'Cruzada' de Mendonça no STF traz eleitor evangélico de volta pra Flávio Bolsonaro, diz Renato Meirelles

- Author, Marina Rossi
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
Published
Tempo de leitura: 12 min
Entre as idas e vindas, ainda é cedo para saber qual o efeito dessa crise no rumo das eleições que se encaminham para a reta final. Mas, para Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva e do Data Favela, que estuda a classe média brasileira há mais de duas décadas, o Judiciário nas cordas traz um elemento importante que pode se refletir nas urnas.
"Lula não vai perder votos por causa disso. Mas isso dá um ânimo gigantesco ao eleitor bolsonarista que estava dando meio como certa a eleição do Lula", diz.
Outro ponto que ele destaca é o discurso religioso vinculado à crise. Na semana passada, depois que Moraes pediu que Mendonça fosse investigado por abuso de autoridade, Mendonça, que é pastor evangélico, publicou um vídeo em suas redes sociais. Na ocasião, o ministro agradecia as mensagens de "oração e carinho".
"Suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar", dizia.
Em seguida, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também foi às redes prestar solidariedade ao ministro, afirmando que Mendonça é "escolhido e ungido do Senhor".
"Saiba que a amada Igreja o ama! Saiba que existem homens, mulheres, jovens e até crianças que oram, choram e se alegram por você!", escreveu ela.
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Para Meirelles, as publicações apontam para um caminho.
"A crise do Supremo traz para a mesa um outro elemento, que pouca gente está prestando atenção, que é o Flávio Bolsonaro (PL) voltar a ter como cabo eleitoral a massa evangélica", diz.
Para ele, "transformar essa jornada do Supremo em uma cruzada é a forma mais eficiente para que o eleitorado bolsonarista consiga recuperar a força que a Michelle Bolsonaro tinha deixado em cima da mesa."
Nesta entrevista, realizada na quarta-feira (9/9), horas antes de Fachin tomar suas decisões e horas depois de Flávio Dino reverter o afastamento de Andrei Rodrigues da Polícia Federal, Meirelles analisou o cenário sob o ponto de vista do eleitor — especialmente da classe média.
Leia os principais trechos da entrevista:
BBC News Brasil - Como essa crise do Supremo está chegando ao eleitorado?
Renato Meirelles - Por mais que tenha tido uma grande repercussão na televisão e nos jornais, as pessoas estão sabendo de forma picada, primeiro por cortes nas redes sociais, tentando mostrar qual é a versão mais adequada a cada um dos lados.
Essa questão da crise do Judiciário, vai ganhar a narrativa quem chegar primeiro. E por isso está havendo um esforço tão grande das redes sociais para mostrar o lado da história.
Por que as pessoas associam Moraes ao Lula? Por oposição. Como Alexandre de Moraes foi a figura do Judiciário que liderou o processo de julgamento do 8 de janeiro de 2023, [o pensamento é] "se ele botou o Bolsonaro na cadeia, então é porque ele é amigo do Lula".
É uma associação. A gente sabe que não é necessariamente verdadeira, mas essa associação de oposição coloca o Moraes no colo do Lula.
Quando aparecem as ligações dele com o Vorcaro, isso traz um ônus para Lula de um lado e aumenta, por outro lado, uma sensação de injustiça que existia no eleitorado bolsonarista com relação à prisão do ex-presidente.
BBC News Brasil - Mas essa associação que fazem de Moraes com Lula já não é feita por um eleitor que já não votaria em Lula?
Meirelles - Não. A associação de Moraes com Lula é dada como certa para a grande maioria das pessoas.
Mas o que a gente tem que prestar atenção não é se o Lula vai perder votos com isso. Eu, sinceramente, acho que não. O Lula não vai perder votos por causa disso. Mas isso dá um ânimo gigantesco ao eleitor bolsonarista que estava dando meio como certa a eleição do Lula.
