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Sunday, September 20, 2026

Os multimercados não morreram, mas já não cabem em todas as carteiras

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Diante da manutenção das taxas de juros em patamares mais altos, dos resgates e da perda de atratividade de algumas estratégias, o investidor passou a fazer uma pergunta: qual é a função dos fundos multimercados em seu patrimônio?

Eu não colocaria todos no mesmo grupo. É uma categoria regulatória, e não uma estratégia de investimento. Dentro dela existem fundos macro, de trading, balanceados, quantitativos, long & short e com forte exposição internacional, entre outros.

Isso significa que produtos com objetivos, métodos e níveis de risco muito diferentes estão reunidos sob o mesmo nome. Por essa razão, dizer simplesmente que os multimercados estão bem ou mal é insuficiente. Parte da indústria, especialmente alguns segmentos macro, balanceados e de trading, passam por um período difícil de performance e perda de atratividade. Outros, continuam cumprindo funções relevantes dentro de uma carteira bem estruturada.

Segundo a ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), a categoria registrou resgates líquidos de R$ 9,9 bilhões no primeiro semestre de 2026. Com as retiradas de julho, a saída acumulada no ano chegou a R$ 12,2 bilhões.

Embora os números sejam expressivos, não acredito que representem uma rejeição definitiva a todos esses produtos. Existe, contudo, uma questão mais estrutural: o investidor passou a exigir uma relação mais clara entre risco, retorno, liquidez, diversificação e tributação.

O principal fator é o custo de oportunidade. Com os juros reais ainda elevados no Brasil, é possível obter uma remuneração atrativa em instrumentos mais conservadores e com menor volatilidade. Nessas condições, torna-se muito mais difícil justificar uma alternativa que assume riscos maiores e pode passar longos períodos sem entregar o resultado esperado.

Portanto, não se trata simplesmente de aguardar uma melhora na performance para que os recursos retornem. Precisamos compreender qual é a fonte de retorno e, principalmente, se ela acrescenta algo que não pode ser obtido de maneira mais eficiente em outras partes da carteira.

Esse cuidado também vale para as taxas. Reduzi-las pode ajudar, mas não resolve uma tese de investimento que deixou de fazer sentido. Uma cobrança menor melhora o retorno líquido recebido pelo cotista, porém não transforma uma proposta pouco diferenciada em uma boa escolha. Na minha visão, a indústria precisa entregar mais valor, e isso passa por desempenho, diferenciação, transparência e eficiência tributária.

O come-cotas também deve fazer parte dessa análise. Esse mecanismo antecipa o pagamento do Imposto de Renda e reduz a parcela dos recursos que permanece aplicada. Para quem possui um horizonte de longo prazo, a antecipação diminui o efeito dos juros compostos e pode comprometer a eficiência do investimento.

Quando uma estratégia multimercado é adequada ao planejamento de longo prazo, sua implementação por meio da previdência pode ser considerada. Como esse veículo não está sujeito ao come-cotas, o capital permanece aplicado por mais tempo. Evidentemente, a escolha deve respeitar os objetivos, o prazo e as características de cada investidor.

Para que um multimercado tenha espaço na carteira, ele precisa cumprir um papel claro. Eu consideraria principalmente três pontos: descorrelação, quando a fonte de retorno é diferente daquelas já presentes no portfólio; capacidade comprovada de gerar resultados ajustados ao risco; e eficiência do veículo, considerando estrutura, liquidez, custos e tributação.

É justamente por isso que fundos quantitativos e algumas alternativas com exposição internacional merecem atenção. Eles podem ampliar a diversificação e oferecer fontes distintas de retorno. Isso não significa que sejam adequados para todos, mas mostra por que examinar o funcionamento de cada produto é mais importante do que tomar uma decisão baseada somente em sua classificação.

Não rejeitamos os multimercados; questionamos a inclusão de um fundo na carteira apenas por pertencer à categoria. A questão central não é saber se ainda vale a pena investir nessa classe, e sim entender por que um produto específico deveria integrar o portfólio.

A diferença parece pequena, porém representa uma transformação importante na seleção dos investimentos. A indústria precisa voltar a responder uma questão simples: por que o investidor deveria ter esse fundo em seu portfólio? Para isso, será necessário demonstrar quais riscos estão sendo assumidos, de onde vem o retorno e como aquela escolha contribui para os objetivos patrimoniais.

Os multimercados não morreram. O que perdeu espaço foi a recomendação baseada apenas no nome da categoria. Daqui em diante, permanecerão relevantes aqueles capazes de oferecer diversificação real, fontes alternativas de retorno e eficiência dentro de um planejamento de longo prazo.

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