Viriato: o herói lusitano: história e mito – parte 1

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Olá e seja muito bem-vindo. Esta é a História das Histórias. Eu, João Paulo Sacadura, estou aqui para apresentar Jorge Adolfo Menezes Marques. Ele é historiador e professor, este nosso especialista em comunicação que nós tanto gostamos e que tanto nos tem dado ao longo dessas semanas. Hoje, vamos a uma coisa que já tínhamos prometido. Jorge, bem-vindo. Vamos falar do Viriato. Hoje e até o resto da semana, vamos ter aqui o Viriato em vários capítulos. Vamos saber um pouco mais sobre esta figura histórica. Será que foi mesmo histórico? Será que foi mito? Qual é a ligação aos lusitanos? Qual é a ligação à própria cidade de Viseu, a história da cava de Viriato, a estátua que lá está? Vamos saber sobre este mito ou este herói. Não digo português, porque Portugal ainda não havia, mas do nosso território.
É o primeiro mito que podemos aqui referir. Antes de mais nada, olá, João Paulo e a todos que nos seguem. Vamos hoje e nos próximos dias falar um pouco sobre o Viriato e essa figura histórica, importa dizer que existiu, viveu, foi um homem de carne e osso, como é costume dizer-se. Depois, em torno dessa figura e ao longo dos séculos, o Viriato foi utilizado, vou aqui colocar utilizado entre aspas, mas foi utilizado, foi uma personalidade histórica utilizada ao longo dos séculos, de acordo com os interesses de quem escreveu ou quem falou sobre ele. Portanto, é uma figura, como muitas outras há, que viveu numa época determinada, mas depois é utilizada para nosso interesse. Eu podia até começar quase pelo fim. Em Viseu, há inúmeras instituições públicas e privadas, escolas e empresas, alimentos, que têm o nome desse guerreiro lusitano.
Os famosos Viriatos, pelo amor de Deus, é o bolo típico de Viseu.
Eu diria que é um dos bolos típicos de Viseu. Aliás, o doutor Alberto Correia escreveu sobre isso.
É extraordinário, ainda por cima é muito bom.
É muito doce, mas não exageradamente doce. Tudo isso serviu para sedimentar a figura dessa personalidade histórica ao longo dos tempos. É um pouco isso que nós vamos aqui tentar. Vamos começar pelo início. Quem é que escreveu sobre Viriato? Houve uma série de autores na antiguidade. Se nós não tivéssemos esses autores que escreveram sobre todas e mais algumas personalidades, nós hoje provavelmente não saberíamos que existiu um Viriato. Mas desde a antiguidade grega e latina que houve autores que escreveram sobre o Viriato. Desde o século II até ao século V, uma série de autores. Políbio terá sido o primeiro autor a referir-se a Viriato. Ele viveu no século II a.C. Depois, houve uma série de outros autores. Posidónio de Apameia, que era de origem síria. Temos que ter em conta que estamos a falar de uma época, em que o Império Romano era muito grande, desde a Europa Ocidental ao Mar Negro, a toda a bacia do Mediterrâneo, o mar é nosso, o mar fechado, o lago romano. Uma série de autores que se localizavam, que viveram neste espaço, escreveram sobre essa figura. O tal Posidónio de Apameia, de origem síria, construiu a imagem de um herói puro, justo, porque tinha nascido, onde é que nós associamos o Viriato? É no meio das serranias, dos montes.
Dos Montes Irminios.
