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Wednesday, October 28, 2026

Um ano após operação mais letal do país, investigação segue sem conclusão; morador relembra retirada de corpos

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Na manhã de 28 de outubro de 2025, Wellington Brito, 20, mandou uma mensagem à mãe pedindo que fosse buscá-lo. Ele estava encurralado na mata da Vacaria, no alto da Penha, na zona norte do Rio. Foi um dos 122 mortos da Operação Contenção, a ação policial mais letal da história do país.

Um ano depois, a investigação sobre as mortes reuniu centenas de depoimentos e laudos, mas ainda não foi concluída. O Ministério Público do Rio ouviu 255 agentes e produziu 117 laudos com escaneamento 3D dos corpos, segundo documentos obtidos pela Folha. A Polícia Federal concluiu a perícia nas câmeras corporais dos policiais civis, mas ainda não periciou as gravações da PM.

A investigação da Promotoria começou em 1º de novembro de 2025, quatro dias depois da operação, e corre sob sigilo. Em análise preliminar das câmeras de 51 policiais do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), unidade que atuou na mata onde foi achada a maior parte dos corpos, foram encontrados indícios de obstrução intencional da imagem em 7,8% dos casos.

Praça São Lucas, Penha

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Rua ao lado da praça São Lucas, na Penha, onde moradores enfileiraram corpos retirados da mata após a Operação Contenção, em 29 de outubro de 2025, e a mesma rua durante festa de Dia das Crianças, em 12 de outubro de 2026 - Eduardo Anizelli/Folhapress

Até agora, o Ministério Público ofereceu doze denúncias contra 28 PMs, todas recebidas pela Justiça, por crimes como peculato, furto, violação de domicílio, roubo qualificado e recusa de obediência. As mortes seguem sob apuração.

A ação das polícias Civil e Militar nos complexos do Alemão e da Penha contra o CV (Comando Vermelho) deixou, entre os mortos, cinco policiais. Procurados por email nos dias 15 e 21 e nesta segunda-feira (26), a PM, a Polícia Civil e o governo do estado não responderam aos questionamentos da reportagem.

Na ocasião, a avaliação da gestão era que a operação tinha sido um sucesso e que de vítimas "só houve os policiais", como definiu o então governador Cláudio Castro (PL). A visibilidade impulsionou a eleição dos chefes das duas polícias.

Grande parte dos corpos foi retirada por moradores da Vacaria. A reportagem voltou ao local neste mês. Erivelton Vidal, 49, nascido na Penha, estava entre os que subiram. Ele aponta a escada de acesso à mata: "E essa escada aqui ficou conhecida mundialmente. O drone da polícia filmou os meninos [suspeitos] subindo aqui. E todos que subiram aqui, nenhum deles voltaram. Todos morreram", disse.

Na noite do dia 28, ele convocou moradores pelos grupos de mensagem. "Começamos a jogar nos grupos. Pessoal, quem for parente aí de alguém, a gente está aqui no alto, a gente chama de cabaré ali, né? A gente tá aqui no alto do cabaré. Pode vir pra cá, para ajudar a gente aí, para a gente procurar os parentes de vocês."

Sem luz na mata, os moradores improvisaram. "Pedi que todo mundo acendesse a luz do celular para dar uma clareada, porque estava muito escuro. E a gente começou a fazer tipo um panelaço. Sai pra rua morador, sai pra rua morador, batendo garrafa, batendo isopor, panela."

Segundo ele, os tiros continuaram enquanto procuravam os corpos.

Suspeito morto na mata da Vacaria na Penha

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Suspeito morto na mata da Vacaria na Penha e o mesmo local em outubro de 2026 - Eduardo Anizelli/Folhapress

Tauã Brito, mãe de Wellington, guarda a mensagem do filho. "Meu filho ficou encurralado lá na mata da Vacaria. Sei disso porque ele me mandou mensagem umas 8h da manhã da terça-feira pedindo ajuda. Disse: ‘Mãe, vem aqui, vem me buscar’." O corpo dele foi encontrado na madrugada do dia seguinte, com cordas nos pulsos.

