixa, outros dedicam-se ao crochê, ao suduko ou a jogar cartas. “A polícia tem de perceber que isto não é a nossa luta. É de todos”, ouve-se.
“Não é um corta-mato é uma maratona”. Indecisão sobre como reagir numa intervenção policial
Coberta de cartazes e de grafitis, a estátua de D. Pedro IV foi uma testemunha silenciosa de mais um dia de protestos. Os manifestantes foram chegando lentamente pelas 17h. Passaram das dezenas às centenas. Depois de um momento para atividades com skates, numa rampa com a inscrição “resistir”, e da atuação de um coro, ainda com poucos espectadores no local, seguiu-se a partir das 19h a primeira de quatro assembleias.
▲ O protesto abriu com um momento de skates
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O primeiro momento de discussão e votação conjunta, já com uma maior adesão, foi longo, com muitas intervenções. Ninguém conseguiu cumprir os dois minutos pedidos pelo movimento. Antes de passar a palavra aos manifestantes, António Tonga, uma das pessoas que se tem assumido como porta-voz do movimento Acampada de Lisboa, expunha aquele que seria o principal tópico de discussão ao longo da noite e madrugada: passar ou não a noite no Rossio e o que fazer no caso de uma intervenção policial.
Ao megafone passou mais de uma dezena de manifestantes. Uns pediam que as tendas não fossem montadas, para não desperdiçar recursos, e manter a luta mais um dia. “Reorganizar a luta não é recuar”, sublinhou uma jovem, munida de uma mala e esteira. “Não é um corta-mato é uma maratona. E podem ter a certeza que vamos ganhar”, acrescentou outra mulher.
Alguns manifestantes apelavam, por outro lado, a uma permanência continua na praça com a colocação de tendas, para não se arriscar “perder o ritmo”. Uma das intervenções mais polémicas foi a de uma jovem que pediu contenção e que não se promova o ódio. “E o ódio contra nós?”, questionou alguém na multião. Foi apoiada por alguns e vaiada por outros, acabando por afastar-se em lágrimas.
“Com a vossa ajuda, com a vossa solidariedade, conseguimos estar aqui e resistir”.
Momentos depois outra pessoa pegou num dos megafones para gritar: “A policia bate-nos e temos de responder com paz? Não quero dizer para queimar lojas, não sou essa pessoa. Mas podemos fazer medo ao Estado, ao [primeiro-ministro Luís] Montenegro, para ele ter medo de sair à rua”, sublinhou, acrescentando que “não existem manifestações” pacíficas.
Só pelas 21h chega, finalmente, o momento de votação, depois de várias tentativas para perceber quantas pessoas estariam disponíveis para pernoitar na praça “em segurança”. Antes de tomarem uma decisão, fez-se uma primeira contagem. Cerca de 84 pessoas levantaram as mãos em sinal de que queriam aqui permanecer. Num segundo momento o número subiu para 115. Voltaram a erguer-se as mãos e a pernoita foi aprovada com 190 votos a favor e 270 abstenções. Ficou a ressalva de que caberia aos que decidissem ficar no Rossio votar numa assembleia interna sobre como agir se a polícia avançasse com uma operação para os retirar.
Em resposta à vontade popular, numa questão de minutos foram montadas mais de uma dezena de tendas. Ficou também aprovada uma manifestação para sábado, a começar no Marquês de Pombal e a terminar no Rossio.
Uma interrupção pró-Israel e um falso alarme contra o grupo 1143
O pano, nas costas de D. Pedro IV para servir de ecrã improvisado para uma sessão de cinema, foi colocado há várias horas. Mas não resistiu. Enquanto prosseguiam as votações, um manifestante subiu à estátua para escrever: “A polícia fica louca quando a canção cabe na boca” — um ato muito criticado pelos que assistiam. O lençol, preso por fita-cola, teve de ser substituido por outro para ser transmitido o filme “Sabura”, do realizador Falcão Nhaga, presente no Rossio. Mas antes de arrancar a sessão de cinema — com direito a pipocas e chá — a praça D. Pedro IV foi palco de um primeiro momento de tensão.
Por entre as tendas um manifestante pró-Israel, vestido num fato escuro, começou a criticar os protestos. Exibia uma bandeira do estado israelita. O homem foi afastado do centro, entre empurrões e rodeado por câmaras que captavam o momento. No meio da confusão várias tendas foram pisadas e arrastadas.
▲ Um manifestante pró-Israel interrompeu o protesto com críticas e foi afastado pelos manifestantes
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A polícia de intervenção saiu rapidamente das poucas carrinhas que, por essa altura, estavam estacionadas no Rossio, para acalmar a situação. Tudo se resolveu em poucos minutos. O homem acabou por ser escoltado até ao metro pelos agentes. Enquanto se afastava os manifestantes gritavam: “A Palestina vencerá”.
Pela meia noite um novo sobressalto no acampamento. Foi avistado um grupo de homens, vestidos de preto, a descer a Rua do Carmo em direção à praça do Rossio. Alguns manifestantes garantiram ter ouvido ataques verbais, enquanto uma porta-voz do movimento acampada de Lisboa afirmou que seriam do grupo neonazi 1143.
