Cientistas estudam células de brasileiros com mais de 110 anos para investigar longevidade
Cientistas brasileiros estão estudando células de pessoas com 100 anos ou mais para entender os mecanismos que podem favorecer a longevidade e um envelhecimento saudável, segundo estudo publicado na revista científica Genomic Psychiatry.
O projeto, liderado por Mayana Zatz, do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP), já reuniu amostras de 230 centenários e 21 supercentenários. A meta é chegar a 500 participantes de diferentes regiões do Brasil.
A partir de amostras de sangue, os pesquisadores conseguem produzir em laboratório células de músculos, sistema nervoso, coração, pulmões e sistema imunológico. A estratégia permite estudar características biológicas dos participantes sem precisar retirar tecidos desses órgãos.
O objetivo não é encontrar uma única fórmula para viver mais. Os cientistas investigam diferentes combinações de genética, ambiente e hábitos de vida que podem explicar por que determinadas pessoas mantêm o organismo mais resistente mesmo em idades extremas.
Como células do sangue são transformadas em outros tecidos?
A pesquisa utiliza as chamadas células-tronco pluripotentes induzidas, ou células iPS. Nesse processo, células adultas obtidas por meio de uma amostra de sangue são reprogramadas em laboratório para retornar a um estado semelhante ao embrionário.
Depois, com os estímulos adequados, elas podem se transformar em diferentes tipos celulares. Os pesquisadores conseguem, por exemplo, produzir fibras musculares ou neurônios com o material genético de um supercentenário.
A técnica cria uma espécie de modelo personalizado para investigar características relacionadas ao envelhecimento e também pode ser utilizada em estudos de doenças e de possíveis tratamentos.
Uma das linhas do projeto analisa os músculos, que exercem funções metabólicas e endócrinas e sofrem alterações importantes com o avanço da idade.
Os pesquisadores pretendem comparar o genoma de supercentenários que preservaram melhor a musculatura para identificar variações que possam estar relacionadas a essa resistência.
Sistema imunológico pode guardar pistas da longevidade
Outra frente é conduzida em colaboração com Ana Caetano Faria, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A equipe investiga a chamada imunobiografia, ou seja, como as experiências acumuladas ao longo da vida ficam registradas no funcionamento do sistema imunológico.
Com o envelhecimento, o organismo tende a perder eficiência e pode desenvolver um estado de inflamação crônica de baixa intensidade. Nos indivíduos extremamente longevos estudados, esse processo aparece de forma atenuada.
Os cientistas também observam mecanismos de compensação. Com a idade, ocorre uma redução dos linfócitos T, células que reconhecem ameaças específicas, como vírus, bactérias e células tumorais.
Em pessoas centenárias, essa perda pode ser parcialmente compensada por uma maior presença de células NK, ou natural killers, que também participam da eliminação de células infectadas ou alteradas.
Microbiota muda, mas pode preservar suas funções
A microbiota é outro componente investigado. A composição dos bilhões de microrganismos presentes no organismo muda ao longo da vida. Entre centenários, as espécies encontradas podem ser diferentes daquelas presentes em pessoas jovens.
Apesar disso, os pesquisadores observaram que esses microrganismos conseguem desempenhar muitas das mesmas funções encontradas na microbiota de indivíduos mais novos.
A descoberta reforça uma das ideias centrais do projeto: pessoas podem chegar à longevidade extrema por diferentes caminhos biológicos, sem a existência de um perfil único compartilhado por todos.
Diversidade brasileira pode ajudar a encontrar diferentes caminhos
Os participantes vêm de diferentes regiões, condições socioeconômicas, origens e histórias de vida. Essa diversidade interessa aos pesquisadores porque permite procurar diferentes variações genéticas associadas à capacidade de resistir aos efeitos do envelhecimento.
A equipe busca características que possam contribuir, por exemplo, para preservar músculos, regular a resposta imunológica ou enfrentar infecções com maior eficiência.
Os pesquisadores ressaltam que a longevidade não depende apenas dos genes. Condições ambientais e hábitos acumulados durante a vida também participam desse processo.
Por isso, o trabalho não procura um alimento, medicamento ou exercício capaz de prolongar a vida isoladamente. A proposta é compreender as diferentes combinações biológicas e ambientais que permitem a algumas pessoas chegar aos 100 ou 110 anos mantendo mecanismos de resistência ao envelhecimento.
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