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Thursday, September 10, 2026

O verão mais quente de sempre deixou uma Europa de recordes

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No mapa europeu do Copernicus fica claro: o calor foi generalizado, mas não foi distribuído da mesma forma em todos os lados. Espanha, França, Reino Unido, Irlanda, Países Baixos, Bélgica e Áustria têm recordes para mostrar. Portugal fica fora dessa lista. O extremo de calor português esteve no início do verão e na falta de chuva – que parece ter caído toda com as tempestades de inverno.

Portugal começou o verão com um junho muito quente e muito seco. Mas antes já tinha tido uma onda de calor prolongada nos últimos 15 dias de maio. Junho teve então uma temperatura média de 22,40°C, 2,05°C acima do normal: foi o quarto junho mais quente desde 1931. A temperatura máxima média chegou aos 29,35°C, 2,65°C acima do valor de referência; a precipitação foi de apenas 6,9 milímetros, cerca de 30% do normal.

Julho foi igual, prolongando a combinação entre calor e falta de água. Foi muito quente e extremamente seco, a temperatura média chegou aos 24,04°C, 1,41°C acima do normal, o sétimo valor mais alto desde 1931. A máxima média subiu para 31,46°C. Mas o número a dar destaque não é o dos termómetros: em todo o continente houve apenas 0,8 milímetros de precipitação, 8% do normal. Resumindo, no país não caiu chuva durante todo o mês, com exceção dos distritos de Viana do Castelo e Braga.

Agosto pôs fim a esta cadência. Aliás, houve uma mudança significativa. Foi um mês quente, mas só 0,16ºC acima da média. E, a grande diferença foi esta, tornou-se o quinto agosto mais chuvoso em Portugal continental desde 1931.

Portugal torna-se assim um caso de estudo na fotografia deste verão europeu. O país fez parte do verão anormalmente quente e seco da Europa Ocidental, mas sem qualquer recorde nacional da temperatura média dos três meses. Houve muita irregularidade: junho e julho muito quentes e secos; agosto muito mais húmido.

Mas nem por isso se deixaram de bater recordes. A onda de calor que começou nos últimos dias de junho e só terminou a 11 de julho foi dos episódios mais relevantes desde 1981, de acordo com o IPMA. Porque teve a maior magnitude e a segunda maior expansão nacional. Antes, Portugal já somava seis ondas de calor desde fevereiro, num total de 59 dias.

Portugal não bateu, até julho (até quando o IPMA tem dados), o recorde nacional da temperatura média, nem de um mês, nem do verão. Mas também teve extremos. Junho foi o quarto mais quente desde 1931. Julho foi o sétimo. A onda de calor de junho para julho teve a maior magnitude desde 1981 e a segunda maior extensão. E os 0,8 milímetros de precipitação média de julho no continente tornam-o o mais seco deste século.

Há ainda recordes locais. Em julho, Castro Marim bateu o seu recorde de precipitação diária, embora com apenas 4,5 mm — o anterior era 1,3 mm. Também em julho, Mora bateu o recorde de temperatura máxima para este mês, 44,3°C. Porto Santo teve a temperatura média mais elevada desde 1961. Porto Moniz e a Selvagem Grande registaram igualmente novos extremos de temperatura máxima. E o Funchal e Santana o segundo valor mais elevado dos seus termómetros.

Outros máximos que caíram em série

Olhar para recordes país a país é debitar números consecutivos. Na Alemanha, o balanço preliminar do Deutscher Wetterdienst (DWD) mostra que o verão de 2026 atingiu uma temperatura média de 19,6°C, contra 19,7°C em 2003. Foi o segundo verão mais quente desde que há registos, em 1881. Ficou +2,0°C acima da média 1991–2020 e +3,3°C relativamente a 1961–1990.

Mas se não há recorde na média nacional, há recordes extremos. A 27 de junho, Möckern-Drewitz, na Saxónia-Anhalt, chegou aos 41,8°C, um novo recorde absoluto de temperatura máxima na Alemanha. Na noite seguinte, foi Kubschütz, na Saxónia, que não desceu dos 29,4°C: estava estabelecida a mínima noturna mais alta de sempre no país.

O DWD classifica ainda como “sem precedentes” a frequência do calor. Cerca de 22 dias com pelo menos 30°C e cinco dias com pelo menos 35°C. O verão teve ainda 779 horas de sol, o que deixa 2026 entre os cinco verões mais soalheiros desde 1951. Chuva é que quase nem vê-la. Caíram apenas cerca de 171 litros/m², aproximadamente 72% do normal, com os rios a ficarem em níveis historicamente baixos.

