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Monday, September 28, 2026

O Pisa não é o Brasileirão

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A cada três anos, o mundo da educação entra em parafuso com os resultados do Pisa. Alguns países viram campeões, outros caem em desgraça, e repetimos um ritual familiar de autoflagelação sobre a educação brasileira. Mas esquecemos a pergunta fundamental: o que os pontos do Pisa realmente medem?

O que os pontos absolutamente não mostram é qual é o melhor modelo educacional do mundo. Pode parecer uma obviedade, mas há uma distância enorme entre os resultados de uma prova amostral e ter a "melhor educação do planeta".

O melhor uso do Pisa —um projeto inestimável da OCDE— está na análise rigorosa e aprofundada de seus dados para compreender tendências globais ou trajetórias específicas de cada país. O pior uso é criar rankings ou fazer comparações superficiais entre realidades incomparáveis. Médias simples podem ocultar detalhes importantes dos dados, especialmente em sistemas heterogêneos.

Nenhum país muda um sistema educacional em três anos, e qualquer teste com grande exposição midiática pode levar governos a buscar formas de jogar com o sistema. Além disso, há distorções entre países pequenos e grandes. Um exemplo clássico: em 2015, os Estados Unidos ficaram em 24º lugar e Singapura em 1º, com 535 pontos, em leitura. Entretanto, o estado de Massachusetts (EUA) teve 527 pontos e seria o segundo do mundo se fosse considerado um país. O que dizer da educação norte-americana? A China participa com apenas algumas de suas províncias. Como ficaria o "modelo chinês" se todas as províncias entrassem na conta?

Também se falou muito sobre a "queda" do modelo finlandês. Nos anos 2000, a Finlândia subiu ao topo do Pisa com um modelo educacional mais flexível e centrado no aluno. Agora, com o recuo do país no ranking, já se fala no "fracasso" do modelo finlandês e que devemos fazer as malas para a Estônia ou a Inglaterra. Sem olhar os dados em profundidade, nada se pode dizer sobre o "modelo finlandês" ou qualquer outro, principalmente diante da queda generalizada da pandemia e das diferenças relativamente pequenas no topo do ranking.

Sistemas educacionais são influenciados por inúmeros fatores externos: a situação da economia, os fluxos migratórios, a qualidade da gestão pública, os conflitos políticos, as guerras e até desastres ambientais. Sem levar isso em consideração, é impossível "ranquear" países. Singapura, no topo do Pisa, é uma cidade-estado de 6 milhões de habitantes com metade da área do município de São Paulo (750 km² contra 1.500 km²). Sua renda per capita é de US$ 105 mil, contra US$ 10 mil no Brasil. A Finlândia tem um coeficiente Gini de 27, enquanto o do Brasil ultrapassa 50. Como comparar a educação brasileira com a de um país dez vezes mais rico ou com a de outro muito menos desigual? E se a verdadeira história da educação brasileira for a da nossa indecente desigualdade?

As comparações superficiais nos distraem do que é realmente importante. Por exemplo, há indícios claros de que o uso de redes sociais e do celular prejudica a capacidade de compreensão de textos. Esse é um problema concreto que podemos enfrentar com pesquisa e boas políticas públicas.

Há também ótimas práticas educacionais em países que talvez não estejam no topo do ranking. Precisamos descobrir onde elas estão e aprender com elas. Isso é diferente de "copiar" um modelo do país campeão da hora. Mas, para essa seleção criteriosa de boas ideias e práticas, não basta uma excursão a Tallinn: precisamos investir no fortalecimento da pesquisa educacional e na formação de especialistas.

Que tal, por exemplo, ampliar o financiamento à pesquisa e às bolsas de doutorado e criar mais mestrados acadêmicos e profissionalizantes? Quem sabe assim, daqui a alguns anos, tenhamos mais centenas de experts com conhecimento profundo em sistemas educacionais do Brasil e do exterior, ampliando a nossa capacidade técnica não só de analisar o Pisa, mas de construir e adaptar soluções autenticamente brasileiras?

Rankings funcionam bem para gerar notícia. Mas, se quisermos transformar as nossas escolas, precisamos parar de tratar o Pisa como uma Copa do Mundo e começar a usá-lo como o que ele de fato é: uma ferramenta complexa de diagnóstico para o árduo trabalho que vai além das manchetes trienais: desenhar e implementar a educação que nossas crianças merecem.

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