O que a gente via nos grupos de pesquisa realizados pelo Instituto Locomotiva é que dificilmente o presidente Lula perderá muitos votos por conta dessa crise do Supremo. Mas, efetivamente, a briga contra o Supremo sempre foi algo que mobilizou a extrema direita no Brasil. Uma extrema direita que estava meio cabisbaixa, meio achando a eleição perdida, que apareciam nos grupos teorias como "essa eleição já está armada, já está tudo combinado, nós temos que pensar na nossa estratégia para outra eleição presidencial".
BBC News Brasil - E o que mais você vê nesses grupos qualitativos?
Meirelles - Quando nós olhamos o eleitorado dito de terceira via, que não vota nem em Lula, nem no Flávio Bolsonaro, a gente encontra um eleitor cansado. Um eleitor que não estava mais aguentando as brigas de finais de semana. Um eleitor que foi um pouco responsável por esse breve crescimento do Augusto Cury (Avante), que é diferente de um eleitor mais raivoso, como é o eleitor do Renan Santos (Missão).
Por outro lado, ao ouvir pessoas que não têm nenhuma disposição de mudar de voto na extrema direita, a gente também encontrava um eleitor meio desiludido, um eleitor que já tinha jogado a toalha.
A crise do Supremo traz para a mesa um outro elemento,que pouca gente está prestando atenção, que é o Flávio Bolsonaro voltar a ter como cabo eleitoral a massa evangélica.
Desde o seu desentendimento com a Michelle Bolsonaro, o Flávio tinha perdido a adesão engajada do eleitor da Michelle.
A Michelle é uma das figuras com maior competência para falar para essa mulher de baixa renda, essa mulher engajada.
Quando o André Mendonça se coloca nessa briga, o que os eleitores evangélicos encontram é um irmão de fé precisando de ajuda. Não é à toa que os pastores, de repente, começaram a aparecer na campanha. Não é à toa que André Mendonça fala que existe um preconceito religioso contra ele.
Transformar essa jornada do Supremo em uma cruzada é a forma mais eficiente para que o eleitorado bolsonarista consiga recuperar a força que a Michele Bolsonaro tinha deixado em cima da mesa.
BBC News Brasil - Do ponto de vista do eleitor, o que é o mais importante neste momento?
Meirelles - São os evangélicos entrando na campanha.
Aqui no Locomotiva, nós estamos monitorando o dia a dia eleitoral através de pesquisas qualitativas. E o que começa a ficar claro, especialmente entre os eleitores que não são nem Lula nem Flávio, é que a ideia de prender o policial que botou o Vorcaro na cadeia não pega bem.
O que a população quer é que tudo seja colocado em pratos limpos, que os sigilos sejam levantados para todos. E na medida em que alguém afasta um juiz, é porque está com medo que alguma coisa apareça.
BBC News Brasil - Quando você fala em prender o policial e afastar um juiz, você está falando de um eventual desdobramento relacionado ao afastamento do Andrei Rodrigues da PF, certo?
Meirelles – Isso.
BBC News Brasil – Especialistas dizem que não é o caso Lulinha que vai decidir a eleição, é a economia. O avanço da crise no Supremo muda essa avaliação?
Meirelles - A gente vive um jogo de xadrez no início da reta final da campanha. Nós temos Flávio Dino cassando a liminar do André Mendonça. Temos uma declaração do presidente Lula falando "levanta os sigilos de todo mundo", o que mostra uma postura diferente do Lula de outras épocas.
Lula está indo para a ofensiva com relação à temática da corrupção. Tinha sido assim quando falou do Jacques Wagner, tinha sido assim quando falou do próprio Lulinha, do próprio filho, e mais uma vez tomou uma postura de "quem não deve, não teme".
Qual será a reação do Flávio? A reação do Flávio ajuda a decidir para onde vamos com tudo isso. A economia é um tema importante, sim. A vida real, a vida cotidiana, é algo muito importante para a eleição.
Acontece que a pauta eleitoral não é decidida unicamente pelos seus atores. A pauta eleitoral se impõe. E quando você tem uma crise da magnitude que nós estamos tendo, em que ministros do Supremo trocam bate-boca na Corte, você tem um cenário bastante incerto sobre para onde vamos.