Ela se mudou para Rio das Ostras, na Região dos Lagos, onde vende bolos e doces. Por meses, hesitou ao responder quantos filhos tem. "Eu nunca falo que eu tenho só a Maria. Isso aí, eu me questionei muito sobre isso, né? Quantos filhos você tem? Aí eu ficava, meu Deus, o que é que eu respondo agora, né? Mas eu falo, eu tenho dois filhos. O Wellington não deixou de ser meu filho."

Também passou a fazer reuniões mensais com mães que perderam os filhos em operações. "É uma forma de não deixar eles serem esquecidos", disse.

Erivelton relembra a busca pelos corpos. Ele afirma ter encontrado seis corpos empilhados numa vala. "Acho que era para transmitir algum recado de crueldade. Não tem lógica botar um corpo em cima do outro", diz.

Relembra ter encontrado um corpo decapitado, com a cabeça fincada num tronco. Na época, Cláudio Castro disse que não acredita que policiais tenham feito isso. Erivelton rejeita a versão. "Falaram que quem cortou a cabeça do rapaz foi o tráfico para chamar a atenção. Falei, cara, não tem lógica o tráfico parar, no meio de um tiroteio, e cortar a cabeça do rapaz e para chamar a atenção."

Em 8 de outubro, o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), enviou à PGR (Procuradoria-Geral da República), sob sigilo, 118 laudos da PF. Doze tratam de vídeos da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais), tropa de elite da Polícia Civil, e 106 foram feitos a partir de fotos e laudos cadavéricos das vítimas.

As 4.500 horas de gravação da PM ainda não foram periciadas. Em abril, Moraes deu dez dias para o governo do Rio e o Ministério Público indicarem os trechos relevantes. A Promotoria respondeu que só poderá fazer isso ao fim da investigação, quando será possível "individualizar, de forma precisa e objetiva, o interesse e a força probatória" das provas.

Depoimentos e câmeras

Até 22 de setembro, além dos agentes públicos, a Promotoria havia ouvido 45 familiares de vítimas. Segundo o órgão, 203 policiais militares atiraram durante a operação.

A análise de gravação das câmeras das polícias não terminou. O Ministério Público diz ter identificado novos casos de retirada, obstrução ou uso inadequado dos equipamentos, mas ainda sem número consolidado.

Parte das denúncias trata disso. Um sargento é acusado de ter removido a câmera do corpo em pelo menos dez ocasiões. Dez PMs do BAC (Batalhão de Ações com Cães) foram denunciados por obstruir câmeras e entrar em casas sem ordem judicial. Em outubro, dois policiais passaram a responder por retirar os equipamentos; um deles deixou a câmera dentro de uma viatura.

Nem todos os baleados morreram. Douglas Christian de Almeida, 30, morador de Inhaúma, na zona norte, foi baleado por policiais militares e perdeu a mandíbula. Ficou 17 dias em coma e acordou algemado, sem conseguir falar.

"Aqui foi onde entrou a sonda, que estava tudo arrebentado, o rosto, entrou a alimentação por aqui depois de um mês", diz, mostrando a cicatriz no pescoço.

Ele afirma que, no hospital, um policial desligou o ar-condicionado, o deixou sem lençol, disse que queria matá-lo e se recusou a chamar o enfermeiro. Sem voz, escreveu o relato e o entregou ao advogado. Tratado como suspeito, Douglas aguarda o julgamento em liberdade, com tornozeleira eletrônica, e diz ser inocente.

A Promotoria recomendou às secretarias de Segurança, Polícia Civil e PM um protocolo conjunto para operações, em dezembro de 2025, e regras para o uso das câmeras corporais, em março.

Segundo o órgão, parte das medidas está em curso, como a ampliação do número de câmeras e o treinamento de agentes para socorro em operações. O governo do Rio prevê contratar novas câmeras até março de 2027.

Na Penha, moradores convivem com a perspectiva de novas operações, assim como a livre circulação de homens armados com fuzis nas vielas. Taís Silva, 35, que mora na comunidade desde bebê, diz que as filhas perguntam sobre a violência. Perguntada se elas têm medo, resume: "Quando solta o pau mesmo, só Jesus."

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