Rafael Fonteles, cotado para ministro, foi de prodígio da matemática a gestor pragmático da esquerda
Quando foi reeleito para o Governo do Piauí, Rafael Fonteles (PT) se esbaldou. Na festa da vitória, bebeu em copo térmico, dançou pagode baiano e desferiu impropérios contra o adversário Ciro Nogueira (PP), derrotado para o Senado.
Três semanas depois, no segundo turno, reuniu-se com um grupo de matemáticos do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), fez projeções do resultado da eleição e cravou a vitória de Lula (PT) com menos de 2% das urnas apuradas.
As duas cenas revelam as diferentes facetas do governador reeleito com 70,90% dos votos, que integrou o núcleo duro da campanha de Lula e aos 41 anos é cotado para assumir o Ministério da Fazenda.
Criado em uma família católica e de esquerda, Rafael Fonteles ascendeu ainda na juventude como um prodígio, premiado em olimpíadas internacionais de física, química e matemática.
Foi primeiro colocado geral no vestibular da UFPI (Universidade Federal do Piauí), onde cursou matemática. Aos 19 anos, alugou um andar inteiro de um prédio comercial e montou o cursinho preparatório que seria a semente de uma rede de educação da qual é proprietário.
Já vivia com o próprio dinheiro quando foi fazer mestrado em Economia Matemática no Impa, no Rio de Janeiro, uma das instituições mais renomadas do país. A família estava certa de que ele seguiria carreira acadêmica, mas ele decidiu retornar ao Piauí e focar os negócios.
Além de professor e empresário, ganhou notoriedade na TV Clube, afiliada da Rede Globo, dando orientação financeira e de investimentos em um programa local.
A gestão pública entrou na sua vida aos 29 anos, quando foi nomeado pelo então governador Wellington Dias (PT) para a secretaria estadual da Fazenda. Era 2015, período em que o país vivia cenário econômico turbulento e o Piauí enfrentava uma crise fiscal.
Mas a política já estava na vida de Rafael Fonteles desde sempre. O pai, o médico e também matemático Nazareno Fonteles, foi um dos fundadores do PT e candidato do partido ao Governo do Piauí em 1986. Depois seria deputado estadual, deputado federal e secretário estadual de Saúde.
Nazareno inicialmente era contra o filho seguir carreira política. Assim que Rafael se tornou secretário, o único conselho do pai foi que evitasse disputar cargos legislativos. Fonteles permaneceu na gestão e iniciou o caminho que o levaria ao cargo de governador.
Em 2021, ganhou mais espaço no governo e passou a coordenar um pacote de obras, como uma espécie de PAC local. Foi quando deixou os gabinetes e começou a percorrer o estado do Piauí.
"Ele passou um ano viajando, conhecendo os municípios. Recebeu um banho de povo, como ele mesmo diz, e aprendeu muito", afirmou Nazareno Fonteles à Folha.
Nazareno e Rafael têm perfis distintos na política e nem sempre concordam entre si. O pai é mais ideológico. O filho sempre foi mais pragmático e circula por diferentes campos políticos.
"Ele é de uma centro-esquerda democrática que não tem medo de dialogar com a direita", diz Nazareno. Para o ex-deputado, Fonteles defende o Estado com um papel ativo na economia, sem abrir mão da interlocução com o setor privado.
Entre os economistas cujas ideias despertam o interesse do governador estão nomes como o francês Jean Tirole, Nobel de Economia de 2014 que estudou regulação de mercados, e a italiana Mariana Mazzucato, que defende protagonismo do poder público na inovação.
Também admira o líder chinês Xi Jinping e as ideias no país para reduzir a pobreza. Quando lançou o Pacto pela Economia, voltado para desenvolver as potencialidades dos municípios do Piauí, disse ter se inspirado na China.
No Governo do Piauí, adotou medidas criticadas por parcela da esquerda, como a concessão de rodovias. Em 2024, arrecadou R$ 1 bilhão para o estado no leilão que concedeu os serviços de água e saneamento para a empresa privada Águas do Piauí, do grupo Aegea.
Ao mesmo tempo, foi reconhecido por ampliar o ensino integral, levar o Piauí ao segundo lugar no ranking do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e reduzir os indicadores de violência com o uso de tecnologia, incluindo o programa Celular Seguro, nacionalizado no governo Lula.
Na política, construiu uma base ampla de aliados no estado. "Ele é um grande articulador e, em todo lugar que chega, se destaca. Tem profundidade de análise e entende rapidamente as coisas", afirma o senador Marcelo Castro (MDB-PI).
No núcleo mais próximo do governador estão os secretários conhecidos como "Rafaboys", que não raro têm embates com a ala mais antiga da gestão, ligada a Wellington Dias.
No início do ano, Fonteles e o ex-governador piauiense entraram em atrito na condução da sucessão, gerando desgastes na relação entre ambos. O governador decidiu ceder as vagas ao Senado para aliados e indicar para vice o amigo e secretário Washington Bandeira (PT).
A estratégia deu certo. Marcelo Castro foi reeleito e Júlio César (PSD) eleito para o Senado, derrotando Ciro Nogueira. Depois de abertas as urnas, Fonteles disparou xingamentos contra o adversário em cima de um trio elétrico —no dia seguinte, pediu desculpas.
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No segundo turno, teve papel central na campanha de Lula ao lado dos ex-governadores Camilo Santana (PT-CE) e Rui Costa (PT-BA) e do deputado André Janones (Rede-MG). Com a vitória de Lula, passou a ser cotado para o Ministério da Fazenda. Para assumir o cargo, vai precisar renunciar ao governo.
Nazareno diz que não conversou com o filho sobre uma eventual mudança para Brasília. Sua aposta é que ele pode colaborar com a equipe econômica antes de assumir um posto em definitivo.
O senador Marcelo Castro diz que o aliado estará pronto se for convocado. "Ele é um homem de decisão. Se precisa tomar decisão importante, ele toma com toda tranquilidade. Não é de recuar".
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