Numa eleição na qual todos os analistas, sem exceção, sabem que será decidida por dois ou três pontos de diferença, qualquer resultado é incerto. Tudo pode acontecer numa eleição tão apertada, independentemente do favoritismo.
A economia é um fator importante. Se a economia não estivesse caminhando bem, a situação para o governo seria muito pior. O grau de irritação dos eleitores seria muito maior do que o que nós temos hoje com relação ao governo.

Crédito, Alexandre Meneghini/Reuters
BBC News Brasil – As pessoas estão sentindo que a economia está indo bem?
Meirelles - Existe uma diferença na sensação térmica da economia, entre o que o termômetro mostra, que são os indicadores macroeconômicos, e o que a população sente dessa temperatura.
A população está sentindo que está difícil pagar as contas. Nós temos um índice de inadimplência muito grande. Nós tivemos o [programa] Desenrola que não chegou a todos que poderiam ter chegado, uma taxa de juros gigantesca que leva a uma bola de neve no endividamento das pessoas.
Nós temos o dinheiro das bets sendo escoado do orçamento familiar desses brasileiros. E isso faz com que o governo não consiga capitalizar os resultados econômicos eleitoralmente, porque na vida real não é dessa forma que a população tem sentido.
Nesse cenário, a discussão que fica é quem é capaz de tirar o Brasil do rumo que ele está tomando. Os brasileiros não gostariam que o Brasil continuasse crescendo nessa velocidade. Eles queriam uma grande mudança no Brasil.
Acontece que política não é só demanda, política também é oferta. E a oferta que está dada é a do Flávio Bolsonaro, um candidato com rejeição maior do que a do presidente Lula, e que está longe de representar a mudança, na medida em que seu pai foi presidente da República.
BBC News Brasil - Você começou a estudar a classe média quando a classe média era lulista. O que aconteceu com ela?
Meirelles - O presidente Lula tem tido dificuldade em dialogar com a classe C que ele mesmo a criou. Com uma classe C fruto do aumento real do salário mínimo, uma política implementada por ele, uma classe C que passou a ter os filhos entrando na universidade.
E por que isso aconteceu? Porque em determinado momento a economia parou de crescer. Nós passamos a ter uma crise muito grande, não só na economia, mas na perspectiva de futuro dessas pessoas.
O primeiro momento em que essa crise se manifestou foi nas jornadas de 2013, mas elas continuaram nos anos seguintes, continuaram no governo Temer e no governo Bolsonaro.
Agora nós temos uma classe C que se divide: os mais velhos votam no Lula porque são gratos pelo passado do que o Lula ofereceu, as mulheres votam no Lula porque elas são as beneficiárias dos programas sociais e elas buscam, antes de tudo, uma estabilidade no seu dia a dia — e o Lula é o que elas já conhecem —, mas nós temos um homem que vota no Bolsonaro por causa das questões de segurança e das questões relacionadas a costumes.
E um mais jovem que não sabe direito em quem vota, porque não confia em nada disso que está aí.
Meirelles - Vamos olhar para esses jovens: parte da juventude foi vivida na pandemia. A outra parte, na Lava Jato. É um jovem que cresceu sabendo que teria direito ao ProUni. Então, o ProUni não é mais algo dado pelo governo, é uma obrigação social, é um direito adquirido.
Esse jovem está sem referências na esquerda e não gosta também muito das referências da direita. É um jovem que não sabe direito para onde ir.
Esse jovem hoje está sendo fortemente disputado porque é ele o fiel da balança da classe C. E quem ganhar na classe C vai ganhar a eleição presidencial.
BBC News Brasil - Quando você fala em classe C, você está falando em qual faixa salarial hoje?
Meirelles – Em média, R$ 3,5 mil de renda familiar. A classe C hoje responde por 53% do eleitorado brasileiro. São brasileiros que já melhoraram e pioraram de vida, que hoje enfrentam uma crise de perspectiva, não enxergando em nenhum dos dois candidatos favoritos a solução efetiva para o seu problema.
