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Sunday, October 4, 2026

Flávio Bolsonaro: de filho do ex-presidente a candidato do PL à Presidência da República

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Flávio é o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena por trama golpista em prisão domiciliar, passou a campanha tentando se cacifar como herdeiro político do pai, ao mesmo tempo em que enfrenta uma investigação da Polícia Federal (PF) por suposta corrupção.

Atualmente senador em fim de mandato pelo Rio de Janeiro, o candidato tem 45 anos, é casado e formado em direito.

Sua escolha como o nome do Partido Liberal passou pela decisão direta de Jair Bolsonaro. A escolha de seu herdeiro político se deu no fim de 2025, após disputas internas, e foi acompanhada de intensa briga familiar.

Apesar das discussões, Flávio chega no primeiro turno com chances reais de ganhar a eleição, tendo como principal adversário o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Político desde os 21 anos, Flávio Bolsonaro foi eleito pela primeira vez como deputado estadual, cargo que ocupou por quatro mandatos. Em 2016, Flávio disputou e perdeu a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro.

Dois anos depois, no entanto, foi eleito senador com mais de quatro milhões de votos. Foi o candidato mais votado para o Senado Federal no Rio de Janeiro.

A escolha do herdeiro

Com metade de seu mandato de oito anos no Senado sendo durante a presidência de seu pai, Flávio Bolsonaro foi presidente da Comissão de Segurança Pública, tema que sempre colocou como sua bandeira.

No entanto, teve uma atuação tímida como senador. Teve somente dois projetos transformados em lei – nenhum sobre segurança pública.

Neste período, o patrimônio do candidato aumentou de R$ 1,7 milhão para R$ 8,1 milhões.

Flávio passou a ganhar mais relevância entre o bolsonarismo a partir do processo no Supremo Tribunal Federal (STF) contra Bolsonaro por golpe de Estado. Após a condenação, tornou-se uma das poucas pessoas que conversava com Jair Bolsonaro na condição de advogado do pai.

"É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação", disse Flávio à época.

A escolha, no entanto, não pacificou os ânimos dos aliados. A briga na família veio à tona de forma clara com um vídeo de Michelle nas redes sociais em meados de junho.

Ela também negava ter feito o vídeo por querer ser candidata no lugar do enteado. Michelle acabou candidata ao Senado pelo Distrito Federal. No entanto, não participou ativamente da campanha de Flávio, como era o desejo de caciques do PL no início da disputa.

Flávio Bolsonaro durante live na noite de 23 de setembro — Foto: Reprodução

Caso Dark Horse

Menos de seis meses depois de anunciar sua pré-candidatura, o portal The Intercept revelou áudios e mensagens mostrando que Flávio negociou com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, o pagamento de R$ 130 milhões como investimento no filme Dark Horse, uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.

O g1 e a TV Globo tiveram acesso aos documentos que mostram que o banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões.

"Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. [...] Eu sei que você está passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda, você sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo. E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?", disse Flávio em uma das conversas.

Segundo as apurações, os repasses de Vorcaro para o filme foram feitos por meio da empresa Entre Investimentos e Participações, de um aliado do ex-banqueiro.

A Entre transferia o dinheiro para um fundo de investimentos chamado Havengate, nos Estados Unidos, controlado por um advogado de Eduardo Bolsonaro. O fundo repassaria o dinheiro para a produtora do filme, a empresa Go Up.

O caso foi marcado por diversas contradições de Flávio sobre sua relação com Vorcaro. No dia em que o caso veio à tona, Flávio negou que Vorcaro teria financiado o filme e chamou os questionamentos do jornalista do Intercept de “militância”.

Em entrevista à GloboNews em maio, Flávio justificou que negou a relação do banqueiro com o filme alegando que existiam cláusulas de confidencialidade.

"Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade. Estou falando disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar", disse.

Nessa mesma entrevista, Flávio afirmou que os pagamentos, que totalizaram R$ 61 milhões, ocorreram até maio de 2025. Em setembro, no entanto, a revista Piauí revelou que Vorcaro fez mais um pagamento de US$ 1,6 milhão, totalizando cerca de R$ 65 milhões.

Flávio disse que sua relação com Vorcaro estava restrita ao filme e que não haveria “supresinha”. Quatro dias depois, o senador admitiu ter visitado Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro, quando ele já estava em prisão domiciliar e usava tornozeleira eletrônica, para encerrar as negociações sobre o filme.

“Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história, dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco”, afirmou.

Outro ponto de contradição de Flávio sobre o filme foi a respeito da prestação de contas. O senador afirmou, em 19 de maio, que havia determinado à produtora que apresentasse uma prestação de contas dos recursos usados no filme em até 30 dias.

