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Wednesday, October 28, 2026

Um ano após megaoperação com 122 mortos no Alemão e na Penha, ao menos 33 alvos estão foragidos e chefes do tráfico vivem na região

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A operação, realizada em 28 de outubro de 2025, mobilizou cerca de 2,5 mil policiais civis e militares para cumprir mandados contra integrantes da facção. Dos 51 alvos com ordens de prisão, 17 foram presos no dia da ação. Outro morreu antes da operação.

No período posterior à megaoperação, os registros de tiroteios diminuíram na Penha e no Alemão, e indicadores de mortes violentas também recuaram em uma área mais ampla, que inclui as comunidades.

Megaoperação com cerca de 2.500 policiais civis e militares nos complexos da Penha e do Alemão em 28 de outubro de 2025 — Foto: Jose Lucena/TheNewsS2/Estadão Conteúdo

Para especialistas ouvidos pelo g1, porém, a queda dos indicadores não comprova que a ação tenha enfraquecido o Comando Vermelho ou alterado o controle territorial da facção.

Segundo moradores, autoridades e estudiosos ouvidos pela equipe de reportagem, nada mudou na rotina das comunidades.

📌Um ano da megaoperação: esta reportagem faz parte de uma série do g1 sobre os desdobramentos da ação realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, com 122 mortos.

Nesta reportagem, você vai ver:

O que foi a megaoperação

Imagem de drone mostra corpos levados a praça no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, no dia 29 de outubro de 2025. — Foto: Ricardo Moraes/Reuters

A ação tinha como objetivo cumprir mandados judiciais e prender integrantes do Comando Vermelho (CV), incluindo lideranças apontadas como responsáveis pela atuação da facção em diferentes regiões do estado.

Uma pesquisa da Quaest, divulgada menos de um mês após a operação, apontou que 67% dos brasileiros aprovaram a megaoperação policial realizada nos complexos do Alemão e da Penha. Os que desaprovaram somavam 25%.

Principais alvos estão entre os 33 foragidos

Principais alvos do CV na megaoperação seguem foragidos — Foto: Arte/g1

Antes da megaoperação, o Ministério Público denunciou 69 suspeitos. A Justiça aceitou a denúncia e determinou a prisão de 51 alvos. Também foram expedidos mandados de busca e apreensão para 145 endereços ligados a 54 denunciados.

No dia da ação, 99 pessoas foram presas: 17 eram alvos de mandados de prisão e outras 82 foram detidas em flagrante.

Um dos alvos com mandado de prisão, Ygor Freitas de Andrade, conhecido como Matuê e apontado como chefe do tráfico na Gardênia Azul, morreu antes da operação.

Um ano depois, 33 dos alvos continuam foragidos. Entre eles está Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho.

As informações constam de relatórios do governo do estado, elaborados com dados da Polícia Civil e enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) para prestar contas sobre os resultados da megaoperação.

Segundo apurou o g1, Doca e outros integrantes importantes da facção, como Gardenal e Pedro Bala, seguem vivendo no Complexo da Penha.

Tiroteios caem 61%

Nos 12 meses anteriores à megaoperação, o Instituto Fogo Cruzado registrou 41 tiroteios nos complexos da Penha e do Alemão. Nessas ocorrências, 12 pessoas morreram e 17 ficaram feridas.

Nos 11 meses e 15 dias seguintes à ação, o instituto contabilizou 16 tiroteios, com um morto e um ferido. A redução no número absoluto de ocorrências foi de 61%, considerando períodos de duração ligeiramente diferente.

Dos 41 tiroteios registrados antes da megaoperação, 33 ocorreram durante ações ou operações policiais. No período posterior, 4 dos 16 tiroteios ocorreram em ações policiais; um deles foi classificado pelo instituto como operação.

O levantamento também aponta queda no número de operações policiais em dois períodos de seis meses:

  • Abril a setembro de 2025: cinco operações, sendo três na Penha e duas no Alemão. Nenhuma terminou com mortos ou feridos, segundo o instituto;
  • Novembro de 2025 a abril de 2026: duas operações, ambas na Penha — uma redução de 60%.

Os presos na megaoperação sendo conduzidos — Foto: Reuters

Letalidade violenta recua

Os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ) também mostram redução de mortes violentas na área da 22ª Circunscrição Integrada de Segurança Pública (CISP), correspondente à área da 22ª DP.

O território analisado é mais amplo que os complexos da Penha e do Alemão: inclui também áreas de Brás de Pina, Olaria, Penha e Penha Circular.

A comparação considera os períodos de novembro de 2024 a setembro de 2025 e de novembro de 2025 a setembro de 2026. Outubro de 2025, mês da megaoperação, foi excluído da análise por causa da excepcionalidade dos números decorrentes da ação.

  • A letalidade violenta caiu de 71 para 55 registros, uma redução de 23%.
  • Os homicídios diminuíram de 39 para 34, queda de 13%.
  • As mortes por intervenção de agentes do Estado passaram de sete para seis, redução de 14%.
  • As prisões por tráfico de drogas caíram de 28 para 24, também uma redução de 14%.