É uma classe C que cresceu graças ao emprego formal e ao aumento real do salário mínimo, mas hoje quer empreender, desenvolver seu próprio negócio, ser dona do próprio tempo.
Se no passado conquistar a classe C passava por prometer um consumo maior e mais amplo, hoje conquistar a classe C passa necessariamente por prometer o direito ao próprio tempo. A dignidade que antes estava no consumo, agora está no relógio. Essa dignidade de poder decidir se vai ou não poder levar a filha ao médico, que horas vai chegar em casa, se ele pode folgar dois ou três dias na semana.
O discurso relacionado à corrupção coloca, na visão da classe C, todos os políticos no mesmo saco.
O discurso sobre a redução da jornada 6x1 leva essa classe C para o colo do Lula. O discurso sobre a redução da maioridade penal leva essa classe C para o colo do bolsonarismo.

Crédito, Ricardo Funari/Brazil Photos/LightRocket via Getty Images
BBC News Brasil – Lula tem feito um grande esforço junto ao Senado para aprovar a redução da escala 6x1 antes da eleição. Mas a gente está falando de uma classe social empreendedora, que trabalha na escala 7x0. O quanto, de fato, a redução da jornada de trabalho pode influenciar essas pessoas?
Meirelles – A redução da escala 6x1 é a bandeira política de maior influência na eleição. Eu explico o porquê: Se é verdade que parte da classe C está trabalhando no seu empreendimento ou está trabalhando na informalidade, também é verdade que dificilmente nós encontramos lares do Brasil que não tenham pelo menos um trabalhador na jornada 6x1.
A grande maioria dos lares brasileiros tem pelo menos uma pessoa trabalhando na jornada 6x1. E esse tempo que essa pessoa passa a ganhar é para passar com a família. A família que não trabalha no 6x1 ganha com isso. Se essa pessoa for promover uma renda extra, essa renda extra vai para casa.
Como o tempo é a moeda, todos aqueles que irão se beneficiar pelo tempo ganham com isso.
BBC News Brasil – O agregador de pesquisa da BBC News Brasil mostrou nesta semana que Flávio passou Lula no segundo turno pela primeira vez...
Meirelles - Lula meio que jogou parado durante um tempo dessa campanha eleitoral, surfando no escândalo do Banco Masters e no caso do Dark Horse. Isso fez com que Flávio Bolsonaro caísse um pouco e desse a ilusão de que a eleição estava mais fácil do que realmente estava.
Como qualquer ciclo de notícia negativa, esse eleitor que se afastou num determinado momento acaba voltando. E ao voltar, essa distância entre Lula e Flávio efetivamente diminui. Flávio está recuperando os votos que já foram do pai dele. Não tem nada além disso.
E Lula, por mais que ele não caia substancialmente, também não cresce substancialmente. Ele fica lá oscilando, ora para mais, ora para menos.
A questão é que o governo não foi capaz de pautar a eleição.
Qual é o tema da eleição? Até antes do escândalo do Supremo, nós não sabíamos se ia ser economia ou se ia ser costumes, por exemplo.
Achávamos que era o Dark Horse. Agora não é mais o Dark Horse. Agora é o escândalo do Supremo.
Imagina um eleitor da coluna do meio. Ele é um eleitor que acha um absurdo o que aconteceu no Supremo Tribunal Federal. Ele acha um absurdo um juiz receber dinheiro do Banco Master e do Vorcaro para defender os interesses do banco. Aí ele se torna um eleitor contra o Supremo. Um eleitor antissistema.
Mas qual é a solução que hoje é apresentada para ele? Votar num candidato que também recebeu dinheiro do Banco Master.
Então, é uma situação de incerteza, porque aquele que poderia mais se beneficiar de um ataque ao Supremo, porque efetivamente foi quem mais criticou o Supremo nos últimos anos, não tem condições de fazer isso, tem telhado de vidro relacionado ao Banco Master.
As pesquisas de segundo turno agora servem para pouca coisa. Servem mais para entender os ventos. Estão longe de ser mesmo um retrato nessa situação. É um retrato de um movimento para onde está indo, mas tem muita água para rolar daqui até o dia da eleição.
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