‘Gil – Andar com Fé’ faz da vida de Gilberto Gil um espetáculo de cores, música e memória

Musical estrelado por Gui Ventura e direção de Miguel Falabella transforma o legado de Gilberto Gil em experiência visual e musical
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
Os números de Gilberto Gil impressionam. São mais de 50 álbuns lançados, mais de seis décadas de carreira e, aos 84 anos, o artista continua levando multidões aos shows. Diante de uma trajetória tão extensa, atravessada por música, política, exílio, encontros e reinvenções, seria difícil imaginar que sua primeira biografia teatral pudesse dar conta de tudo. Gil – Andar com Fé entende essa impossibilidade e encontra outro caminho: em vez de tentar resumir uma vida inteira, recupera sua essência e transforma o legado de Gil em uma experiência de palco marcada por música, cor, movimento e um encantamento constante.
Com texto de Newton Moreno e direção de Miguel Falabella, o musical parte do exílio em Londres, durante a ditadura militar, para revisitar diferentes momentos da trajetória do artista. A narrativa volta ao sertão de Ituaçu, na Bahia, passa por sua formação em Salvador, pelos palcos do Rio de Janeiro e de São Paulo, pela Tropicália, pela prisão, pelo retorno ao Brasil e por outras fases de uma carreira que se confunde com a própria história cultural do país. É uma jornada ambiciosa, que encontra sua maior força não necessariamente na tentativa de organizar todos esses acontecimentos, mas na maneira como transforma memória e legado em imagem, movimento e música.
A primeira parte é justamente onde esse percurso encontra mais dificuldades. Concentrada sobretudo na figura de Gil como homem exilado, a montagem apresenta acontecimentos, personagens e referências em uma sucessão que por vezes carece de organicidade. A entrada de figuras como Caetano Veloso (Henrique Zamith), Gal Costa (Pamella Machado), Maria Bethânia (Calu Manhães), Luiz Gonzaga, João Gilberto e tantos outros reforça a dimensão coletiva da trajetória de Gil, mas também faz com que o roteiro precise correr para acomodar décadas de história. Na segunda metade, porém, o espetáculo encontra um ritmo mais natural e passa a confiar mais nos encontros, nos afetos e, principalmente, nas canções para conduzir a narrativa.
É nesse movimento entre tempos que surge o Tempo-Rei (Guga Barbosa), espécie de guia da viagem e elo entre diferentes fases da vida de Gil. O recurso permite que passado e presente coexistam no palco e que o encontro entre o Gil jovem e o artista já consagrado escape da estrutura convencional de uma biografia. Gui Ventura, por sua vez, encontra uma solução particularmente interessante para interpretar o protagonista: não tenta simplesmente reproduzir Gilberto Gil. Em vez de uma imitação de trejeitos e gestos, cria o seu próprio Gil, com uma interpretação que preserva a essência do artista sem apagar a presença do ator. A escolha dá mais personalidade ao personagem e transforma a atuação em uma espécie de homenagem construída a partir da devoção, mas também da liberdade.
É preciso destacar ainda que o espetáculo sempre mantém o domínio de sua dimensão visual. A cenografia de Natália Lana, os figurinos, os jogos de luz e os diferentes elementos cênicos fazem do palco um espaço em permanente transformação. Gil – Andar com Fé abusa das cores e das luzes — no melhor sentido — e vai se tornando um verdadeiro deslumbre aos olhos. As coreografias também são fundamentais nessa construção: os artistas ocupam os espaços com uma energia que, em determinados momentos, remete a um palco circense, preenchendo cada canto e fazendo do movimento uma parte essencial da narrativa. É uma montagem que entende que, para falar de Gil, não basta reproduzir suas músicas; é preciso criar um universo que tenha a mesma liberdade, mistura e vitalidade.
E as músicas são, evidentemente, o coração dessa celebração. De “Eu Vim da Bahia” a “Andar com Fé”, passando por “Aquele Abraço”, “Domingo no Parque”, “London, London”, “Tempo-Rei”, “Se Eu Quiser Falar com Deus”, “Punk da Periferia”, “Back in Bahia”, “Palco”, “Realce” e “Toda Menina Baiana”, as canções aparecem ligadas a diferentes momentos da trajetória do artista e ajudam a construir um retrato que nunca cabe em uma única definição. Entre tantas faixas conhecidas, “Drão” é um dos momentos mais emocionais, justamente por trazer a dimensão íntima da relação de Gil com Sandra Gadelha. A homenagem aos filhos que o artista perdeu, Pedro e Preta Gil, também está entre os momentos mais delicados da montagem, quando a celebração abre espaço para a saudade.
No fim, Gil – Andar com Fé entende que contar a história de Gilberto Gil também significa falar de um Brasil feito de encontros, contradições, transformações e reinvenções. A montagem não se limita em organizar de maneira definitiva uma trajetória tão vasta. Seu mérito está em outra coisa: transformar esse legado em espetáculo. Cores, corpos, luzes, cenografia, coreografias e músicas se encontram para criar uma experiência que vai além da biografia e se aproxima da celebração. É quando Gil – Andar com Fé deixa de tentar explicar quem foi Gil e simplesmente permite que o público sinta a dimensão de sua obra e de sua pessoa.
Serviço
Local: Teatro Santander
Endereço: Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 – Complexo JK Iguatemi – São Paulo
Sessões: quintas e sextas, às 20h; sábados, às 16h e 20h; domingos, às 15h e 19h
Duração: 2h20, mais intervalo de 15 minutos
Classificação etária: 12 anos
Ingressos: Sympla
Acessibilidade: todas as sessões possuem audiodescrição e Libras.
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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.
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