Eleição nos EUA pode definir futuro de eventual aliança de Trump e Flávio

Uma pesquisa divulgada pelo Pew Research esta semana mostrou que a maioria dos eleitores (63%) considera Trump como um fator em seu voto para o Congresso — mas mais pessoas veem a escolha como um voto contra o presidente (44%) do que a favor dele (19%).
Isso explica porque candidatos democratas têm vantagem de 8 pontos percentuais sobre republicanos nas pesquisas eleitorais para a Câmara dos Representantes nacionalmente. A derrota na Câmara Baixa já é dada como certa por boa parte do partido do presidente. Mas a derrocada pode se estender também à Câmara Alta, onde republicanos estão ameaçados em redutos vermelhos tradicionais, como o Texas e a Carolina do Sul.
Isso importa especialmente porque, segundo a Constituição dos EUA, o Congresso detém a prerrogativa exclusiva de regular o comércio exterior e as tarifas. Acordos comerciais formais de livre comércio exigem aprovação de ambas as casas legislativas. Para tratados internacionais formais, dois terços do Senado precisam aprovar.
É aí que mora o problema para Flávio Bolsonaro: ele já afirmou que deseja estabelecer um acordo de livre comércio com os EUA, por exemplo. Isso dependerá do Congresso. Tratados de bitributação, outra das bandeiras do senador, precisarão da aprovação do Senado.
Já parcerias militares — que podem ser firmadas sob o manto do chamado "Escudo das Américas", a parceria político-militar trumpista para as Américas a qual Flávio já disse que alistará o Brasil — são alvos de disputa e contestação frequentes no Congresso. Democratas já disseram que pretendem convocar tanto o secretário de Estado, Marco Rubio, quanto o da Defesa, Pete Hegseth, a explicar ações como a captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, ou o acordo pelo controle de petróleo venezuelano.
"Imagine como vai ser o Eduardo Bolsonaro, chanceler do governo do irmão, tendo que negociar com um Senado e uma Câmara comandado pelos democratas que ele tantas vezes contornou ou irritou", me disse um ex-alto diplomata americano do governo de Joe Biden.
A conjectura aconteceu enquanto o ex-servidor dos EUA comentava um fundo de US$ 1 milhão liberado há menos de duas semanas por Washington para combater o STF em resposta "ao lobby de Eduardo Bolsonaro", como descreve um dos documentos a que eu tive acesso sobre o tema. O fundo tinha sofrido forte objeção de parlamentares democratas, que acabaram atropelados por Rubio no último dia do ano fiscal.
Cabe ainda ao Congresso aprovar o orçamento e as prioridades — o que pode levar o dinheiro a secar. "E se tomarem as duas casas, com certezas os democratas vão operar abertura de processos de impeachment, questionar a guerra no Irã, todo aquele cenário que a gente já viu no primeiro mandato e que deve desviar a atenção de Trump da América Latina", especula um embaixador brasileiro sob reserva, que tem observado os cenários eleitorais dos EUA.
Para o Brasil e a família Bolsonaro, a dificuldade não seria inédita.
Em 2019, durante a primeira gestão de Trump e sob o governo de Jair Bolsonaro, Brasil e EUA tentaram chegar a um amplo acordo comercial, que os dois presidentes desejavam.
O representante comercial da Casa Branca (USTR, na sigla em inglês), embaixador Robert Lighthizer, e o então chanceler brasileiro Ernesto Araújo se encontraram em maio. Lighthizer deixou a conversa animado, e disse publicamente que desejava intensificar a parceria econômica com o Brasil, incluindo uma simplificação do comércio e "boas práticas regulatórias".
O plano foi abatido ao alçar voo. Os democratas, que comandavam a Câmara dos Deputados, faziam questão de dizer nos bastidores que nenhum acordo comercial amplo ou qualquer outro tratado de parceria bilateral prosperaria sob suas barbas.
Em junho, porém, eles foram mais longe. Em uma carta ao USTR, 24 deputados democratas da Comissão de Orçamento e Tributos (Ways and Means) da Câmara dos Deputados dos EUA informaram Lighthizer que tinham "fortes objeções à busca de qualquer acordo comercial ou à expansão de parcerias comerciais com o Brasil do presidente Jair Bolsonaro".
À época, a ação foi considerada de gravidade sem precedentes na relação bilateral. "Nunca vi um documento assim. Esta é a mais importante comissão do Congresso americano. Essa carta significa que nenhum acordo com o Brasil será feito enquanto a Câmara tiver maioria democrata", disse, em 2019, o ex-embaixador do Brasil em Washington, Rubens Ricupero.
A relação, porém, veria dias muito piores nos anos subsequentes. Atualmente, por exemplo, a embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, vive no país com um visto cassado. Se deixar o território dos EUA, não poderá regressar. A situação de Viotti, foi aliás, objeto de uma dentre três cartas que parlamentares democratas e de esquerda enviaram ao secretário Rubio nas últimas duas semanas.
Eles questionavam as ações de Washington de potencial "interferência eleitoral" e pediam garantias de reconhecimento do resultado do pleito e de respeito à soberania do país. Trata-se de uma mostra pública de insatisfação com o estado da relação e uma prévia das dificuldades que o partido está disposto a impor a uma futura aliança Trump-Flávio. O secretário de Estado dos EUA não respondeu a nenhuma das cartas. Pode ser que antes que Rubio decida responder, os democratas esvaziem a caneta do chefe dele, o presidente Donald Trump.
Opinião
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