Nazismo: "Para o meu pai, a pena de morte foi acertada"

O pai foi enforcado faz este mês oitenta anos. Niklas tinha 7 e vivera até então como um “príncipe num castelo”: o filho do ministro da Justiça da Baviera durante o Terceiro Reich e governador-geral da Polónia, integrante do círculo mais próximo de Hitler. Publicado pela primeira vez em 1987 e editado agora em Portugal (ed. Zigurate), o livro O Meu Pai: Uma Vingança é uma longa carta que o filho de Hans Frank — conhecido como “o carrasco da Polónia” — lhe dirige, fruto de muitos anos de pesquisa, consulta de documentos e entrevistas feitas a quem o conheceu.
No livro, fala da vida íntima, familiar e política do pai, denuncia a vida de corrupção sistemática como forma de enriquecimento ilícito da elite nazi, em que a lei se dobrava aos interesses da vida de luxo que levavam. Descreve os meandros do poder, onde chega a referir, por exemplo, que o pai era pouco dado ao trabalho, à semelhança do que veio agora afirmar em relação a Hitler um livro da autoria do alemão Philipp Ruch, Der Rückfall (A Recaída, em tradução literal). Pormenoriza as atrocidades cometidas pelos nazis, chamando-os de “cobardes” e “sem perdão”, lembrando, sempre, os milhões de judeus — e não só — inocentes levados para as câmaras de gás, mas referindo também as purgas do próprio sistema, que se livrava de opositores ao regime sem qualquer dó.
Fala do avô, advogado, expulso da profissão, manipulador de mulheres. Fala da mãe, calculista e ambiciosa, amante de peles e que simplesmente as usurpava, ou porque pertenciam a judeus a caminho do campo de concentração, ou porque no mercado de Varsóvia ninguém se atrevia a pedir-lhe dinheiro por elas. Também ela, Brigitte Frank, foi protagonista de um livro de Niklas (2005), intitulado Meine Deutsche Mutter (Minha Mãe Alemã, numa tradução literal). Num tom magoado, zangado e satírico, O Meu Pai — Uma Vingança é um livro contra o silêncio.
▲ Título: "O Meu Pai: Uma Vingança" | Autor: Niklas Frank | Tradução: Pedro Serpa | Editora: Zigurate | Páginas: 328
Este mês de outubro marca os 80 anos desde que o seu pai morreu, após os julgamentos de Nuremberga. O que tem a dizer sobre este marco?
Era a noite de 16 de outubro de 1946, e sei que ele merecia a pena de morte. Sou totalmente contra a pena de morte. Mas, para o meu pai, foi a decisão acertada, na minha opinião.
Tinha apenas sete anos. No início do livro, descreve que sentia uma espécie de prazer ao contar as noites que faltavam até à sua morte. Mas, naquela altura, não sabia grande coisa sobre o que ele tinha feito. Como explica esse sentimento?
Naquela altura, penso que por volta de 1945, os americanos que ocuparam a Baviera após a guerra publicavam jornais. Nesses jornais, havia fotografias de cadáveres, montanhas de cadáveres de judeus mortos nos campos de concentração. E debaixo dessas fotografias estava sempre escrito: “Polónia”. Sempre pensei que a Polónia fosse propriedade privada da família Frank, especialmente do meu pai. E, de repente, ele estava ligado àquelas montanhas de cadáveres. E isso causou-me, diria eu, um choque que me marcou para toda a vida.
Ainda tem a foto do seu pai morto?
Sim, mas não no bolso do casaco.
Porquê?
Para ter a certeza de que ele está mesmo morto. Por outro lado, se olhar para a fotografia, de repente vejo-o a rir, a sorrir, com um sorriso de orelha a orelha, porque ele vai vencer. Acho que a sua maldita ideologia, ou a maldita ideologia de Hitler e de todos os outros criminosos, está agora a vencer novamente na Alemanha.
Já lá vamos. Disse no seu livro que, quando era adolescente, não procurou saber muito sobre o seu pai. Como era viver na Alemanha do pós-guerra? Como era a vida naquela altura, tal como se lembra?
Na adolescência, eu estava num colégio interno. Ninguém se atrevia a perguntar “por favor, conta-me o que realmente aconteceu”, “o que viveste durante o regime de Hitler?”, porque, no mínimo, já não te davam o jantar.
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