Não passava, afinal, de um falso alarme. A PSP viria a confirmar que se tratavam apenas de adeptos dos austríacos LASK Linz, que esta quarta-feira defrontaram o Sporting no estádio de Alvalade.
Em declarações à CNN, Adriana Lima, professora que tem agido por estes dias como das porta-vozes do movimento, reconheceu que essa “leitura” é possível. Descreveu que sofreram um “abalo muito grande” nos últimos dias em que foram sujeitos a “violência física” da PSP, encontrando-se psicologicamente abalados. “As pessoas que passaram estavam a provocar e o nosso colega foi agredido foi há uma hora. São muitas coincidências”, acrescentou.
Tendas desmontadas e silêncio, mas com cartazes. Acampamento converte-se em “aconhchada”
A poucos minutos das 00h30 às tendas continuavam montadas no Rossio. “Ainda não tinha conseguido acampar porque trabalho. Hoje é finalmente a minha folga, então decidi vir aqui usar o meu tempo de lazer para vir apoiar uma causa que me afeta a mim e aos que me rodeiam”, resumiu ao Observador Catarina, de 27 anos. Admitiu estar nervosa com as horas que os manifestantes tinham pela frente.
“Passei o dia um bocadinho ansiosa em pensar se vinha para aqui. Tens sempre pensamentos de ‘se calhar não vou, se calhar fico no meu conforto’, mas ao mesmo tempo pensei: ‘Se eu não fizer isto depois os meus filhos vão ter que vir fazer isto outra vez'”, afirmou a jovem, freelancer na área de audiovisual. Acrescentou que esperava puder ali passar a noite, mas sem grandes certezas. “A polícia tem mostrado o punho em vez da empatia”. Enquanto falava uma manifestante aproximou-se com um aviso: tinham sido vistas várias carrinhas da PSP a circular em ruas próximas. “Acho que temos de ser imaculados porque nós temos uma mensagem. E temos muitas pessoas do povo que realmente também têm estas preocupações e estas lutas”, dizia também Joana (nome fictício).
"Hoje é finalmente a minha folga, então decidi vir aqui usar o meu tempo de lazer para vir apoiar uma causa"
Três minutos depois da hora que, segundo um decreto de 1974, foi estipulada para o fim das manifestações, uma manifestante pega no megafone para convocar uma nova assembleia para sobre como agir perante uma operação policial. Aconselhava que, independentemente da decisão, todos os manifestantes tiessesm os seus pertences consigo.
Os manifestantes voltaram a dividir os megafones. “Com a vossa ajuda, com a vossa solidariedade, conseguimos estar aqui e resistir”, disse um homem. “Se virem a policia começar a carregar desmobilizem, mas acho que devemos manter-nos agora”, afirmou outro. As intervenções acabaram por ser interrompidas por um alerta: a PSP tinha dado à multidão 15 minutos para decidir que caminho seguir.
As sugestões sucederam-se. “Podemo-nos sentar todos”; “ocupamos a praça deitados”. “Se toda a gente o fizesse era lindo”, acrescentou a autora da proposta. Com uma estimativa de 238 votos, acabou por vencer a opção de retirar as tendas e dormir ao relento. Com gestos mais lentos que durante a montagem, os grupos foram demontando os abrigos.
Não seria, porém, a última votação da noite. Momentos depois, de maneira a clarificar o escrutínio anterior, os manifestantes votaram para retirar as tendas no imediato, em vez de esperar o primeiro aviso das autoridades e correr o risco de ver os seus bens levados, como aconteceu na madrugada de segunda-feira.
Pelas 2h da manhã soavam pela praça pedidos para diminuir o ruído. As dezenas de manifestantes que ainda se encontravam no Rossio deitaram-se na zona central da praça, enquanto um deles entoava a “Canção de Embalar”, de José Afonso.
▲ Várias dezenas de pessoas passaram a madrugada na Praça D. Pedro IV
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
A aproximação momentânea de equipas da Unidade Especial de Polícia gerou algum desconforto e trouxe uma última votação. “É para ser o mais horizontal e toda a gente ter o poder de decisão”, justificou um porta-voz ao megafone. Votou-se a favor da resistência.
O método em concreto só ficaria definido depois do diálogo com a PSP, que começou por explicar as regras e horários previsto para protestos. “Não precisamos de uma autorização para existir”, atirou uma manifestante, justificando que não tinham motivos para agir porque estavam apenas a conviver. Como o argumento não surtiu efeito, mudou-se de estratégia.
Os manifestantes questionam o comandante da 1.ª Divisão de Lisboa sobre se podiam estar sentados, calados, apenas exibindo cartazes. Iuri Rodrigues admitiu que isso não seria um problema, ficando definidos os termos em que os manifestantes podem permanecer na Praça D. Pedro IV nos próximos dias.
Os detalhes da conversa foram comunicados aos manifestantes, enquanto os funcionários da Câmara Municipal de Lisboa iam procedendo à limpeza do local. Após algum desagrado inicial –“metam aí uma ravezona, um after party [pós-festa]”, sugeriu-se em tom de brincadeira — os manifestantes acomodaram-se para uma noite fria. Para já não é claro se será a última nestes moldes. Mariana Carneiro, outra porta-voz, admite ao Observador que os próximos passos ainda não estão definidos. Tudo será definido na próxima assembleia, marcada para esta quinta-feira, às 19h.
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