França mobiliza 70 mil agentes de segurança para conter novos protestos e saques
O governo francês anunciou nesta sexta-feira, 23, que mobilizará 70 mil policiais e gendarmes para conter possíveis distúrbios durante os protestos previstos para sábado, 24. A decisão foi tomada após episódios recentes de violência urbana e diante de alertas sobre convocações nas redes sociais para saques e atos de vandalismo, segundo a AFP.
A França, segunda maior economia da União Europeia, enfrenta uma onda de insatisfação social impulsionada pelo aumento do custo de vida. Os protestos ganharam força no mês passado, inicialmente com manifestações de estudantes do ensino médio, e se espalharam pelo país.
A tensão ocorre a cerca de seis meses da eleição presidencial que definirá o sucessor de Emmanuel Macron. Em meio à pressão nas ruas, o governo também precisa lidar com o elevado endividamento público e com a dificuldade de aprovar medidas fiscais no Parlamento, onde não tem maioria.
Reforço policial inclui blindados e helicópteros
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou que o esquema de segurança contará com 70 mil policiais e gendarmes, cerca de 20 veículos blindados da gendarmeria, 15 caminhões equipados com canhões de água, além de helicópteros, drones e outros equipamentos, informou a AFP.
Segundo Nuñez, as autoridades identificaram diversas convocações nas redes sociais associadas a grupos de extrema esquerda e extrema esquerda radical para a prática de atos de violência e saques.
O governo atribuiu os episódios anteriores a pequenos grupos de extrema esquerda, incluindo antifascistas, anarquistas e anarcoautônomos. Segundo as autoridades, criminosos oportunistas, sobretudo jovens de áreas periféricas das grandes cidades, também teriam aproveitado a situação para saquear estabelecimentos comerciais.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu afirmou, nesta sexta-feira, em Limoges, que o nível de ameaça permanece elevado. De acordo com a AFP, ele defendeu um dispositivo de segurança adaptado aos riscos identificados, com atenção especial à atuação de grupos de extrema esquerda e à criminalidade.
Orléans também terá reforço policial. A cidade, localizada a cerca de 100 quilômetros de Paris, espera receber até 30 mil pessoas em uma manifestação contra o congresso do Reagrupamento Nacional (RN), partido de extrema direita liderado por Marine Le Pen, que aparece como favorita nas pesquisas para a eleição presidencial.
A preocupação com a segurança aumentou ainda mais após um ataque classificado como terrorista e supostamente racista, ocorrido nesta sexta-feira nas proximidades de Paris. Um homem de 39 anos foi detido após o episódio, que deixou uma pessoa morta e várias feridas, segundo a AFP.
Governo tenta conter violência sem decretar emergência
Após os confrontos do último sábado, 17, o governo descartou decretar estado de emergência. Entre as alternativas consideradas estão a adoção de toques de recolher em determinadas áreas e a proibição de manifestações que não sejam organizadas por entidades consideradas legítimas, como os sindicatos.
As autorizações para os atos variam de acordo com a cidade. Em Paris e Marselha, as autoridades permitiram manifestações convocadas por centrais sindicais. Em Lyon, por outro lado, uma marcha foi proibida. Segundo a AFP, muitos dos episódios de violência registrados na semana anterior ocorreram durante protestos não autorizados.
A mobilização também levou comerciantes a adotar medidas preventivas. Em Paris, diversos estabelecimentos instalaram painéis de madeira para proteger as vitrines. Parte dos lojistas avalia manter as portas fechadas, enquanto outros se preparam para proteger os próprios negócios diante do risco de saques.
O presidente das Câmaras de Comércio e Indústria da França alertou para a presença de objetos que poderiam ser usados em confrontos, como tacos de beisebol e barras de ferro, além de espingardas de caça. Ele recomendou que os comerciantes fechem os estabelecimentos e deixem a atuação a cargo da polícia, segundo a AFP.
Museus e atrações culturais fecham no sábado
A previsão de novos protestos também afetará o funcionamento de espaços culturais em Paris. Os museus do Louvre, Orsay e Picasso, as duas sedes da Ópera de Paris e as fundações Cartier e Louis Vuitton permanecerão fechados excepcionalmente neste sábado, informou a AFP.
O fechamento ocorre em meio ao reforço das medidas de segurança para evitar novos episódios de violência e proteger estabelecimentos e espaços públicos durante as manifestações.
Crise social pressiona governo e mercados
Além dos desafios de segurança, o governo francês enfrenta dificuldades para equilibrar as contas públicas. A margem de manobra do governo, que é minoria no Parlamento, é, no entanto, limitada, sobretudo quando busca aprovar um forte ajuste fiscal no orçamento de 2027 para reduzir o nível elevado da dívida e do déficit públicos e tranquilizar os mercados.
A instabilidade social também aumenta a preocupação dos investidores com a situação financeira do país. O rendimento dos títulos soberanos franceses de dez anos voltou a superar 5%, nível que não era registrado desde 2002, segundo a AFP.
A alta reflete a apreensão do mercado com a capacidade do Estado de honrar suas obrigações financeiras. A agência de classificação de risco Moody's manteve a nota de crédito da França em Aa3, mas conservou a perspectiva negativa, evitando um novo rebaixamento neste momento.
Enquanto o governo tenta conter a violência nas ruas e avançar com o ajuste fiscal, a insatisfação com o custo de vida mantém a pressão sobre as autoridades francesas.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.