EUA vão às urnas em eleição que pode impor dificuldades ao governo Trump


Milhões de americanos vão às urnas hoje para renovar parte do Congresso dos Estados Unidos em uma eleição que coloca a força política do presidente Donald Trump à prova. As eleições de meio de mandato podem alterar o equilíbrio de poder, dificultando a aprovação de propostas do governo.
Como funcionam as eleições de meio de mandato?
Eleição ocorre dois anos após a escolha do presidente. As chamadas midterms (ou eleição de meio de mandato) são realizadas na metade do mandato presidencial, diferentemente do processo eleitoral realizado no Brasil. O presidente não disputa o pleito, mas o resultado pode alterar a composição do Congresso e a capacidade de governar.
Eleitores escolhem deputados e parte dos senadores. Todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes serão renovadas em 2026. Já no Senado, cerca de um terço das 100 cadeiras disponíveis será submetido à votação. Os deputados têm mandatos de dois anos, enquanto os senadores permanecem seis anos no cargo.
Disputas para a Câmara ocorrem em todo o país. Já as eleições para o Senado serão realizadas em 35 estados (veja a lista abaixo). Também haverá eleições para governadores em alguns estados. Cerca de 250 milhões de americanos estão aptos a votar, e cada localidade organiza sua própria votação.
Americanos podem votar antecipadamente ou pelos correios. Nos EUA, o voto não é obrigatório. As regras variam entre os estados, e alguns enviam cédulas automaticamente aos eleitores cadastrados. Trump tentou restringir o voto postal por decreto, mas a medida foi barrada pela Justiça antes das eleições.

O que está em disputa
Resultado funciona como termômetro do governo. As midterms são consideradas uma espécie de avaliação do presidente em exercício, neste caso, Donald Trump, que tem registrado popularidade baixa. O resultado das urnas deve indicar apoio (ou não) dos eleitores ao seu governo.
Maioria no Congresso influencia agenda presidencial. O controle da Câmara e do Senado é importante para aprovar projetos de lei, o orçamento e outras medidas do governo. Trump iniciou o mandato com maioria republicana nas duas Casas: 218 deputados contra 214 democratas na Câmara, além de 53 senadores republicanos, 45 democratas e dois independentes que atuam junto à oposição no Senado.
Trump corre para manter controle do Congresso. Uma eventual vitória da oposição pode levar Trump a enfrentar mais obstáculos para implementar sua agenda, além de ficar mais exposto a investigações conduzidas por parlamentares da oposição. Pesquisa divulgada pela Reuters/Ipsos mostrou vantagem para os democratas (53% a 44% dos republicanos) entre aqueles propensos a votar.
Mapa abaixo mostra estados onde será realizada a disputa para a segunda vaga para Senado

O que está em jogo para Trump, sobretudo, é sua capacidade de governar nos dois últimos anos do mandato. Com maioria no Congresso, o atual mandatário tem mais facilidade para implementar a sua agenda de governo.
Se os democratas conquistarem a Câmara, Trump enfrentará maiores dificuldades para aprovar projetos legislativos e negociar questões orçamentárias, além de uma fiscalização mais intensa sobre seu governo, com a possibilidade de abertura de investigações parlamentares. Caso perca também o Senado, poderá enfrentar obstáculos adicionais, especialmente nas nomeações para cargos do Executivo e do Judiciário. Karina Calandrin, doutora em relações internacionais do Ibmec-SP
Trump intensificou campanha para manter maioria republicana. Nos últimos meses, o presidente percorreu diferentes estados para mobilizar eleitores e apoiar candidatos do partido. Entre os destinos está o Texas, tradicional reduto republicano, onde os democratas disputam uma vaga no Senado e ameaçam a hegemonia do partido.
Presidente percorreu quase 25 mil km em 13 dias de campanha. Até o dia 14 de outubro, Trump havia realizado dez comícios em apoio a candidatos republicanos às eleições de meio de mandato, segundo levantamento divulgado pela rede de TV NewsNation e reproduzido pelo portal de notícias AOL (America Online). A maior parte dos compromissos ocorreu em estados tradicionalmente republicanos.

Como uma maioria democrata pode afetar Trump?
Resultado pode afetar governabilidade e estabilidade política. Uma eventual perda de maioria republicana na Câmara ou no Senado pode dificultar a aprovação de projetos, ampliar a pressão da oposição e abrir espaço para investigações.
Trump já foi alvo de pelo menos quatro processos criminais. O republicano foi condenado em Nova York por falsificação de registros comerciais (liberação incondicional ou sem pena de prisão ou multas), mas os outros três casos, relacionados à eleição de 2020, aos documentos sigilosos e à tentativa de reverter o resultado eleitoral na Geórgia, foram arquivados.
Abertura de novo processo de impeachment é uma possibilidade. A perda da maioria republicana na Câmara pode facilitar o início de um terceiro processo contra Trump. O presidente já foi alvo de dois impeachments durante seu primeiro mandato, em 2019 e 2021, mas foi absolvido pelo Senado nos dois casos. Nos Estados Unidos, cabe à Câmara aprovar as acusações, enquanto o Senado é responsável pelo julgamento.
Nova composição pode atingir temas espinhosos. A economia, a imigração, a política externa e o funcionamento das instituições americanas poderão ser afetados dependendo do resultado das urnas. Uma maioria democrata, por exemplo, pode aumentar a pressão sobre o governo em relação às operações do ICE, agência responsável pela fiscalização migratória.

O impacto da eleição nas relações com o Brasil
Política externa de Trump não deve ser impactada, segundo especialistas ouvidos pelo UOL. O que pode acontecer é o aumento interno da pressão da política de parlamentares sobre o presidente em temas como as tarifas comerciais impostas pelos EUA. Em julho de 2026, a gestão Trump estabeleceu uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos do Brasil.
Sanções contra autoridades brasileiras podem ser questionadas por oposionistas numa eventual maioria. Em 2025, Trump impôs sanções a várias autoridades brasileiras, entre elas o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. O governo americano alegou que o magistrado adotava decisões que violavam a liberdade de expressão e promoviam censura.
Não, não a muda política externa, porque a política externa é da alçada do presidente junto com os seus assessores. Então, com as midterms, mesmo que o Trump perca as duas Casas não é garantido que haverá uma mudança na política externa. O que aumenta é o escrutínio. Então qualquer ação do Trump passa a ter mais pressão do Congresso. Professora Karina Calandrin, professora de relações internacionais do Ibmec-SP
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