Dos Montes Irminios. Exatamente. E portanto, no meio selvagem, rude, em que ele não estava corrompido pela decadência da civilização. Esta ideia de uma figura longe da Babilônia urbana, da degenerescência urbana, do vício. Em todo caso, pouco ou nada nos chegou dessa obra que ele escreveu. Depois temos um autor do século II a.C., Diodoro Siculo, que transmitiu uma imagem construída pelo anterior, Posidónio. Diodoro Siculo foi contemporâneo de Júlio César e de Augusto, e ele traça uma biografia de Viriato, refere que a região de onde ele seria originário Refere essa região, o seu casamento, o seu funeral e enaltece as capacidades também de liderança, de robustez física. Era um guerreiro, mas dá muito ênfase a esses aspectos de liderança, de robustez física. Depois, Apiano de Alexandria, que vive entre 95 e 165 depois de Cristo, com a sua história das guerras da Ibéria, é o autor mais antigo divulgado em Portugal no século XVI. Este, Apiano, foi muito divulgado em Portugal no século XVI. Temos que ter em conta que o século XVI é o século do Renascimento, é o século em que os autores iam às fontes clássicas buscar ideias. Era o modelo da literatura, do pensamento, da filosofia, da arte. Era esse século XVI. E este Apiano, de Alexandria, que vai ser muito citado no século XVI, vai citar outros autores, como Políbio, Paulo Cláudio, César Augusto, Assínio, enfim, uma série de autores antigos. Depois temos outro autor também muito importante que escreve sobre o Viriato, que é o Dión Cassio, que viveu entre 155, sensivelmente, 163 e 229. Ele também se refere à origem geográfica de Viriato. Ou seja, esta questão da origem geográfica é importante. Por quê? Porque se nós associamos, por exemplo, Viseu, a região da Serra da Estrela, ao Viriato, associamos por quê? Porque estes autores antigos dão pistas para depois, ao longo dos séculos, associarmos a sua localização. Estes autores falam muito sobre ele. Depois, há outros autores, como, por exemplo, Estrabão, que falam também sobre ele, Lúcio Floro, Júlio Frontino, Eutrópio Justino, enfim, o último aqui que eu iria citar é Paulo Orósio, no século V, numa obra que é a História Contra os Pagãos, que também coloca Viriato como pastor, general, chefe traído, que importa aqui referir. Mas depois desta vaga inicial de autores clássicos que falam sobre Viriato, sobre os lusitanos, sobre as guerras entre lusitanos e romanos, depois destes autores, ao longo da Idade Média, o Viriato continuou vivo entre aqueles que escreviam sobre ele. Há uma série de outros autores, a começar pelo Conde de Barcelos, na sua Crónica Geral de Espanha, o Dom Pedro Afonso, Conde de Barcelos, ele refere-se a Viriato em várias passagens da Crónica Geral de Espanha, como pastor de gado, foi assaltante de caminhos, fazia esse tipo de pilhagem, ataque. Mas também ele juntava a isso a bondade. Atacava os romanos. Isso era uma virtude, temos que dizer aqui como uma virtude. E ao longo da Idade Média, outros autores vão falando sobre o nosso Viriato. Eu vou continuar a dizer o nosso Viriato. Nomeadamente, na literatura do século XV e XVI. Por exemplo, o professor Joaquim Veríssimo Serrão, na História de Portugal, ele diz que a palavra Lusitânia serviu aos homens do Renascimento para vincular a nação portuguesa a tão remota origem. E o nome de Viriato foi elevado como o primeiro herói surgido no território. No século XVI, começam a utilizar Viriato como uma espécie de pai da pátria, como fundador. E começa-se a generalizar entre os intelectuais.
Os autores da época.
Da época. Essa ideia. Outros humanistas como Damião de Góis.
Há outros. André de Resende, não?
André de Resende, João de Barros, etc.
Exatamente. Todos eles vão mencionando este herói, este já é um mito. Já não só um mito, já provaste bem que é bem lembrado e bem citado ao longo dos séculos. Já vamos no Renascimento. Claro.
Camões vai ter aqui também um papel muito importante.
Exatamente.
Nomeadamente nos Lusíadas. Quer no Concílio dos Deuses, com o discurso de Júpitero, quer também no Canto Primeiro, depois no Canto Terceiro, quando o Vasco da Gama narra a história de Portugal ao rei de Melinde. No Canto Oitavo, também, mas há aqui uns versos muito bonitos que é quando Camões diz: "Deixo, deuses, atrás a fama antiga que com a gente de Rómulo alcançaram, quando com Viriato na inimiga guerra romana tanto se afamaram".
A gente de Rómulo é os romanos, claro.
Exatamente. Rómulo como a figura representante dos romanos, e Viriato na luta contra esses romanos. Portanto, quer em Portugal, quer também em Espanha, a figura de Viriato estava presente na literatura medieval e na literatura renascentista. Vou terminar aqui com um autor que vai ser determinante para a criação e a ligação de Viriato a Viseu, que é o Frei Bernardo de Brito, no livro terceiro da "Monarquia Lusitana". Frei Bernardo de Brito, de Alcobaça, que viveu entre 1569 e 1617, importa dizer. Ele vive parte final da sua vida durante o domínio filipino. E então ele diz uma coisa muito interessante, porque ele biografou Viriato, supostamente consultando as fontes clássicas que falavam. E então ele faz este paralelismo: os portugueses de hoje, da altura do Frei Bernardo de Brito, são os lusitanos de ontem. E o Frei Bernardo de Brito vai servir de grande inspiração a um outro autor, que é o Brás Garcia de Mascarenhas, que escreve uma obra intitulada "Viriato Trágico", que vai se inspirar na obra de Bernardo de Brito, e que vai ligar Viseu a uma construção que existia na cidade, na época do Brás Garcia de Mascarenhas e do Bernardo de Brito, que é a famosa cava. Cava que depois é também atribuída a Viriato. Quer dizer, estes autores vão ser os responsáveis pela ligação a Viseu.
Muito bem, e vamos continuar a falar amanhã também deste nosso herói, Jorge Adolfo Marques. Ficamos então aqui hoje com a primeira parte desta minissérie em três episódios sobre a vida de Viriato. Marcamos encontro amanhã. Um grande abraço. Até amanhã.
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