Diretor dos Dias da Literatura de Lisboa critica boicotes

O diretor dos Dias da Literatura de Lisboa, Ulrich Schreiber, questionou esta terça-feira os boicotes culturais indiscriminados e defendeu o diálogo entre escritores de países em conflito, perante as pressões políticas que afetam os festivais literários.
Na apresentação à imprensa da primeira edição do evento, que decorre de quarta a sexta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, Ulrich Schreiber considerou necessário encontrar formas de enfrentar os conflitos políticos que têm provocado controvérsias e cancelamentos de eventos literários internacionais.
O fundador do Festival Internacional de Literatura de Berlim apontou como exemplo os apelos ao boicote indiscriminado de instituições culturais israelitas, questionando a exclusão de organizações que se opõem ao Governo de Benjamin Netanyahu e à guerra na Faixa de Gaza.
Referindo-se a uma declaração pública que apelava à suspensão da cooperação com instituições israelitas, o responsável observou que a medida abrangia também organizações “totalmente contra Netanyahu” e contra a guerra.
Ulrich Schreiber defendeu que os festivais devem manter autonomia nas decisões de programação, mas considerou que a cooperação internacional pode ajudá-los a enfrentar conflitos semelhantes.
“Juntos são mais fortes. Os festivais são mais fortes em conjunto quando são atacados ou ficam sem financiamento. Se cada festival decidir por si, será mais fraco”, afirmou.
A necessidade de preservar o diálogo cultural foi também abordada a propósito da guerra na Ucrânia e das relações entre escritores ucranianos e russos.
Ulrich Schreiber, que dirige igualmente o Festival de Literatura de Odessa, questionou se os escritores ucranianos devem deixar de dialogar com autores russos que se opõem ao Presidente Vladimir Putin, nomeadamente aqueles que vivem no exílio.
O diretor do festival recordou o caso do realizador ucraniano Sergei Loznitsa, excluído de uma associação de cineastas do seu país, em 2022, depois de participar numa conversa com um realizador russo, situação que motivou um convite para o Festival Internacional de Literatura de Berlim, onde foram apresentados vários dos seus filmes.
“Penso que faz sentido falarmos uns com os outros para defendermos o nosso trabalho”, afirmou.
As dificuldades financeiras constituem outra das preocupações do diretor do festival, que evocou o fim dos acordos de patrocínio entre a empresa Baillie Gifford e nove festivais literários britânicos, em 2024, após protestos relacionados com investimentos em combustíveis fósseis e relações comerciais com Israel.
Estes episódios, associados às transformações tecnológicas, estão entre as razões que levaram à organização do congresso internacional “E agora? Congresso Internacional do Setor Literário em Tempos de Agitação Política”, integrado nos Dias da Literatura de Lisboa, e que terá lugar na quarta-feira.
A iniciativa reúne diretores de festivais e feiras do livro, escritores, editores, tradutores, jornalistas e programadores culturais para discutir o futuro do setor e promover a cooperação internacional.
A inteligência artificial (IA), sobretudo as suas consequências para a tradução literária, constitui outro dos principais temas do congresso.
Schreiber manifestou preocupação com a possibilidade de as editoras recorrerem cada vez mais a ferramentas de IA para traduzir livros, mesmo quando os resultados não atingem a qualidade do trabalho humano.
“Receio que as editoras decidam utilizar mais a IA, mesmo quando esta não está ao nível dos melhores tradutores literários”, afirmou.
O responsável considerou que a posição dos tradutores está a enfraquecer e defendeu a necessidade de proteger o seu papel na criação e circulação das obras literárias.
Ulrich Schreiber admitiu que utiliza ferramentas de IA no seu próprio trabalho, reconhecendo a sua utilidade, mas alertou para os erros que ainda produz e para os problemas relacionados com os direitos de autor.
O futuro da literatura passa igualmente, na sua perspetiva, pela capacidade dos festivais de chegarem a novos públicos e de reforçarem a relação com as escolas.
O diretor defendeu uma maior aposta na literatura infantil e juvenil, considerando importante criar programas dirigidos a crianças desde os três anos e fortalecer a presença da literatura no ensino.
Referiu a experiência de um festival romeno dedicado exclusivamente a crianças e jovens, que será apresentada no congresso pelo escritor Dan Lungu, e sugeriu a criação de um festival literário português especialmente destinado aos mais novos.
Ulrich Schreiber defendeu ainda a apresentação de escritores internacionais de qualidade, mesmo quando as suas obras não estão traduzidas em português, considerando que os festivais podem contribuir para dar a conhecer autores e estimular futuras traduções.
Além do congresso, os Dias da Literatura de Lisboa incluem leituras, apresentações de livros, sessões de poesia e conversas com escritores internacionais, num programa aberto ao público.
O encontro é presidido pelo escritor Alberto Manguel, que participa na sessão inaugural com uma intervenção intitulada “Bem-vindos ao circo”, na qual compara os festivais literários ao circo da sua infância, um lugar de descoberta e surpresa.
Questionado sobre a metáfora que escolheria para definir um festival literário, Ulrich Schreiber recordou a tenda que, durante os anos em que dirigiu o festival de Berlim, servia de ponto de encontro entre escritores, jornalistas e leitores.
“Para mim, é a metáfora da tenda, desta celebração”, afirmou, descrevendo os festivais como espaços de encontro e celebração da literatura.
“É uma tenda onde tudo pode acontecer”, destacou.
Os Dias da Literatura de Lisboa realizam-se pela primeira vez de 28 a 30 de outubro, na Fundação Calouste Gulbenkian, numa organização da Bebelplatz e.V. e da Word Alliance, com o apoio principal da Jan Michalski Foundation, da Fundação Calouste Gulbenkian e do Turismo de Lisboa.
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