A letalidade violenta reúne diferentes categorias de mortes, incluindo homicídios e mortes por intervenção de agentes do Estado. Por isso, esses números não devem ser somados entre si.

A Secretaria de Segurança e as polícias Civil e Militar não informaram dados específicos sobre ocupação policial, controle de comunidades, barricadas e presença de homens armados.

O que dizem especialistas

Para a pesquisadora Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF), a variação dos indicadores não pode ser atribuída diretamente à megaoperação. Segundo ela, a ação tinha como objetivo imediato cumprir mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho.

Carolina afirma ainda que os efeitos de uma operação dessa dimensão precisam ser analisados para além dos complexos da Penha e do Alemão, já que o Comando Vermelho atua em diferentes regiões do estado. Para ela, observar apenas os indicadores criminais locais é insuficiente para medir o impacto da ação sobre a facção.

“Quando a polícia saiu, as bocas de fumo voltaram a funcionar e o território continua totalmente sob controle do Comando Vermelho. Não teve perda territorial por causa dessa operação”, disse Carolina.

O analista de segurança Alessandro Visacro afirma que operações como a Contenção precisam fazer parte de uma estratégia contínua, capaz de atingir as lideranças, os armamentos e as estruturas que sustentam as organizações criminosas.

“O grande problema do Rio, que é peculiar, é o controle territorial armado e a defesa exercida por grupos criminosos, e isso permite a exploração do território. A principal fonte de receita desses criminosos é a exploração, não é mais o tráfico de drogas”, afirmou.

Durante a operação, foram apreendidas 122 armas de fogo: 96 fuzis de diversos calibres, 25 pistolas e um revólver, além de carregadores, munições e 12 artefatos explosivos. O prejuízo para o Comando Vermelho com os armamentos foi estimado em R$ 12 milhões.

Para Visacro, o volume e o tipo de armamento apreendido ajudam a dimensionar o poder de fogo das organizações criminosas. O analista também destaca a presença de granadas, explosivos, rádios e drones como sinais da estrutura militarizada desses grupos.

“As iniciativas são importantes, necessárias, mas sozinhas não surtem efeito. O arsenal do crime é impressionante. Se você pensar na megaoperação, podemos dizer que tivemos quase o mesmo número de mortos e fuzis apreendidos, ou seja, quase um fuzil por pessoa. Isso corresponde a quanto do arsenal do crime?”, questiona.

Para ele, o enfrentamento precisa atingir não apenas os integrantes armados das facções, mas também os recursos e as estruturas que sustentam seu domínio territorial.

“Ao longo dos anos, tivemos uma sucessão de oportunidades perdidas: invasão do Alemão, UPP, Olimpíada. O que a megaoperação trouxe de oportunidade? Ela serviu para mostrar o nível de degradação da segurança pública. É a realidade escancarada na nossa cara”, afirmou Visacro.

Raio-x dos complexos do Alemão e da Penha — Foto: Arte g1

Fechamento de escolas aumenta no Alemão

Um dos efeitos da violência sobre a rotina dos moradores aparece nos dados da Secretaria Municipal de Educação do Rio (SME-RJ). No Complexo do Alemão, aumentou o número de unidades escolares municipais que precisaram fechar ao menos uma vez em decorrência de operações policiais ou confrontos.

Entre outubro de 2024 e setembro de 2025, foram 25 unidades afetadas. No período de outubro de 2025 a setembro de 2026, o total chegou a 29, um aumento de 16%.

Na Penha, o número permaneceu estável: 16 unidades escolares foram fechadas ao menos uma vez em cada um dos dois períodos.

Os dados indicam que, mesmo após a megaoperação, os episódios de violência continuaram afetando o funcionamento das escolas municipais. O levantamento, contudo, contabiliza unidades que fecharam pelo menos uma vez, e não o total de dias sem aulas ou de estudantes prejudicados.

A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) informou que o número de escolas estaduais impactadas por episódios de violência no entorno varia conforme cada ocorrência, podendo afetar um ou mais turnos. Segundo a pasta, as unidades são orientadas a repor os conteúdos pedagógicos para evitar prejuízos aos estudantes.

A Seeduc também afirmou que segue os protocolos de Comunicação e Proteção de Unidades Escolares firmados com o Ministério Público e mantém diálogo permanente com as polícias Militar e Civil. A rede estadual adota ainda a metodologia do programa Acesso Mais Seguro, desenvolvida em parceria com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Análise de câmeras corporais indica excessos

Nesta quarta-feira (28), a 3ª Defensoria Pública do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro divulgou um relatório com resultados da análise das câmeras de segurança usadas por policiais na megaoperação dos Complexos da Penha e do Alemão. O documento indica excessos durante a ação.

Entre as denúncias, estão tortura, ameaças de morte e agressões. A análise de imagens da Operação Contenção, segundo o relatório, flagrou ainda sufocamento com pano ensanguentado, choques elétricos em civis, ameaças de execução, destruição de provas por policiais, além de intimidação de moradores.

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