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Wednesday, September 16, 2026

Bancos e escritórios de advocacia reforçam áreas que cuidam de créditos na UTI

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São Paulo Bancos e escritórios de advocacia estão se reorganizando e reforçando equipes que cuidam de empréstimos a empresas em dificuldade financeira depois que uma série de gigantes como Casas Bahia, Braskem e Grupo Pão de Açúcar pediram recuperação judicial (RJ) ou extrajudicial (RE).

Com a taxa de juros em dois dígitos, a onda não deve arrefecer tão cedo, segundo especialistas.

No Santander, o setor responsável por recuperações de companhias que faturam mais de R$ 80 milhões por ano aumentou de 13 pessoas, em 2025, para 33, em 2026.

Fachada da loja Casas Bahia com letreiro azul e branco. No interior, clientes caminham entre corredores com móveis e eletrodomésticos expostos. Banner promocional anuncia pagamento em 24 vezes e 60 dias para pagar.
Loja Casas Bahia em São Caetano; empresa informou um prejuízo de R$ 10 bi no segundo trimestre deste ano e pediu recuperação judicial - Felipe Iruatã/Folhapress

"Fizemos o movimento de mais do que dobrar o time justamente porque entendemos que teríamos um cenário mais duro até 2027. E também aumentamos a qualificação do time e a distribuição regional. O grosso segue em São Paulo, mas também temos gente nas principais regionais para fazermos um trabalho mais preventivo, de chegar antes aos problemas", diz Thiago Franco Martins, superintendente executivo do Santander.

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A equipe de Martins acompanha atualmente 1.500 empresas em dificuldades, entre elas as que estão em recuperação extra ou judicial. "A situação está quase generalizada. Há gente dos setores de saúde, incorporadoras, varejo e agronegócio", diz o executivo.

Esse tratamento para evitar a falência fica concentrado em áreas chamadas special situations (situações especiais, em inglês) nos bancos, conhecidas pelo apelido de "UTI do crédito". Nelas, chegam clientes já em atraso e com problemas financeiros.

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"Tem que ser um conjunto de esforços, do acionista, da companhia e dos outros stakeholders, porque não adianta eu fazer o esforço e outro banco ir lá apertar o botão, enxugar liquidez do cara", afirma Martins.

Outra instituição financeira de grande porte relatou à Folha, em condição de anonimato, que não expandiu a equipe de mais de cem pessoas dedicada a empréstimos com problema, mas incorporou às análises ferramentas de inteligência artificial e de análise de dados que permitem um diagnóstico mais preciso do quadro das empresas.

Esse banco monitora, por exemplo, o patrimônio pessoal dos controladores das empresas em dificuldade. O objetivo é reunir provas para eventuais processos da desconsideração de personalidade jurídica, que facilitem o ressarcimento por empréstimos não pagos.

Segundo o monitor da consultoria RGF Associados, com base em dados da Justiça e da Receita Federal, 6.341 CNPJs estavam em recuperação judicial ao fim de junho, um crescimento de 21,2% em 12 meses. Em extrajudicial, havia 346 empresas, com uma alta de 38,4% no número de casos.

Entre as recuperações em andamento, a maior é a da Raízen, com mais de R$ 61 bilhões, aprovada em julho deste ano. Também neste ano entraram com pedido de recuperação a Braskem, com cerca de R$ 56 bilhões em dívidas, e Casas Bahia, com R$ 17,3 bilhões em aberto.

TRATAMENTO DO DIAGNÓSTICO

Fundada por Otávio França em setembro de 2025, a Exon Partners assessora credores e devedores. Começou com um mandato de reestruturação e hoje tem sete, que somam R$ 4 bilhões em passivos.

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"Costumo dizer que a recuperação judicial é uma quimioterapia. Não é adequada para uma doença comum, mas, quando é necessária, se a empresa demora demais para iniciar o tratamento, pode não adiantar", diz França, que prevê aumentar seu time de sete colaboradores ao longo do ano.

Outro diferencial dos casos atualmente é que eles não têm um gatilho em comum, como na Lava Jato ou na queda do grupo X, de Eike Batista. Apesar de todos serem agravados agora pelos juros altos no Brasil, há características intrínsecas a cada setor e ao negócio em si, avaliam especialistas.

Marcelo Ricupero, sócio de reestruturação e insolvência do Mattos Filho, diz que o escritório de advocacia tem investido na área de reestruturação de créditos enquanto vive o pico histórico de trabalho.

"Há uma visão de que é uma área que vai ter um volume de trabalho constante. Alguns anos atrás, a reestruturação era vista como uma área meio cíclica. E hoje já não é mais assim, o mercado já é um pouco mais maduro", diz Ricupero.

Victoria Villela Boacnin, também especialista na área, virou sócia do escritório no fim de 2025 como parte da expansão da equipe.

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"Normalmente, [as discussões sobre a RJ] são feitas vários meses antes, não é uma coisa trivial, até porque você vai negociar com várias pessoas simultaneamente", diz Victoria.

Segundo ela, cada banco tem seu próprio comitê, que demora de duas a três semanas para deliberar. O devedor, por sua vez, precisa analisar se o pedido recebido faz sentido em relação ao que negocia com os demais credores.

O escritório SOB Advogados optou por reforçar a senioridade da banca de reestruturação de créditos e insolvência.

Gabriel de Orleans e Bragança, sócio do SOB, diz que o trabalho envolve análise econômico-financeira, avaliação de valor e reestruturação dos passivos. "A viabilidade de um plano se decide tanto na sala do juízo quanto na mesa de negociação", diz.

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PERDAS PARA OS BANCOS

Apesar do volume, as operações não devem ter um grande efeito sobre os bancos, por já serem esperadas. Com a piora financeira, instituições provisionam perdas e reduzem a exposição, vendendo carteiras e restringindo empréstimos e financiamentos.

Antes dos atrasos, bancos detectam deterioração por menos duplicatas, maior antecipação de recebíveis, diversificação de fornecedores ou blindagem patrimonial. E, em muitos casos, eles vendem passivos indesejados a fundos de renda fixa ou outras instituições.

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Mesmo capitalizadas, as instituições ficam mais avessas a risco com juros e inadimplência altos, encarecendo e restringindo o crédito, o que pode provocar ainda mais recuperações e falências.

Antes da RE ou da RJ, o banco age para renegociar a dívida do cliente, ou mesmo cortar sua linha de crédito. A ideia é evitar a recuperação. O tamanho do crédito extra vai depender da qualidade das garantias ofertadas pela empresa em dificuldade. Mas nem sempre esses novos empréstimos e financiamentos evitam a RE ou a RJ.

Em casos como Raízen e Braskem, bancos se reúnem entre si para tentar tratamentos pré-recuperação antes de qualquer medida isolada.

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