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Wednesday, October 14, 2026

Disputa entre Funai e setor elétrico põe em xeque 20 hidrelétricas em Santa Catarina

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Brasília Uma disputa entre a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e empresas do setor elétrico põe em xeque o futuro de usinas hidrelétricas em fase de estudo e outras já instaladas nos rios Chapecó e Chapecozinho, localizados na região oeste de Santa Catarina.

Conforme informações obtidas pela Folha, a Funai já pediu a suspensão das licenças de instalação de duas pequenas centrais hidrelétricas e cobrou informações sobre uma lista de 20 empreendimentos na região, incluindo algumas em fase de projetos e usinas já operacionais.

A Enerbios, empresa que desenvolve projetos na bacia, levou o conflito à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) e afirma que a posição da Funai pode atingir uma parte relevante da geração de energia no estado.

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No centro da discussão está o impacto de novas barragens na reprodução dos peixes e na vida dos indígenas, mais especificamente aqueles que vivem na terra Xapecó.

A Funai alega que o rio Chapecó possui hoje um trecho livre de barragens importante para a desova de espécies que percorrem grandes distâncias, enquanto uma sucessão de pequenas usinas criaria diversos lagos, inviabilizando o ciclo natural.

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A Enerbios contesta a posição do órgão. Segundo a empresa, os impactos de cada usina precisam ser examinados separadamente, com alternativas para proteger os peixes, mas sem deixar de produzir energia.

A imagem mostra a silhueta de uma pessoa caminhando em uma área com torres de transmissão de energia elétrica ao fundo. As torres estão alinhadas em uma linha, com um céu em tons de azul e laranja ao entardecer.
Torres de alta tensão em Brasília - Ueslei Marcelino/Reuters

ENTENDA O CASO

O confronto teve desdobramento concreto em agosto. Em ofício enviado ao IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina), órgão responsável pelo licenciamento, a Funai pediu a suspensão de duas licenças de instalação concedidas em 2025, uma para a pequena central hidrelétrica Guarani, prevista para o rio Chapecozinho, e outra para a Nova Erechim, projetada para o rio Chapecó.

A licença de instalação é a autorização dada para implantar a obra. Ou seja, os projetos já possuem licença prévia, que atestaria a sua viabilidade ambiental.

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Os dois rios fazem parte da bacia do rio Uruguai. O Chapecozinho passa pela região da terra indígena Xapecó e, depois, encontra o Chapecó, que segue até o rio Uruguai.

Um levantamento apresentado pela Funai no processo aponta que há 94 espécies de peixes na bacia do Chapecó, incluindo quatro que migram por longas distâncias. O estudo também identifica espécies exclusivas da bacia do Uruguai e espécies ameaçadas de extinção.

O órgão pede estudos mais completos da bacia e uma discussão com órgãos ambientais, o Ministério Público Federal e moradores da terra indígena antes de uma nova avaliação da viabilidade das usinas.

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Segundo estimativa da Enerbios, os 20 aproveitamentos existentes ou projetados que a empresa considera afetados na região somariam 549,8 megawatts.

"Isso representaria aproximadamente 2,33 TWh de geração anual, equivalentes a 7,3% de todo o consumo anual de energia elétrica de Santa Catarina registrado em 2025", declarou a empresa, em resposta à reportagem.

A conta inclui projetos ainda não construídos e não representa energia que já deixou de ser produzida.

À Folha a Aneel declarou que recebeu uma carta da Enerbios sobre o assunto no mês passado e que o tema "está em análise" pela agência.

O Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina disse que recebeu o ofício da Funai e que o pleito está sendo analisado. "Neste momento, portanto, ainda não há manifestação conclusiva do Instituto sobre os questionamentos apresentados. A manifestação formal do IMA sobre os pontos apresentados pela Funai será encaminhada após a conclusão da análise técnica."

O MPF (Ministério Público Federal) informou que mantém um inquérito sobre a usina Nova Erechim e aguarda o resultado de uma perícia ambiental e antropológica.

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Instaurada em fevereiro, a investigação quer esclarecer os efeitos da usina sobre os peixes e os direitos indígenas na bacia. Os peritos deverão avaliar a dependência das comunidades em relação à pesca, os efeitos do barramento sobre a reprodução das espécies e o resultado das medidas de compensação previstas no licenciamento.

O QUE DIZ A ENERBIOS

A Enerbios declarou que, se os 549,8 MW hidrelétricos não forem implantados, a necessidade de energia permanecerá. "Parte dela poderá ser atendida por térmicas a carvão em SC e no RS ou a gás natural, nesse caso com possíveis aumentos de custos que podem ser multiplicados por 5 ou mais vezes, e acréscimo superiores em 60 vezes em termos de emissões", declarou.

A empresa afirmou que quatro empreendimentos seus foram discutidos com indígenas em 2012, em um acordo que prevê repasses de 3% a 5% do resultado líquido da venda de energia às comunidades da Terra Xapecó. A companhia diz que voltou a apresentar os projetos, já modificados, em encontros realizados em 2019 e 2026.

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A Enerbios acrescentou que defende um programa permanente de conservação, reprodução e manejo dos peixes, com participação das hidrelétricas.

A companhia também questiona a origem de uma ação judicial sobre os licenciamentos. A queixa se baseia em um áudio atribuído a uma servidora da Funai, em que a funcionária sugere ter pedido a atuação da procuradoria da Funai contra as usinas, antes mesmo de uma manifestação das comunidades indígenas.

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"Jamais ouvimos dos indígenas nada parecido com suspender licenças de instalação, de operação e processos de licenciamento prévio", afirmou a empresa.

O QUE DIZ A FUNAI

Por meio de nota, a Funai declarou que seu pedido de suspensão das licenças de instalação das usinas Guarani e Nova Erechim se fundamenta em "elementos técnicos relacionados à conservação desses rios e de seus recursos naturais, considerando sua importância para os modos de vida e a reprodução física e cultural dos povos indígenas da região".

Entre os aspectos apontados, disse a fundação, estão a necessidade de preservação de trechos livres de barramentos, importantes para a migração e reprodução de peixes, e a adequada avaliação dos impactos dos empreendimentos sobre os povos indígenas.

O órgão declarou que, em 2023, já havia solicitado informações ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e recomendado ao IMA que não fossem expedidas licenças ambientais antes do atendimento das recomendações técnicas apresentadas.

A Funai afirmou que não recebeu respostas sobre seu pedido, embora tenham sido emitidas as licenças de instalação para as duas usinas. O órgão federal confirmou que também solicitou ao IMA informações sobre o licenciamento ambiental de 20 empreendimentos, incluindo estudos, pareceres e licenças eventualmente expedidas.

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Quanto ao áudio de sua servidora mencionado pela Enerbios, a Funai disse que não teve acesso ao material e, portanto, não pode confirmar seu conteúdo ou contexto.

Segundo a fundação, a servidora "manteve interlocuções com uma liderança da Terra Indígena Xapecó sobre a situação do componente indígena dos licenciamentos ambientais de empreendimentos hidrelétricos no entorno da terra indígena, no exercício de suas atribuições institucionais".

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