Servidores do BC sob suspeita tiveram reuniões com a PF sobre investigação do Master, diz diretor
O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou que os dois ex-integrantes da cúpula do órgão que são investigados por receber pagamentos de Daniel Vorcaro participaram de várias reuniões com a Polícia Federal, na qual discutiram o caso do Banco Master, antes de se tornarem alvos de suspeição.
As afirmações de Aquino foram feitas à PF em maio, quando ele depôs como testemunha em inquérito que trata das investigações contra Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária do BC, e Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização. Os dois, segundo o inquérito, teriam atuado em favor dos interesses de Vorcaro dentro do BC, passando informações sobre a fiscalização do banco.
A PF chegou a fazer buscas e apreensões em endereços de Paulo Sérgio e Belline em março deste ano.
A defesa de ambos os servidores afirma que eles não adotaram medidas de favorecimento ao ex-banqueiro.
No depoimento, Ailton afirma que participou de reuniões com delegados da PF sobre as investigações em curso sobre o Master, e que em uma ocasião o encontro foi registrado na agenda pública do Banco Central, o que gerou interesse de Vorcaro e da imprensa em saber o que estava sendo tratado.
Esse encontro registrado em agenda ocorreu em 8 de outubro do ano passado, pouco mais de um mês antes de o BC decretar a liquidação do Master e Vorcaro ser preso pela primeira vez.
Depois disso, os demais encontros aconteceram de forma reservada.
"Os servidores Belline Santana e Paulo Sérgio participaram de várias dessas reuniões com a Polícia Federal", disse Aquino à PF.
"As reuniões tratavam de potenciais ilícitos identificados no Banco Master, compreendendo duas frentes principais: a primeira relativa às cessões de carteiras de crédito ao BRB, e a segunda relativa aos fundos Bravo [da] Reag."
Procurada e questionada se, à época dessas reuniões, investigadores já suspeitavam de irregularidades relacionadas a Paulo Sérgio e Belline e se houve medidas do órgão para evitar o vazamento de informações sigilosas ao Master, a Polícia Federal não se manifestou.
O advogado de Paulo Sérgio, Odel Antun, afirma que ele não participou de "várias reuniões" com a PF, mas que esteve "ativamente envolvido na identificação, apuração e formalização das duas principais irregularidades apontadas no Banco Master, isto é, tanto no que se refere às cessões de carteiras de crédito ao BRB, quanto à questão do Fundo Bravo e Reag".
Ele diz que, no caso do BRB, Paulo Sérgio e a equipe realizaram trabalho de campo e colheram documentação comprobatória para descrever todas as suspeitas de irregularidades ao Ministério Público Federal, em 15 de julho.
À época, afirma, houve uma reunião com a delegada da PF responsável pelo caso e com um gerente responsável pela supervisão do Banco Master.
A defesa afirma que a outra reunião, que tratava do Fundo Bravo e o risco de operações com ausência de fundamentação econômica, aconteceu após outubro, com o Ministério Público e a PF, "para informar sobre os novos achados e que os fatos resultariam em comunicações de novas irregularidades".
"Nos dois casos, o próprio Paulo Sérgio preparou a representação encaminhada ao Ministério Público Federal, de tal forma que as fases 1 e 2 da Operação Compliance Zero decorreram de prontas ações suas e de sua equipe", diz a defesa.
O advogado diz que a participação de Paulo Sérgio "em nada obstou o prosseguimento das apurações". "Ao contrário, foi o próprio Paulo Sérgio quem defendeu a comunicação dos indícios de gestão fraudulenta, não tendo havido qualquer proteção a interesses de Daniel Vorcaro", diz.
Já a defesa de Belline, representada pelo advogado Leonardo Palazzi, afirma que o depoimento de Aquino "confirma a atuação estritamente funcional e institucional por ele exercida no Banco Central, inclusive na interlocução com a Polícia Federal a respeito de potenciais ilícitos envolvendo o Banco Master".
Belline diz que adotou as providências necessárias para tratar das investigações relacionadas ao Banco Master.
"Esse contexto objetivo não pode ser substituído por ilações a respeito de suposta influência exercida por Daniel Vorcaro, que nunca ocorreu em relação a Santana", afirma o advogado, em nota.
No depoimento à PF, Aquino narrou que havia um ambiente hostil no Banco Central nos meses que antecederam a liquidação do Master e a prisão de Vorcaro. O diretor afirma que havia intensos vazamentos de informações sensíveis.
Por isso, ele disse que manteve em sigilo a decisão de liquidar a instituição financeira de Vorcaro, em novembro do ano passado.
Paulo Sérgio atuou como diretor de Fiscalização do BC entre 2017 e 2023. Meses depois, assumiu o posto de chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária –liderado por Belline de 2019 a 2026.
Funcionários de carreira da instituição, com quase três décadas de casa, contavam com a confiança dos colegas. Como mostrou a Folha, o indício de envolvimento da dupla no caso Master gerou um clima de abatimento e perplexidade entre os funcionários.
Segundo investigações, os servidores do BC são suspeitos de terem atuado como consultores informais de Vorcaro em troca de vantagens indevidas. A evolução patrimonial dos ex-gestores foi o gatilho para a abertura de uma investigação interna no BC.
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