Pilar Eyre e os 20 anos de polémicas da realeza espanhola

A prosa quase sem pausas de Eyre é como o extravasar de pensamentos. Nas várias passagens em que menciona a Rainha, deixa no ar a hostilidade recíproca entre genro e nora. De acordo com a jornalista, Juan Carlos acha que Letizia fala demais, gesticula demais. Chega a mencionar que o rei terá dito que lá em casa “só se fala o idioma letizio”. Mas a opinião negativa espelhava-se também na rainha emérita, que considerava a mulher do filho muito magra e mal vestida — Eyre menciona um comentário do príncipe Pavlos, da Grécia, primo de Sofía, que terá dito que Letizia se vestia como “uma secretária”. Quando aborda a abdicação, a jornalista escreve que Juan Carlos terá questionado o filho sobre as intenções de Letizia, sugerindo que a sua mulher poderia ter conspirado contra o seu reinado. A roupa simples escolhida pela mulher de Felipe para o fatídico dia, na versão de Eyre, é prova da pouca importância que Letizia dava ao sogro.
Entretanto, quando teve a oportunidade de barrar a entrada de Letizia na família, Eyre aponta que Juan Carlos fez justamente o contrário. A cronista social descreve como o então rei se considerava progressista ao permitir que o filho seguisse com a união a uma mulher divorciada; e que o único detalhe na nora que não apreciava era o facto de ter sido jornalista. Já há muito que circulam histórias de que o príncipe terá ameaçado desistir do trono se não o deixassem casar-se com a mulher que amava, mas agora Eyre revela que, afinal, Felipe VI terá pedido ao pai que adiasse o casamento — um pedido negado por Juan Carlos.
Cerca de dois meses antes da cerimónia, em março de 2004, um atentado terrorista coordenado matou 193 pessoas em várias estações e comboios que circulavam por Madrid. Com o país em luto e uma investigação a decorrer, o então príncipe considerava que não havia clima para o casamento. A resposta de Juan Carlos, entretanto, foi negativa. O rei disse ao filho que diante do contexto, os espanhóis precisavam de “boas notícias”. “Somos como os palhaços de circo, apesar de termos coração, precisamos de fazer rir toda a gente”.
Eyre também traz detalhes novos sobre o vestido de casamento de Letizia, uma peça criada pelo conhecido designer de alta costura Manuel Pertegaz — conhecido por ter sido considerado para suceder Christian Dior. Na altura dos preparativos, a imprensa espanhola descreveu uma situação em que a princesa esteve aos gritos no atelier em Barcelona por não gostar do vestido. A versão da cronista da realeza, entretanto, é oposta: descreve Pertegaz como um “senhor idoso” a quem Letizia não era capaz sequer de dirigir a palavra. A noiva de Felipe terá feito apenas uma sugestão, através da cunhada, Cristina, a dizer que o decote com gola levantada lhe dava ares de “bruxa má do Oeste”. Ao vestir-se no Palácio Real no dia do enlace, já sem a presença de Pertegaz, a agora Rainha terá usado as próprias mãos para afrouxar a gola, deixando o decote menos rígido.
Cristina, aliás, era uma das poucas entre os Borbón com quem Letizia se dava. A cunhada terá acompanhado a futura mulher do irmão nas provas do vestido em Barcelona e dado dicas quando em 2005 ambas ficaram grávidas na mesma altura — Cristina pela quarta vez, de Irene; Letizia pela primeira vez, de Leonor. Também Felipe tinha uma boa relação com Iñaki Urdangarin, de quem se terá afastado no início de 2008, quando o cunhado terá pedido dinheiro emprestado para pagar as parcelas do palacete de Pedralbes, comprado em 2004. Na altura, segundo Eyre, Letizia já desconfiava dos negócios de Urdangarin, e insistia pelo afastamento do casal. Anos antes, já havia recusado hospedar os pais do cunhado em casa para a celebração do batizado da bebé Irene.
Na versão da cronista da realeza espanhola, o evidente isolamento de Felipe e Letizia foi moldado ao longo das últimas duas décadas especialmente pelas posições fortes da Rainha. Distanciou-se das polémicas do sogro e dos cunhados por princípios, mas da sogra por sobrevivência: nos bastidores, Eyre relata o sentimento de Letizia de ter as próprias filhas ignoradas pelo núcleo duro da família. Cita a tradicional fotografia após a missa da Semana Santa em Palma de Maiorca, especialmente a do ano de 2008, em que Felipe, Letizia, Leonor e Sofía “eram como quatro náufragos perdidos em alto mar”.
O futuro da coroa
Apesar de representarem o futuro da coroa — e serem efetivamente as sucessoras — a primeira menção a Leonor e Sofía vem quase a meio do livro, precisamente na página 147. As jovens serão mesmo o orgulho de Letizia, que terá feito o possível para que crescessem num ambiente familiar “normal”, apesar de não perceberem o motivo das outras crianças não terem seguranças na escola ou nunca terem entrado num El Corte Inglés. Entretanto, é também por causa da mãe, de acordo com a versão de Eyre, que as irmãs foram criadas o mais longe possível dos outros membros “tóxicos” da família real. E isso inclui a avó Sofía.
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