Os dois novos polos na política de Inteligência Artificial

Continua a ser para mim um mistério que, no campo da Inteligência Artificial (IA), o discurso público sobre riscos catastróficos e sobre a velocidade de desenvolvimento desta tecnologia só agora tenha chegado às capas dos jornais. A história a que temos vindo a assistir nos últimos 10 anos tem sido surpreendente: ao contrário do que poderíamos esperar de um enredo habitual de ficção científica, esta tecnologia foi desenvolvida praticamente em público, e não em bunkers ou laboratórios secretos. Agora que o assunto é popular, a indústria de formação de opinião já se começa a mobilizar e a polarizar. Mas estes debates não são de agora.
Quem quiser fazer uma pesquisa, poderá encontrar no ArXiv, disponível para todos, muitos dos artigos científicos fundacionais da IA atual. No X podemos encontrar muitos investigadores, atualmente ou anteriormente pertencentes às grandes empresas, a discutir abertamente o futuro da humanidade. Se não aí, em fóruns abertos como o LessWrong ou o Alignment Forum, que antecederam em anos as próprias empresas. Enquanto tudo isto acontecia e as capacidades se multiplicavam em ordens de magnitude, encontrámos várias vozes a desvalorizar a qualidade do trabalho feito pela IA, num exercício de total incapacidade de simplesmente ler a tendência. Essas vozes são cada vez menos relevantes. E ainda bem.
Com toda a publicidade de hoje, irão ganhar relevância dois campos opostos que, ainda que sejam internamente muito diversos, se parecerão com dois monólitos. Um será o ‘’aceleracionista’’. Ray Kurzweil, um conhecido futurista, previu ainda em 1999 que a Inteligência Artificial ultrapassaria a capacidade humana em 2029, e que isso criaria uma nova utopia. Do outro lado podemos encontrar o autor de muitas das teorias discutidas sobre o ‘’alinhamento’’ da IA com valores humanos, Eliezer Yudkowsky. Yudkowsky, um chamado ‘’doomer’’, está convencido, pelo contrário, de que a extinção da humanidade é o desfecho por defeito de construir estes sistemas.
Depois, há os braços mais politizados que se limitam a cumprir agenda. Estou certo de que, como uns já começam a identificar, a indústria do ativismo depressa pegará neste tema para reciclar temas habituais de anti-americanismo e anti-capitalismo. Yudkowsky, ironicamente um libertário de origem, decidiu, por isso, convencer Bernie Sanders a alinhar no campo ‘’doomer’’, e com sucesso.
O outro braço politizado da aceleração vem de alguns setores próximos da atual administração. Marc Andreessen, investidor e um importante financiador de Trump, escreveu que o receio de extinção é um pânico moral e que a IA salvará o mundo, arrumando as reservas na categoria do ludismo moderno. Nas últimas eleições americanas, apostou todas as fichas nos republicanos, na esperança de que a sua abordagem venceria.
É importante perceber o padrão. Cada um destes campos, ainda que com origens legítimas, encontrou, nos argumentos técnicos, a confirmação daquilo em que já acreditava. Quem desconfiava do poder empresarial americano descobriu na IA a sua forma final. Quem desconfiava da regulação descobriu na IA a prova de que o Estado se prepara, mais uma vez, para travar o progresso. Entre estes dois polos, há um grande número de perspectivas e posições que devem merecer a nossa atenção: há riscos reais e muita incerteza quanto às consequências da IA.
Para a Europa, isto devia ser motivo de cuidado. Os polos que aqui descrevi são americanos. Discutem uma tecnologia que é construída nos Estados Unidos, com capital americano, sob direito americano. Por circunstância do seu declínio, a Europa não se encontra em nenhum dos dois lados desta discussão. Não tem laboratórios de fronteira para acelerar, nem tem jurisdição sobre os que existem para travar. Na Europa, subsiste apenas o hábito de importar a polarização americana com dois anos de atraso.
E o resultado dessa importação é previsível. Poderemos passar os próximos anos a discutir se a IA nos extingue ou nos salva, enquanto nenhuma instituição portuguesa ou europeia adquire aquilo de que realmente precisa: capacidade técnica própria para verificar o que estes sistemas conseguem fazer, bem como construir a capacidade de reação, decisão e segurança nos próprios Estados. Para isso, seria bom olhar para o Reino Unido, que dedica muito mais tempo a estudar modos de governança e regulação possíveis do que a disparar legislação nova. Hoje, o AI Security Institute é uma referência internacional em políticas públicas de IA. E, para além disso, não podemos ignorar a necessidade de adoção rápida de IA. Nenhum Estado regula com competência uma tecnologia que não sabe utilizar, e não é possível construir a infraestrutura institucional sem contacto direto e constante com a tecnologia.
A Europa não tem um lugar à mesa no debate sobre IA, e não é o AI Act que lhe vai dar essa prerrogativa. Em julho, seis dias antes de entrarem em vigor as obrigações do AI Act para sistemas de alto risco, a União adiou-as, e bem, para dezembro de 2027 e agosto de 2028. O motivo invocado foi que os Estados-membros não tinham sequer designado as autoridades nacionais competentes e as normas técnicas não estavam prontas. Um sintoma claro da ausência de recursos humanos e capacidade técnica em toda a Europa.
Não admira, por isso, que a Europa não seja um ator diplomático relevante no embate entre Estados Unidos e China. Neste momento, tem de escolher: ou aproveita esta tecnologia rapidamente e ganha um lugar à mesa, ou ficará para a história como um espectador interessado. Se quiser evitar esse debate, é bom que ultrapasse rapidamente os pânicos de vários sentidos e ponha mãos ao trabalho.
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