No Reino Unido, 2026 tornou-se o verão mais quente desde 1884. A temperatura média dos três meses chegou aos 16,5°C, quatro décimas acima do recorde estabelecido apenas um ano antes. Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte bateram individualmente os respetivos recordes. E, em Inglaterra e no País de Gales, várias regiões terminaram o verão mais de 2°C acima da média.

Mas são os números absolutos das temperaturas que causam mais espanto. 54 estações meteorológicas bateram os seus próprios recordes de temperatura máxima. 2026 foi, pela primeira vez, o ano em que estes três meses do verão britânico — junho, julho e agosto — tiveram pelo menos um dia acima dos 35°C.

Nos Países Baixos, a temperatura média atingiu os 19,3°C, quando o último máximo era de 17,5°C. Foi o verão mais quente desde que há registos, em 1901, ultrapassando os 18,9°C de 2018 e atirando a referência, 2003, com 18,7°C, para terceiro. A 26 de junho, Ell chegou aos 39,4°C e o país emitiu pela primeira vez um código vermelho por calor extremo. Até final do mês passado, agosto, havia um défice de precipitação de cerca de 285 milímetros — é quase três vezes o valor normal nesta época do ano.

A Bélgica ultrapassou uma barreira que já levava quase dois séculos, desde que são feitas observações em 1833. Nunca a média de junho, julho e agosto tinha atingido os 20°C. O anterior recorde, em 2018, era 19,9°C, mas em meteorologia e em médias deste género, esta décima é mesmo muito importante.

Esta média recorde tem muitos extremos por detrás. Vamos ser repetitivos: a temperatura máxima média do verão atingiu 25,2°C, outro máximo histórico e a mínima média chegou aos 15,2°C, outro recorde. Houve três vagas de calor e, durante 64 dias consecutivos, de 16 de junho a 18 de agosto, a temperatura máxima nunca desceu dos 20°C. No conjunto do território belga, o maior recorde foi de Houyet: 40,4°C a 27 de junho.

Na Áustria, o verão de 2026 também passou para o primeiro dos registos históricos. A temperatura média ficou 2,6°C acima da normal da sequência 1991–2020. Em 5 de agosto aconteceu algo que nunca tinha acontecido desde que há medições oficiais: a barreira dos 41°C foi ultrapassada, com 41,2°C em Bad Deutsch-Altenburg.

Mas não foi um recorde único, longe disso. Em 93 estações austríacas foi batido o máximo do número de dias com 35°C ou mais. Nas zonas abaixo dos 500 metros de altitude houve, em média, 42 dias acima dos 30°C, mais 170% do que seria normal. E em Bad Deutsch-Altenburg, Ferlach e St. Andrä im Lavanttal chegaram a contar-se 55 dias acima dos 30°C.

Um dado importante na questão austríaca: está com seca desde antes destes três meses de verão. De agosto do ano passado até agosto deste ano, teve os 12 meses mais secos desde o início das medições, em 1850. Até 12 de agosto, 72% do território austríaco tinha registado mais dias secos do que nos 65 anos anteriores.

Na Irlanda, o recorde caiu pelo segundo ano consecutivo. A temperatura média nacional foi de 16,28°C e bateu por nove centésimos os 16,19°C de 2025. As medições começaram em 1900 e seis dos 10 verões mais quentes irlandeses são já neste século.

Itália ajuda a mostrar que há uma tendência clara, mas não uniforme. O Copernicus mostra várias áreas italianas com o verão mais quente pelo menos desde 1979, mas ainda não há registos definitivos, nem balanços regionais que garantam tratar-se de recordes. Na Emilia-Romagna, 2026 ficou praticamente ao nível de 2003 na temperatura média do verão. Sabe-se, contudo, que as máximas foram as mais altas desde 1961 e que houve 32 dias acima dos 35°C, este sim, um novo máximo. Em Bolonha, contabilizaram-se 81 noites tropicais.

O calor europeu já está a alterar até fluxos comerciais agrícolas: as más colheitas de milho na Europa, combinadas com outros choques, estão a favorecer exportações recorde da Argentina, segundo a Reuters. E, a tudo isto, ainda há a juntar a seca nos grandes rios europeus, como o Danúbio e o Reno, que alteraram vias comerciais.

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