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Saturday, September 12, 2026

Sobre a percepção da insegurança em Lisboa

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Já aqui falei disto, é verdade. Mas quando uma realidade persiste, e com ela somos confrontados diariamente, não há outro remédio senão encará-la de frente, mesmo correndo o risco de soar repetitivo. Mais: enquanto houver zonas de Lisboa onde o medo começa a condicionar a forma como as pessoas vivem na cidade, continuarei a insistir no assunto, mostrando as coisas como elas são. E, infelizmente, não são boas.

Foi isso que fiz esta Terça-feira à tarde, no debate de actualidade do plenário da Assembleia Municipal de Lisboa. Enquanto o país mediático se entretinha com as encenações de Ventura e companhia na Assembleia da República, na versão mais modesta do município lisboeta, discutia-se a segurança nas ruas de Lisboa. As causas e as soluções variaram consoante a especificidade ideológica de cada grupo municipal mas, numa raríssima demonstração de consenso, numa coisa todos os partidos representados concordaram: há um problema de segurança em Lisboa ao qual é preciso dar resposta.

Quem convocou o debate foi o PSD. Motivado pelos acontecimentos recentes, o grupo municipal social-democrata lembrou alguns números que impõem respeito: nos primeiros dez meses de 2025, a criminalidade geral na Grande Lisboa aumentou 6,1%; as detenções subiram cerca de 46% e os crimes detectados por iniciativa policial aumentaram mais de 64%, nomeadamente em matéria rodoviária, tráfico de estupefacientes e desobediência. A isto juntam-se furtos, roubos, tráfico de droga, ocupação indevida do espaço público e episódios de violência em zonas de grande concentração turística e comercial. E há os casos que já entraram no quotidiano noticioso: há poucas semanas, uma turista foi atingida por uma bala perdida na Baixa, na sequência de uma rixa, levando o próprio Ministério da Administração Interna a anunciar o reforço e ajustamento do policiamento nas zonas de maior concentração de pessoas.

Ainda assim, o problema não é evidente para todos. Para muitos pessoas, lisboetas incluídos, não há propriamente uma questão de segurança em Lisboa. Há, isso sim, uma questão de percepção, habilmente explorada nas redes sociais pela “extrema-direita”, que alimenta as ansiedades do português comum.

Aqui há uns dias, num jantar de amigos, vi-me obrigado a explicar o que se passa perante uma audiência céptica. Certos conhecidos meus não estão convencidos do que acontece, por exemplo, na Mouraria. Mas a verdade é que não é preciso grande coisa: basta lá ir. Nem de propósito, no dia seguinte estacionei o carro no parque do Martim Moniz. A primeira coisa com que me deparei, nas escadas de acesso ao exterior, foi um homem sentado a consumir crack. Assim mesmo, às duas da tarde. Estava sozinho, no entanto podia não estar. E se estivesse com a minha filha pequena?

Depois há ainda outro ponto ilustrativo, que tem que ver com as redes sociais. Mesmo descontando a manipulação que o algoritmo exerce sobre aquilo que nos mostra, em função do conteúdo que normalmente procuramos, a mudança é difícil de ignorar. Há dois anos, uma pessoa abria as redes sociais e deparava-se com cenas de violência em geral. Hoje abre-as e depara-se, com uma frequência inquietante, com cenas de rixas em Lisboa. Como se algumas zonas da cidade se tivessem transformado num parque temático de tensões entre forças opostas.

É verdade que as estatísticas exigem cuidado. Os próprios dados provisórios da PSP para 2026 mostram, na área do Comando Metropolitano de Lisboa, uma subida de 2,9% da criminalidade geral e uma descida de 0,4% da criminalidade violenta e grave. Portanto, não vale a pena inventar uma Lisboa em estado de guerra civil. Mas também não vale a pena utilizar uma décima estatística como argumento para desmentir aquilo que acontece diante dos nossos olhos. A mesma reportagem que apresenta esses números enumera esfaqueamentos, tiroteios, assaltos violentos e os chamados gangues do Rolex, e refere que a PSP tem destacado homens à civil, trânsito e Corpo de Intervenção para prevenir estes últimos.

A percepção existe, evidentemente. Mas não cai do céu. Forma-se quando uma pessoa vê alguém fumar crack às duas da tarde nas escadas de um parque; quando uma turista leva com uma bala perdida na Baixa; quando comerciantes, moradores e polícias começam a contar histórias semelhantes; quando certas imagens deixam de parecer excepcionais porque aparecem todos os dias.

Lisboa não pode permitir que a insegurança se torne um modo de vida. E, para quem ainda não está convencido, para quem acha que isto não passa do velho discurso securitário da direita, fica uma sugestão: vá um dia destes passear à Mouraria. Depois diga-nos se levaria consigo as crianças.

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