O prazo terminou em 18 de junho sem que o candidato ou a produção tornassem público o conjunto de documentos prometido.

Ao ser questionado, o candidato atribuiu a prestação de contas a uma perícia que a produtora do filme, Karina Gama, anexou ao inquérito que corre na Polícia Civil de São Paulo.

A perícia foi contratada pela própria produtora, aponta que os gastos somaram R$ 75 milhões, mas não apresentou recibos ou notas fiscais dos gastos.

Outra contradição de Flávio em relação ao Master aconteceu quando o senador negou proximidade com Vorcaro após a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro compartilhar uma publicação sobre supostas festas promovidas pelo banqueiro.

“Eu quero garantir para vocês aqui: a única relação que eu tenho com Vorcaro é sobre o filme do meu pai. É a única. Vocês não vão me ver em festinha de Vorcaro. Nunca entrei em avião de Vorcaro e nunca estive em festinha de astronauta”, afirmou em um encontro com apoiadoras mulheres.

A declaração sobre o avião, no entanto, voltou à tona após a revista Piauí revelar que, em 19 de janeiro de 2025, Flávio, a esposa e as duas filhas viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília em um avião Legacy 650 operado pela Prime You, que tinha Vorcaro entre seus sócios naquele período.

A aeronave era de propriedade compartilhada. Uma das cotas estava vinculada à Prime You, enquanto outra pertencia ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. Tomaz afirmou que convidou o senador, solicitou o voo e arcou integralmente com a viagem.

Após a revelação, Flávio disse que não sabia da participação de Vorcaro na aeronave e que foi convidado pelo amigo Willer Tomaz. Dias antes, Flávio havia criticado o ministro Alexandre de Moraes por voar na mesma aeronave.

"Ainda bem que na época o avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes", declarou.

Emenda para milícia

A emenda foi negociada em 2023 entre Peixe e Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar no gabinete de Flávio no Senado. Maria de Fátima é descrita pela PF como "interlocutora direta" de Peixe no gabinete do senador Flávio Bolsonaro.

A PF encontrou mensagens de WhatsApp trocadas entre Peixe e Maria de Fátima no celular do miliciano, apreendido quando ele passou a ser investigado pela morte de Marielle, em 2024. Marielle e seu motorista Anderson Gomes foram mortos em 2018.

Peixe foi condenado pelo STF, em fevereiro deste ano, a nove anos de prisão e à perda do cargo de policial militar reformado. Segundo a investigação, ele foi o elo entre os executores do assassinato e os mandantes, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão — ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio e ex-deputado federal, respectivamente.

Rachadinha no gabinete

Em outubro de 2020, o MP do Rio denunciou o senador Flávio Bolsonaro, o ex-assessor dele Fabrício Queiroz e mais 15 investigados pelos crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita no esquema da "rachadinha".

Flávio Bolsonaro foi acusado de chefiar uma organização criminosa que recolhia parte do salário de seus ex-funcionários para seu benefício – prática conhecida como "rachadinha".

Segundo a denúncia, o esquema funcionou por meio da contratação de assessores para o gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj, entre 2007 e 2018. Parte desses funcionários teria sido usada para devolver ao grupo uma parcela dos salários recebidos. Alguns deles seriam funcionários fantasmas.

De acordo com o MP, Fabrício Queiroz, então chefe de gabinete, seria o principal responsável por recolher e movimentar o dinheiro, enquanto Flávio teria comandado o esquema e se beneficiado dos recursos.

Segundo o MP, foram identificados pelo menos 13 assessores que repassaram parte dos salários ao ex-assessor de Flávio, Fabrício Queiroz. De acordo com documento do órgão, ele recebeu 483 depósitos na conta bancária, mais de R$ 2 milhões.

A denúncia, no entanto, não chegou a ser julgada no mérito: decisões do STJ e do STF invalidaram provas centrais da investigação, especialmente relacionadas às quebras de sigilo e aos relatórios do Coaf.

Em 2021, a Segunda Turma do STF decidiu invalidar as quebras de sigilo de Flávio e dos assessores em uma ação que transcorreu na esfera criminal. A decisão abriu caminho para o encerramento do processo da rachadinha. O relator da matéria foi justamente o ministro Gilmar Mendes.

Em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia por falta de justa causa. Assim, Flávio foi denunciado, mas não condenado, e a Justiça não chegou a julgar se ele efetivamente praticou a rachadinha

Em 2023, o MP apresentou outra ação, dessa vez na esfera cível, por improbidade administrativa. A ação não teve Flávio Bolsonaro como alvo, mas apurou práticas irregulares. Foi nessa ação de improbidade que a Justiça autorizou a quebra de sigilo dos assessores de Flávio.

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